O que o vocabulário de uma criança conta sobre sua linguagem?
Rita de Cássia ALVES-LIMISSURI*
rita_dias_alves@hotmail.com
As palavras
Para que os homens possam ter uma comunicação eficaz, as palavras exercem um papel indispensável. Sabemos que até a idade de 18 meses o desenvolvimento lexical é lento, sofrendo um aumento “explosivo” a partir do instante em que o vocabulário atinge 50 palavras (MALDONADO et al, 1993). Sabemos também que essas primeiras palavras são referentes a nomes de pessoas, de animais, de brinquedos, de alimentos e de elementos da vida cotidiana. (CLARK, 1997).
Mas qual o caminho trilhado até que as palavras cheguem à boca da criança? O que se passa antes do primeiro « mamãe » ou « papai »?
Desenvolvimento do Vocabulário
O processo que vai desencadear a oralidade da criança começa muito cedo. Para o bebê, a fala do adulto é apenas um barulho sem sentido. Ele vai, então, a partir das pistas sonoras da língua, conseguir perceber, que esse barulho pode ser separado em pequenos “pedaços”: as palavras. No entanto, perceber uma palavra, não significa reconhecer seu significado; começa aí um novo trabalho. A criança deverá observar o que se passa ao seu redor e se utilizar das interações humanas para encontrar pistas como, por exemplo, o contexto em que uma determinada palavra surge para, então, encontrar o seu sentido.
Em 1979, BENEDICT já havia explicado que as relações sociais são fundamentais na formação do conceito e citado a escola e o ambiente familiar como duas grandes fontes de estimulação para o desenvolvimento lexical. Atualmente os pesquisadores da área continuam a se interessar pelos recursos dos quais a criança se serve para chegar ao sentido das palavras, mas, o que nos importa nesse momento, é saber que a compreensão da palavra antecede sua produção, ou seja, a criança sabe mais do que aquilo que é capaz de expressar.
As primeiras palavras da criança normalmente são formadas por uma ou duas sílabas e são termos gerais (usados para representar uma grande quantidade de objetos).
Como o vocabulário é levado em conta pelas educadoras
Para minha dissertação de mestrado perguntei à sete educadoras de uma creche municipal quais crianças elas consideravam ter uma dificuldade de comunicação. Em seguida, apliquei o teste de vocabulário desenvolvido por BEFI-LOPES (2000) em todas as crianças (as mencionadas e as não mencionadas pelas educadoras). Dessa maneira, 123 crianças de 3;0 a 5;11 anos passaram pelo teste.
Vale dizer que outros testes foram realizados, porém, para esse artigo, vamos considerar as crianças que falharam exclusivamente na prova de vocabulário.
Considerando as três faixas etárias, 21 crianças que foram indicadas pelas educadoras como tendo alguma dificuldade de comunicação falharam em alguma das provas aplicadas e, entre elas, 14,3% apresentaram vocabulário abaixo do esperado para a idade. Por outro lado, entre as 28 crianças que não foram indicadas, mas que apresentaram alguma dificuldade nos testes realizados, 42,9% falharam apenas na prova de vocabulário. Os resultados indicam a dificuldade em se notar o baixo vocabulário de uma criança quando esta não apresenta outras manifestações associadas.
A importância do vocabulário:
Como dito anteriormente, as palavras nos permitem comunicar. No entanto, o que pouco se discute é a importância do vocabulário para etapas posteriores do desenvolvimento. SCARBOROUGH (1991), entre outros, reforça que o nível de vocabulário pode predizer, inclusive, futuras dificuldades de leitura.
O que se considera em uma avaliação de linguagem:
O teste de vocabulário normalmente faz parte da avaliação de linguagem realizada pelo fonoaudiólogo e certamente o diagnóstico será realizado caso a caso levando-se em conta o histórico de cada criança individualmente.
É importante esclarecer que para minha pesquisa, eu não realizei uma avaliação de linguagem e que, portanto, nenhuma criança foi diagnosticada como tendo déficit de vocabulário. Considerei para esse estudo, somente o fator pontuação, ou seja, se a criança atingiu ou não o número de respostas corretas esperadas para a idade. Em uma avaliação completa, considera-se mais do que isso; considera-se também o tipo de resposta que a criança deu, uma vez que ela pode ir da ausência de resposta até uma resposta bem próxima da esperada (dizendo shorts no lugar de calça, por exemplo). Nesse último caso, onde a criança utiliza palavras com um significado muito próximo ao da palavra que deveria ter sido dita, a sua comunicação com as pessoas não chega a ser prejudicado, o que pode fazer com que seu vocabulário não desperte a atenção daqueles que a rodeiam.
Por essa razão, proponho aqui algumas perguntas simples que o educador pode se colocar quando houver uma suspeita de dificuldade:
- Quando solicitada a pegar um objeto de uso comum no dia a dia, a criança o faz sem dificuldade? Lembrando que as cores, as formas, os tamanhos, enfim, as características de cada objeto também são palavras que devem fazer parte do vocabulário da criança. ATENÇÃO: com o desenvolvimento, a criança deverá reconhecer as especificidades de cada elemento e deverá deixar de nos oferecer a miniatura do cavalo, por exemplo, a cada vez que solicitamos o boi.
- A criança aponta muito para o que deseja?
- A criança, ao falar, faz uso de maneira excessiva de termos não específicos como: “coisa, isso, negócio...”? Você sente que lhe falta a palavra, que existe hesitação, espaços em branco na comunicação?
- Há muitas generalizações como, por exemplo, “passarinho” para todas as aves ou “cadeira” para todos os tipos de assento (sofá, banco, poltrona...)?
Reforço que a resposta positiva em uma ou mais dessas questões não significa que a criança apresente algum déficit. O intuito é de apenas chamar a atenção para esse aspecto da linguagem nem sempre tão evidente.
Conclusão
Muitos pais se inquietam quando seu filho se aproxima dos dois anos de idade e ainda não pronuncia as tão aguardadas primeiras palavras. Outros acreditam que seu filho de três anos fala menos do que deveria. Há ainda aqueles que, cheios de orgulho, dizem que seu pequeno de quatro anos se utiliza de palavras tão refinadas parecendo mesmo um adulto! Enfim, o vocabulário há tempos é tido como o “medidor” do desenvolvimento lingüístico e social das crianças.
Não é difícil identificar um atraso de linguagem naquela criança que ainda se comunica via gestos enquanto que seus coleguinhas da mesma idade já são capazes de contar o que fizeram no fim de semana. No entanto, a dificuldade começa quando temos que observar o vocabulário de uma criança que fala e se faz entender.
São várias as possíveis razões para que uma criança apresente um baixo vocabulário. Mas o fato é que elas podem vir a compensar essa deficiência utilizando recursos como substituir a palavra por sinônimos, descrevê-la (“aquilo que eu uso para escrever”), associar gestos, enfim, desenvolver uma comunicação socialmente aceita.
A importância de intervir nesses casos, onde há um baixo vocabulário, é de maximizar as capacidades lingüísticas, escolares e sociais da criança.
Bibliografia:
?ALVES, R.C.D. Fonologia e vocabulário na percepção de educadoras sobre comunicação de pré-escolares. Dissertação apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre pelo Departamento de Lingüística. São Paulo, 2005
?BEFI-LOPES, D.M. Vocabulário. In ANDRADE, C.R.F.; BEFI-LOPES, D.M.; FERNANDES, F.D.M.; WERTZNER, H.F. ABFW – Teste de Linguagem Infantil nas Áreas de Fonologia, Vocabulário, Fluência e Pragmática. São Paulo: Pró-Fono: 2000, cap., p.41-47.
?BENEDICT, H. Early lexical development: comprehension and production. Journal of child language, v.6, n.1, p.183-200, 1979.
?CLARK, E.V. Desenvolvimento lexical tardio e formação de palavras. In FLETCHER, P.; MACWHINNEY, B. Compêndio da Linguagem da Criança. Porto Alegre: Artes Médicas:1997, cap.13, p.299-321.
?MALDONADO, D.J. et al. Early lexical development in Spanish-speaking infants and toddlers. Journal of Child Language, v.20, p.523-549, 1993.
?SCARBOROUGH, H.S. Early syntactic evelopment of dyslexic children. Annals of Dyslexia, 41, 207-220, 1991.
* Fonoaudióloga pelo Centro Universitário São Camilo; Especialista em Linguagem pela PUC-SP; Mestre em Lingüística pela USP-SP; Pós-Graduada em Psicolingüística no LSCP/ENS – Paris, França.
Próxima turma: 16/03/10
de R$ 174,15 por R$ 165,44
ou 3x de R$ 55,15
sem juros no cartão de crédito
Próxima turma: 16/03/10
de R$ 174,15 por R$ 165,44
ou 3x de R$ 55,15
sem juros no cartão de crédito
Próxima turma: 16/03/10
de R$ 174,15 por R$ 165,44
ou 3x de R$ 55,15
sem juros no cartão de crédito
Próxima turma: 16/03/10
de R$ 174,15 por R$ 165,44
ou 3x de R$ 55,15
sem juros no cartão de crédito