*Maria Helena da Costa Smaniotto
Na atual realidade em que vivemos, as transformações são constantes e em ritmo muito acelerado; onde "verdades" são questionadas e as nossas "certezas" se tornaram provisórias. Diante deste quadro; aprender a aprender e saber pensar são habilidades indispensáveis ao sujeito.
Para oportunizarmos o desenvolvimento das mesmas em nossos educandos, precisamos repensar nossas práticas e rever alguns pontos, refletindo sobre o estilo das aulas que são dadas em nossas escolas e percebendo a necessidade de priorizar o aprender a conviver e o aprender a ser, fundamentais ao sujeito-cidadão.
Conforme analisa Pedro Demo, in Pesquisa e Construção do Conhecimento, existem alguns tipos razoáveis de aula:" A aula que socializa a pesquisa; podendo ter o nome de conferência, preleção, comunicação, perfazendo o papel essencial de transmitir conhecimento construído; a aula questionadora, feita para motivar a pesquisa e a introdução inovadora; não oferece respostas prontas, mas organiza perguntas, não deixa os alunos parados, mas os faz se manifestarem, não esparge certezas, mas multiplica a dúvida metódica e por último, a aula introdutória, destinada a apresentar temas e sobretudo a fornecer uma visão geral, ainda que superficial, mas que não se basta em anunciar e esvoaçar."
Refletindo sobre nossas aulas, podemos dizer que nos esmeramos, oferecemos táticas expositivas, bem organizadas, planejadas e utilizamos recursos audiovisuais; procuramos expor bem e de modo atrativo os temas. Porém os temas muitas vezes são alheios às necessidades ou interesses dos educandos e ficamos preocupados apenas em prender a atenção e melhorar o show. Segundo Pedro Demo, a ciência não progride e nem se faz por tal via. Ele nos provoca a repensar realmente sobre nossa prática pedagógica, no sentido de questionar o que e como se faz, convidando a diversificar e redimensionar.
Pedro Demo questiona o valor da aula expositiva, onde um ensina e os outros supostamente aprendem, sendo fundamental prestar atenção, tomar nota, fazer silêncio.Estabelece-se o privilégio do auditório cativo, submetido à vingança da prova. A autoridade do professor é absoluta, porém não há real aprendizagem.
Ele aponta também para um submundo inútil de aulas que apenas ensinam a copiar. Não revelam qualquer esforço construtivo, nem no professor, nem no aluno, sendo que o último repete o que está no livro ou é dito como verdade pelo professor; geralmente, sem compreender o que significa, sem refletir sobre o que lê e escreve.
"Ensinar e aprender não é repetir, mas recriar e projetar em situação dialógica por onde começa um novo processo..." Mário Osório Marques
"O problema crucial da aula é que não substitui a elaboração própria e a pesquisa. A rigor e por mais questionadora que seja, aula não constrói conhecimento, ainda que seja útil para a socialização.São as vivências, as experiências, que envolverão o sujeito, despertando a curiosidade e o desejo de saber mais, estas sim, farão a diferença. A aprendizagem precisa ser ativa, construída pelo educando a partir da sua interação com os conteúdos sócio-culturais e requer um ensino ativo."Pedro Demo
O educador deve estar atento para propor conteúdos e atividades que possibilitem ao aluno aprender pela ação. O processo ensino-aprendizagem se constitui dentro das interações que vão se dando nos diversos contextos sociais. A sala de aula deve ser considerada um lugar privilegiado da sistematização do conhecimento e o professor um articulador na construção do saber.
O que o aluno constrói com iniciativa própria, pesquisando em grupo e elaborando individualmente, fica para a vida, principalmente a atitude cotidiana construtiva, sendo uma chance real de futuro.
Não podemos aceitar a idéia de sala de aula "arrumada", onde todos devem ouvir uma só pessoa transmitindo informações que são acumuladas nos cadernos, de forma a reproduzir em determinado saber eleito como importante e fundamental para a vida de todos e onde se exige que todos aprendam no mesmo ritmo, demonstrando as mesmas potencialidades.
Quando se pensa em uma sala de aula em um processo interativo, acreditamos que todos terão possibilidade de falar, levantar suas hipóteses e que ao aluno seja propiciado perceber-se parte de um processo dinâmico de construção.
O questionamento crítico e criativo, a capacidade de comunicar e comunicar-se, a habilidade de argumentar e contra-argumentar são necessárias ao cidadão que possui um projeto próprio, sendo sujeito histórico lúcido e participativo. Será que estamos abrindo esta possibilidade aos nossos alunos com nosso estilo de aulas?
Queremos que nosso aluno aprenda a copiar tudo corretamente e reproduza fielmente nossas idéias e as dos textos em avaliações ou estamos privilegiando a produção e a elaboração própria?Esta última é indispensável para o domínio da linguagem, que consiste em alicerce fundamental da cidadania.
Devemos erradicar o mero ensino, a prova reprodutiva e mudar o conceito de bom aluno, usado para aquele que memoriza com facilidade e faz boas provas, para aquele que sabe pensar. "Por trás do pensar está a idéia da compreensão do que se diz e faz. Pensar não é apenas ter idéias. Saber pensar não é só pensar. É sobretudo, saber intervir." Pedro Demo
Se nós educadores refletirmos sobre nossa prática, analisarmos nossos avanços e fizermos o balanço sobre as aprendizagens significativas ou não que oportunizamos; teremos condições de revolucionar a educação e a própria sociedade, que será composta na sua totalidade por seres que pensam, agem e participam da construção histórica; fazendo escolhas conscientes.
Nós educadores, precisamos definir a direção que efetivamente desejamos dar à nossa prática para um exercício organizado da mesma, assumindo a responsabilidade de garantir uma aprendizagem satisfatória e significativa dos conteúdos científicos e culturais.
O conhecimento que se adquire deverá possibilitar a iluminação da realidade, propiciando ao educando, fazer conexões com a realidade, compreendendo-a.
São muitas as teorias e idéias de grandes pensadores para a educação.Mas só com a capacidade de refletir sobre nossas práticas pedagógicas e redimensiona-las, será possível fazer germinar uma escola mais atraente, com objetivos voltados para a formação de um cidadão crítico e participativo, apostando na evolução do ser-sujeito.
Refletir sobre nossas aulas é um desafio, pois refletir é tomar posição, é avaliar, é avançar, é repensar as ações; é desejar fazer melhor...
"Refletir de fato é desconfiarmos da nossa experiência..." Júlio G. Aquino.
*Coord. Pedagógica da Educação Infantil e Séries Iniciais
do Ensino Fundamental Instituto Municipal de E. Assis Brasil.
Formada no magistério em 1986, professora concursada desde 1987,
na rede municipal de ensino de Ijuí. Formada em Pedagogia pela UNIJUÌ,
em 1991 e Pós-graduada em Gestão e Orientação escolar em 2006 pela UNOPAR(ead)