Renata Aquino
Instituto Paulo Freire, USP, Fundação Abrinq e MEC são algumas instituições envolvidas com os novos projetos de educação a distância que revolucionaram o ensino de analfabetos
Mais de 20 milhões de brasileiros são analfabetos no Brasil. Estrangeiros ao sistema educacional, excluídos das melhores remunerações no mercado de trabalho, alheios à participação política, os analfabetos formam um contingente cada vez mais problemático no Brasil.
Mudam os governos, aumentam os programas de alfabetização e as soluções paliativas para o problema. Um aspecto da alfabetização no Brasil, no entanto, tem atraído muita polêmica e transformado a maioria dos programas educacionais na área. A educação a distância (EAD) passa a ser cada vez mais comum para alfabetização de jovens e adultos.
A importância da EAD para alfabetização ainda é, no entanto, um assunto pouco tratado. A relação da educação não-presencial com a tecnologia é outro campo minado para os programas de alfabetização. Buscando responder algumas dessas questões, o Universia reuniu alguns exemplos de programas e especialistas para discutir o assunto.
Rádio e TV
No Instituto Paulo Freire, projetos de alfabetização de adultos utilizam instrumentos bastante familiares para educação a distância, o rádio e a TV. "O projeto Escola do Rádio foi uma iniciativa de alfabetização cidadã que foi colocada em prática pelo IPF e deve ser realizada novamente em breve", afirma Sonia Couto, coordenadora de projetos de Educação de Jovens e Adultos do Instituto Paulo Freire.
No início de novembro, o projeto Escola do Rádio irá anunciar o local onde será realizado. Em parceria com o Governo Federal, o projeto levará a alfabetização a regiões remotas do Brasil unindo ensino presencial e não-presencial com a ajuda de radinhos de pilha distribuídos junto com material didático.
O Instituto realiza ainda o material didático para o Telecurso 1º Grau, que irá capacitar jovens e adultos com conteúdo equivalentes ao da 1ª a 4ª séries do ensino fundamental. O projeto, uma parceria com a Fundação Roberto Marinho, tem ainda o apoio do IPF na formação dos educadores.
"Todos os nossos projetos de alfabetização têm como característica a intervenção do professor. Achamos que esses programas podem ser, no máximo, semi-presenciais mas nunca totalmente a distância", afirma Sonia Couto. "Acreditamos na EAD como uma possibilidade a mais de aprendizado, um componente do ensino".
Para o IPF, o programa de alfabetização depende de um tripé de apoio formado por: educador, educando e meios tecnológicos que possam colaborar. Nem sempre o computador é o meio tecnológico ideal. O rádio e a TV têm o lugar de honra nos programas da instituição. O peso das aulas presenciais, no entanto, é pequeno. No programa Escola do Rádio, há uma aula por semana.
"O rádio é muito interessante para trabalhar a distância, em locais remotos e sem infra-estrutura. Já a TV é interessante para um reforço para um ritmo de aprendizado intenso, ampliando e dialogando o conteúdo dos livros e discutido na presença do professor", conta a coordenadora do IPF.
A coordenadora do IPF não descarta, no entanto, a importância do computador para o ensino a distância e diz porquê não é muito utilizada: "Não dá para dizer que a tecnologia pode ser um obstáculo, mas esbarra em dificuldades de infra-estrutura. Não chega a algumas regiões, então não se pode apostar tudo nela", conta Sonia.
Até mesmo para utilizar a TV e o rádio, o IPF precisou de apoio estrutural. Na Paraíba, os municípios sem acesso à TV a cabo precisaram de um esquema alternativo para ver o Telecurso exibido no canal Futura. Já os programas de rádio eram exibidos por uma emissora local, que fechava uma parceria com o IPF. Até mesmo o fornecimento de pilhas para o rádio era controlado pois alguns locais não possuíam energia elétrica ou pontos de venda de pilhas por perto.
"Nas regiões mais urbanizadas, utilizar EAD on-line é interessante, alfabetizar pelo computador é fantástico", conta Sonia. "O aluno aprende mais rapidamente, o computador é instigante e desafiador mas, infelizmente, não dá para pensar em um programa generalizado de alfabetização on-line no Brasil".
Para mudar a situação, é necessário o envolvimento do governo, de acordo com a coordenadora do IPF. "Um projeto interessante é a utilização dos laboratórios de informática das escolas municipais em São Paulo para alfabetização. As frentes de financiamento também são importantes e não se pode deixar de ver o valor das ações isoladas com apoio privado", diz a coordenadora.
Professora da USP coordena projetos desde 1996
A coordenadora do Núcleo de Estudos de Educação de Jovens e Adultos da Faculdade de Educação da USP desde 1996, Stela Piconez, iniciou projeto de alfabetização de jovens e adultos em 1987, utilizando inicialmente rádio e TV como recursos extras.
A coordenadora criou um sistema para auxiliar o professor denominado Sistema Transversal de Ensino-Aprendizagem. Com materiais impressos, CD-ROMs e um portal de serviços para professores e funcionários. O programa atende projetos que vão desde o ensino fundamental ao médio.
Para a professora, "não se pode simplesmente alfabetizar por recursos de EAD, mas utilizá-la como contribuição para o professor alfabetizador". É importante ainda notar, de acordo com a professora, que a tecnologia entra em cena apenas "após a fase de alfabetização inicial, processo complexo e que precisa ser feito quando os alunos estão evoluindo para o letramento (uso social da escrita e da leitura)".
Há ainda a utilização de recursos tecnológicos para outro tipo de alfabetização. A alfabetização digital é a utilização de recursos tecnológicos para educação profissionalizante, que pode tornar estudantes mais hábeis com o computador. "A alfabetização digital significa o desenvolvimento de habilidades de fluência digital e para fazer isso, precisa estar-se muito bem alfabetizado, ler e compreender e ainda ter domínio conceitual da nova linguagem trazida pela Internet", diz a professora.
Alfabetização digital
Nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, recentemente 36 municípios receberam computadores para suas salas de Alfabetização Digital. As máquinas podiam ser acessadas livremente pela população e foram equipadas com computadores doados pelo Banco Central, em cidades do Ceará, Paraíba, Bahia e Pará.
Criada em 1997 para diminuir os índices nacionais de analfabetismo e fomentar a oferta de Educação de Jovens e Adultos, a Alfabetização Solidária (Alfasol) distribuiu lotes compostos de cinco microcomputadores e uma impressora. Os 180 computadores foram disponibilizados com o apoio das prefeituras municipais.
O programa de educação profissionalizante foi restrito a municípios que já possuem programas de Educação de Jovens e Adultos. O Alfabetização Digital envolve ainda instituições de ensino superior (IES) parceiras da Alfasol.
Consultoras da Natura contam com a ajuda da Internet para programa de alfabetização
A Natura, o MEC (Ministério da Educação) e a Fundação Abrinq (Associação Brasileira da Indústria de Brinquedos) fizeram uma parceria para alfabetização inovadora no Brasil. O Programa Crer para Ver envolve 367 mil consultoras da Natura em todo o país que identificam e ajudam a matricular na escola jovens e adultos que não concluíram o ensino fundamental.
A idéia do programa é formar uma rede social em prol da educação. Para que as consultoras possam orientar corretamente os potenciais alunos, a Natura e a Fundação Abrinq formaram um banco de dados com 8.606 escolas de todo o País nas quais são oferecidas a EJA. A lista completa da distribuição das escolas por estados e municípios está disponível no site do Programa Crer para Ver.
A Natura arrecada ainda recursos para o programa por meio da venda da linha de produtos Crer para Ver. Produtos como camisetas de artistas brasileiros podem ser comprados navegando no site da Natura.