artigo

quinta-feira, 12 de julho de 2012 - 19:39

Tamanho do texto: A A

Literatura de Cordel em Sala de Aula

por: Wania Aparecida Guedes da Silva

Literatura de Cordel em Sala de Aula
Literatura de Cordel em Sala de Aula
A sequência didática "Literatura de cordel em sala de aula - formando leitores-escritores" foi aplicada aos alunos da disciplina de leitura e produção de texto do sétimo ano/sexta série do colégio Caran Apparecido Gonçalves, em São Paulo, no ano de 2011. A sequência foi organizada para contemplar algumas das expectativas de aprendizagem para este ano/série, no âmbito da leitura e escrita. A literatura de cordel foi escolhida como tema, pois era pouco conhecida tanto pelos alunos quanto pela professora, sendo este um caráter motivador para todos os envolvidos.

Além disso, levando em consideração que neste ano/ série trabalha-se com os tipos textuais narrativos e descritivos, os cordéis seriam um "meio" interessante para trabalhá-los, uma vez que os cordéis tratam, de modo geral, da narração de fatos engraçados, heroicos ou fantasiosos, e descrevem também personagens com estas características. É importante salientar também que alguns cordéis são o "suporte" para denúncias sociais e se tornam um meio de protesto, entrelaçando pelo menos, dois diferentes enfoques comunicativos: o de entretenimento e crítica social.

Durante aproximadamente dez aulas de cinquenta minutos, os alunos desenvolveram atividades em torno do gênero cordel e produziram seus folhetos. A descrição detalhada destas atividades será apresentada a seguir. Fases do Processo e Metodologia:

Etapa 1 (uma aula) - Para introduzir o assunto cordel, foi feito um levantamento dos conhecimentos prévios dos alunos sobre o gênero. Verificado que os estudantes pouco conheciam dos cordéis, foi solicitado um trabalho de pesquisa sobre o gênero, que poderia ser desenvolvido em três vertentes: ou uma pesquisa sobre a história da literatura de cordel, ou sobre a biografia do Patativa do Assaré, ou ainda, elaborar uma pequena antologia de cordéis.

Nesta pesquisa deveria constar ainda uma conclusão, na qual o aluno escreveria, com suas próprias palavras, o que tinha entendido do assunto até então. Como deveriam realizar a pesquisa em casa, foi informado aos alunos que nas aulas seguintes seria desenvolvido um trabalho em torno desse gênero, cujo objetivo final era a produção de um folheto, a ser divulgado no mural da escola.


Etapa 2 (três aulas) - Os trabalhos iniciaram-se com a leitura de folhetos trazidos da Paraíba, em formato e papel original, para que os alunos tivessem contato com materiais autênticos. Os folhetos foram alocados na sala de aula respeitando as características de sua origem primeira, isto é, foram pendurados em barbantes, atravessando a sala. Em duplas, os alunos deveriam escolher um dos folhetos disponíveis e fazer a leitura, seguida de um roteiro para avaliação. Este roteiro era composto de perguntas de verificação de leitura e sensibilização para as características composicionais do gênero.

Nele, havia as seguintes perguntas: 1) Quem é o autor do folheto? 2) O texto está em prosa ou em verso? 3) O que produz a sonoridade e o ritmo do texto? 4) É escrito em linguagem formal ou informal? 5) Trata-se de uma história contada ou é uma crítica social? 6) Há desenhos? Como eles são? O desenho tem relação com o texto? 7) Qual a relação entre o título e o conteúdo do texto? 8) Faça um resumo do cordel que você leu. Enquanto os alunos liam e respondiam a estas questões, as duplas eram questionadas pela professora sobre sua opinião sobre o texto, se estavam gostando da atividade, e como aquele texto / folheto estava relacionado com a pesquisa solicitada anteriormente. Foram colhidas assim as impressões do trabalho desenvolvido até aquele momento. Cabe ressaltar que conceitos como "prosa", "verso", "linguagem formal e informal", "sonoridade", "ritmo", já haviam sido trabalhados anteriormente com outros gêneros textuais e neste momento, estavam sendo retomados, para sua fixação.


Etapa 3 (duas aulas) - De posse dos roteiros de leitura, e verificado o nível de compreensão dos elementos composicionais do cordel, foi realizada uma aula interativa, com o material em vídeo disponibilizado nos cadernos de apoio. Através deste material, foi apresentada aos alunos a história da literatura de cordel no Brasil? Especificamente no nordeste? A importância da xilogravura para o folheto, a leitura de cordéis de autores que eles puderam conhecer através da pesquisa, além da relação entre cordel e música / repente. Foi realizada também uma aula expositiva sintetizando as informações disponibilizadas até então, além de explicações sobre aspectos composicionais.


Etapa 4 (quatro aulas) - Por fim, iniciou-se o processo de escrita do folheto, em grupos. Aos alunos foi fornecido um folheto, feito em papel sulfite e capa colorida, sem texto, para que eles compusessem a história e ilustrassem. Durante este processo, houve orientação por parte da professora no intuito de auxiliar, por exemplo, a seleção de rimas. Após a finalização da escrita dos cordéis e feita a avaliação, em sala, foram lidos os textos que atingiram a expectativa, isto é, estavam dentro do que se esperava para o gênero cordel, permitindo a apreciação e divulgação dos trabalhos dos alunos, bem como sua apresentação posterior em um mural na escola.

Análise dos resultados os cordéis produzidos, de maneira geral, atenderam as exigências composicionais do gênero em questão, principalmente em relação às características de se escrever um texto em forma de poesia, com rimas, versos e estrofes, além do tom informal que o cordel apresenta, e que serviu para mostrar aos alunos que essa forma de escrita informal tem seu valor cultural, que não pode ser jamais desprezada. Foram notados que os textos que não atingiram as expectativas do gênero cordel foram aqueles em que se produziram poemas, normalmente de temática amorosa ou de amizade, do que se conclui o seguinte: algumas características que poema e cordel têm em comum? Como as estrofes, versos, rimas, sonoridade, ritmo? Foram utilizadas pelos alunos, mostrando que, de certa forma, eles se apropriaram desses conceitos e tiveram muita preocupação com a sonoridade e a estrutura visual do texto.

Sendo assim, ao levar em consideração o que se afirma no "decálogo para ensinar a escrever", de Dolz e Pasquier, percebe-se que a escolha pela aprendizagem em espiral, relacionando os gêneros poema e cordel, permitiu aos alunos a transferência de conhecimentos de um gênero para o outro, devido a suas semelhanças; o aluno tem a possibilidade, também, de ampliar sua capacidade metagenérica, isto é, consegue transitar, entre gêneros diversos percebendo, por exemplo, nesta sequência, a importância da informalidade para caracterizar o texto. O que ficou faltando então? O caráter temático do cordel, a necessidade de, em um cordel, contar uma história ou fazer uma crítica. Foi esse o principal elemento que faltou, provavelmente por não ter ficado evidente para os alunos.

Com o intuito de evitar esses "desvios", sugerem-se algumas atividades que deverão ser aplicadas em virtude da reescrita ou mesmo antes da fase da escrita, complementando a sequência, como por exemplo:- Selecionar um texto curto de cordel e através da leitura compartilhada esmiuçá-lo, mostrar como nele há uma história ou crítica; - Retomar conceitos de narração, apresentando vídeos de cordel e solicitando a identificação das características de um texto narrativo em poesia. - Apresentar aos alunos duas estrofes de cordel e solicitar que eles continuem o texto, para treinarem, ou- Fazê-los ouvir um repente, ou brincar de fazer um repente, que é um gênero que se entrelaça e quase se confunde com o cordel. Obviamente, para os alunos que não atingiram as expectativas, as atividades sugeridas acima poderiam auxiliar na compreensão maior do gênero e favorecer o processo de reescrita.
CreativeCommons

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

Comentários


colunista

Wania Aparecida Guedes da Silva

Professora de Língua Portuguesa e Italiana formada pela Universidade de São Paulo. Atualmente leciona na prefeitura de São Paulo, trabalhando com alunos do ensino fundamental regular e Eja. Em 2010 e 2011 trabalhou como professora na rede Estadual de ensino e também como professora de língua Italiana pela empresa Lótus.

Educação e Pedagogia