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Artigos de Pedagogia


A biblioteca de Alexandria, a imprensa de Gutenberg e a Internet


1 de janeiro de 2008


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*Jacir J. Venturi

"Meus filhos terão computadores sim, mas antes terão livros." (Bill Gates)

Alexandria, no Egito, reinou quase absoluta como centro da cultura mundial no período do século III a.C. ao século IV d.C. Sua famosa Biblioteca continha praticamente todo o saber da Antiguidade em cerca de 700.000 rolos de papiro e pergaminho e era freqüentada pelos mais conspícuos sábios, poetas e matemáticos.
A Biblioteca de Alexandria estava muito próxima do que se entende hoje por Universidade. E se faz apropriado o depoimento do insigne Carl B. Boyer, em A história da Matemática: "A Universidade de Alexandria evidentemente não diferia muito de instituições modernas de cultura superior. Parte dos professores provavelmente se notabilizou na pesquisa, outros eram melhores como administradores e outros ainda eram conhecidos pela sua capacidade de ensinar."
Em 47 a.C., envolvendo-se na disputa entre a voluptuosa Cleópatra e seu irmão, o imperador Júlio César mandou incendiar a esquadra egípcia ancorada no porto de Alexandria. O fogo se propagou até as dependências da Biblioteca, queimando cerca de 500.000 rolos. Restaram aproximadamente 200.000.
Em 640 d.C., o califa Omar ordenou que fossem queimados todos os livros da Biblioteca sob o argumento de que "ou os livros contêm o que está no Alcorão e são desnecessários ou contêm o oposto e não devemos lê-los".
A destruição da Biblioteca de Alexandria talvez tenha representado o maior crime contra o saber em toda a história da humanidade.
O acesso à Biblioteca era restrito, até porque a maioria da população não sabia ler. Somente os grandes sábios se debruçavam sobre seus vetustos e novéis pergaminhos. Em cerca de 300 a.C., Euclides escreveu Os elementos, um dos mais notáveis compêndios de Matemática de todos os tempos, com mais de mil edições desde o advento da imprensa (a primeira versão impressa apareceu em Veneza em 1484). Essa obra tem sido - segundo George Simmons - "considerada como responsável por uma influência sobre a mente humana maior que qualquer outro livro, com exceção da Bíblia".
Eratóstenes (276-194 a.C.), um outro diretor da Biblioteca, comprovou a esfericidade da Terra e mediu com precisão e engenhosidade o perímetro de sua circunferência.
Arquimedes (287-212 a.C.), cuja genialidade como físico-matemático só é comparável à de Newton e Einstein, estudou no Templo do Saber em epígrafe.
Até meados do século XV, a reprodução do conhecimento se fazia essencialmente através dos monges copistas, pontuados em algumas dezenas de mosteiros e universidades.
Em 1455, o ourives alemão Johann Gutenberg (c. 1437-1468) inventou a tipografia, cabendo-lhe o mérito de ser o primeiro (pelo menos no Ocidente) a utilizar tipos móveis metálicos feitos de uma liga especial de chumbo, estanho e antimônio. Ele projetou um novo tipo de prensa, baseado naquelas usadas para espremer uvas. Preparou uma tinta especial, à prova de borrões. Esse sistema operacional de impressão funcionou tão bem que perdurou praticamente inalterado até 1811, quando outro alemão, Friedrich Koenig, substituiu a mesa de pressão por um cilindro com acionamento a vapor e capaz de imprimir a fantástica tiragem de 1.100 cópias por hora.
Gutenberg dedicou um ano e meio à impressão de 200 lindíssimas Bíblias de 1.282 páginas escritas em latim, utilizando tipos góticos. Sobreviveram apenas 12 Bíblias de Gutenberg, impressas em pergaminho.
Tive a ventura de conhecer um exemplar na mansão de Huntington, em Los Angeles. Confesso que fiquei extasiado diante de sua beleza plástica e gráfica. Obra de artista e gênio.
Henry Huntington adquiriu esta preciosidade em 1919 pela bagatela de US$ 50.000.
- Quanto vale hoje? - perguntei.
- Não há dinheiro que remova esta raridade - respondeu, solicitamente, a diretora da Huntington Library.
A imprensa provocou uma vigorosa transformação e, de pronto, influiu extraordinariamente no Renascimento. Tamanho foi o alcance e a influência da tipografia de Gutenberg que ela foi considerada a maior revolução tecnológica do milênio, pois propiciou a democratização do conhecimento, com impressão em grande escala de livros e jornais.
Nessa época, a Europa possuía cerca de 50 milhões de habitantes. Só 15% sabiam ler, pois raramente conseguiam livros. O engenho de Gutenberg se propagou espantosamente e fez dobrar em poucos anos o número de europeus alfabetizados. Em 1500, já circulavam meio milhão de livros.
Se vivemos hoje a Era do Conhecimento é porque alçamo-nos em ombros de gigantes do passado. A Internet representa um poderoso agente de transformação do nosso modus vivendi et operandi.
É um marco histórico, um dos maiores fenômenos de comunicação e uma das mais democráticas formas de acesso ao saber e à pesquisa. Mas, como a toda a inovação, cabem ressalvas. Tem potencial cuja medida não deve ser superdimensionada. Seu conteúdo é fragmentado, desordenado e, além do mais, cerca de metade de seus bites é descartável, é entulho, é lixo. Bem-vinda a Internet 2, a banda larga, a Web sem fio (wireless).
Segundo o Ibope, atualmente, 80% dos brasileiros usuários da rede são das classes A/B; 16% da classe C; 4% das classes D/E. O alento vem por conta do aporte de novos internautas na população menos aquinhoada: 50% de crescimento na classe C e quase 100% nas classes D/E nos últimos dois meses. "O importante" - se faz oportuno Joelmir Beting - "é organizar ações coletivas públicas e privadas, para que tenhamos a difusão dos micros e dos softwares didáticos no rodapé da pirâmide social."
Vivemos ainda uma fase de exclusão digital. Longe, portanto, do homo digitalis. Estudo da ONU relata que apenas 5% da população mundial usa o colorido mundo do www e que, em apenas seis países (EUA, Japão, Reino Unido, Alemanha, Canadá e Itália), concentram-se 82% dos internautas do mundo. Destarte, é falaciosa e prematura a assertiva de que o acesso on-line representa um poderoso nivelador de oportunidades entre ricos e pobres. O gueto tecnológico e a estrutura de desigualdades socioeducacionais entre os países permanecem inalterados.
Nos EUA, são 135,7 milhões de conectados. Em contrapartida, o número é praticamente nulo em Camarões, Congo, Angola, Argélia e Burundi.
"Aprender é como parto: é uma coisa linda, mas dói", ensina Pedro Demo. E não é barato! Ademais, para tirar uma comunidade do atraso não basta o aporte substancioso de recursos tecnológicos e financeiros. Requer pessoas comprometidas e altruístas para alterar a cultura e o status quo de latência, apatia e falta de iniciativa. Requer professores motivados, entusiasmados, com disposição e visão holística. Sem isso, é exigir que a comunidade levante seu corpo puxando os próprios cabelos.

*****

Jacir J. Venturi*
Diretor de escola, cidadão Honorário de Curitiba, autor de livros e professor da UFPR (durante 26 anos) e PUC-PR (durante 11 anos)
Mais informações sobre o autor no site www.geometriaanalitica.com.br.
E-mail: jacirventuri@geometriaanalitica.com.br

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