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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011 - 13:14

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Eles não se alfabetizam! - O que fazer?

por: Liziane da Silva Barbosa

A avalição do professor é fator determinante para o diagnóstico
A avalição do professor é fator determinante para o diagnóstico
1. Introdução:

As dificuldades de aprendizagem estão em evidência nas mídias, nas clínicas de psicologia, mas é nas escolas que elas aparecem com maior frequencia. Essas dificuldades, estiveram presentes em toda a história da educação, entretanto apareciam com outros termos, os alunos com dificuldades eram tratados por “burros”, “retardados”, e ainda, nos tempos mais antigos, “endemoniados”. Os termos mudaram, mas ainda temos o famoso fracasso escolar,  a repetência, ou apenas o preguiçoso que não gosta de estudar, enfim os alunos difíceis . Após uma mudança de olhar, as crianças passaram a ter, ao invés de serem difíceis, um diagnóstico, que exime a escola do fracasso e da responsabilidade da não aprendizagem. Diante de tais mudanças surge a necessidade, por parte do professor, de compreender o que significam essas dificuldades para que, na ocorrência destas, saiba reconhecê-las e quando necessário encaminhá-las para atendimento clínico. Contudo é importante salientar que nem toda a dificuldade na aprendizagem tem relação com traumas psicológicos ou patológicos. As dificuldades de aprendizagem podem sim, e invarialvamente são, problemas na metodologia que a escola oferece. É preciso observá-las, bem como aos aluno, pois a diversidade de realidades e visões de mundo presentes na escola são muito grandes.

A avalição do professor é fator determinante para o diagnóstico de dificuldade de aprendizagem, pois este não é simples e tampouco fácil. Esse quadro pode ser oriundo de traumas, distúrbios ou ainda por deficiencias mentais de leve a graves. Mas também pode ser apenas falta de adequação ao método aplicado. Considerando isso é premente que haja um domínio significativo dos conceitos que determinam uma dificuldade de aprendizagem para que a escola não incorra no erro de encaminhar alunos que apenas tem ritmos diferentes, para análise clínica.

Após a apresentação da metodologia, será apresentado o relato de uma observação feita numa instituição pública de ensino especial, que só recebe crianças, adolescentes, jovens e adultos com diagnósticos de deficiencia mental. A descrição dos casos foi feita a partir dos dados coletados nas entrevistas com a psicóloga e com o instrutor de capoeira. O nome da instituição, dos entrevistados e dos alunos observados serão preservados.

2. Metodologia:

A proposta do trabalho de pesquisa foi investigar dificuldades de aprendizagem em alunos da rede regular de ensino, nas famílias e dos professores. Para tanto, após escolhida a instituição, utilizou-se dois métodos de coleta de dados. Um deles foi uma entrevista com a psicóloga da escola pesquisada e com o instrutor de capoeira dos alunos e o outro a observação dos alunos durante a aula de capoeira.

3. Apresentação dos Casos:

3.1  - Primeiro Caso:

O aluno B.A., sexo masculino, 21 anos, negro, de classe baixa. Família aparentemente estruturada, ou seja, de acordo com as convenções: pai e mãe vivendo juntos. Segundo os dados arquivados e informados pela psicóloga, B.A. foi enviado para a escola especial, aos 10 anos de idades, por ter dificuldades na alfabetização.

O diagnóstico de Deficiência Mental Moderada (Cid F72[1]) foi feito no ano de 2003, ainda não foi contestado e nem reavaliado. Contudo a psicóloga diz que: “o diagnóstico dos alunos não é um limitador, é apenas o ponto de partida, investimos em nosso alunos, sempre, de diferentes formas, para que eles evoluam”.

B.A. está numa turma de alfabetização na EJA, mas não se alfabetiza e tampouco reconhece letras e números, segundo a psicologa, ele, provavelmente, não reconhece dinheiro. “As dificuldades dele são apenas pedagógicas, cognitivas. Ele está na EJA, mas não se alfabetiza. Mas ele se localiza na cidade, anda por tudo. Tem hábitos de higiene, come sozinho, se orienta muito bem.”,disse a Psicóloga.

B.A. tem muita habilidade para música e para a capoeira angola, sempre se destaca nos esportes e em todas as atividades físicas e motoras que se envolve. Segundo a psicóloga e o Instrutor de Capoeira ele parece ter vida sexual ativa e dentro da normalidade, uma vez que sempre está namorando.

O fato que chamou a atenção para esse caso foi uma história contada pelo instrutor de capoeira angola, que relatou ter aprendido a tocar samba de roda no Atabaque como B.A. “Ele não sabe que me ensinou, mas eu aprendi.” Entretanto durante a observação o instrutor articulou uma fala coletiva e nesta oportunidade B.A. disse que aprendeu o samba de roda na Banda de Osório e que ensinou para o instrutor. O aluno pareceu ter  bastante  consciência da realidade vivida por ele e consegue contar com detalhes as aprendizagens que teve ao longo do último ano com relação a capoeira.

Durante a observação o aluno se mostrou bastante a vontade e demonstrou ter desenvoltura com todos os assuntos abordados durante a aula de capoeira angola. Pareceu ser o gozador da turma. Ele sempre sabia tudo e tinha alguma coisa a dizer. B.A. é inquieto, prestativo, levou água para os colegas. Saiu do lugar várias vezes. Mas atendeu a todos os pedidos feitos pelo instrutor. Se vestia com roupas coloridas e seu corte de cabelo é moderno, refletindo cuidado com sua aparência.

A aula observada era de ritmo e ele tocou três instrumentos de percussão diferentes, com habilidade, apenas o canto era gritado e descompassado. Percebia-se nele um desejo sexual aflorado e quando despediu-se da observadora tentou beijá-la nos lábios. Mas não insistiu ao ser recusado.

O aluno passou a impressão de que seu diagnóstico foi severo demais para o comportamento apresentado atualmente, poderia ser reavaliado.

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Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

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colunista

Liziane da Silva Barbosa

Sou formanda em Pedagogia da Uergs, trabalho como educação social na Casa da Cultura do Litoral. Sou colunista do Jornal O Marisco, cineasta, professora de informática para adultos, bem como pesquisadora do CNPQ/Uergs.

Educação e Pedagogia