O cirurgião-dentista Humberto Cerruti Filho comanda uma experiência científica privada que pode oferecer mais uma alternativa de reconstituição da córnea. Em seu centro de pesquisas no bairro do Brooklin, em São Paulo, ele extrai células-tronco de dentes decíduos com o intuito de diferenciá-los em diversos tecidos. No momento, ele e sua equipe multidisciplinar, em parceria com pesquisadores japoneses, realizam um estudo para a geração de tecido corneano. Atualmente, o transplante corneano somente é possível através da ceratoplastia penetrante, que consiste na retirada da córnea – tecido transparente que fica na região frontal e central do olho – e substituição por um tecido extraído de um doador falecido.
Ilustração:montagem Marcelo de Andrade
As pesquisas com coelhos terão início a partir de 4 de julho. Os japoneses cederam a placa para cultura das células-tronco. Elas serão expandidas e depois descoladas da cultura com variação de temperatura. Por este método, é possível obter células no estado mezenquimal puro ou diferenciá-las em outro tecido antes de descolá-las. A equipe segue o protocolo científico da Case Western University, de Cleveland (Ohio) e, se tudo der certo, dentro de 90 dias a experiência entra na etapa dos estudos clínicos com seres humanos. Esta fase será conduzida pelos cientistas da Universidade das Mulheres de Tóquio e da Universidade de Osaka, no Japão.
A parceria com os japoneses se explica por vários motivos. Além da excelência que os nipônicos atingiram nas áreas da óptica e oftalmologia, com esta associação Cerruti espera vencer barreiras no meio acadêmico mundial para a experiência. “Se a pesquisa fosse concluída no Brasil, ninguém do meio cientifico internacional daria muita bola”, diz o pesquisador.
A produção de tecido corneano é o primeiro passo de uma série de experiências com células-tronco dentárias realizadas pela equipe multidisciplinar de Cerruti, que inclui Alexandre e Irina Kerkis, biólogos russos radicados no Brasil, o hematologista Nelson Tatsui, a oftalmologista Marcela Pomberg e outros especialistas da área médica. Depois, o cirurgião-dentista e seus pares vão voltar sua atenção para a fibra cardíaca. O objetivo é fornecer camadas de células-tronco para restituir trechos de tecidos cardíacos danificados.
Mecenas científico e cético
Cerruti tem o privilégio de ter total autonomia sobre sua pesquisa, financiada com recursos próprios e bastante personalidade, como os mecenas que patrocinavam pintores na Europa dos séculos XV e XVI, em pleno Renascimento Cultural. O hematologista Nélson Tatsui, que colabora com as pesquisas, afirma que o cirurgião-dentista tem um talento raro para a liderança. Outra característica dele, além da irreverência, é o ceticismo sobre o que se tem divulgado sobre células-tronco.
“Nada do que foi mostrado até agora funciona”, dispara. Para ele, a única aplicação bem-sucedida de células-tronco realizada desde a década de 50 é o transplante de medula óssea. Mesmo assim, com reservas. Na sua opinião, só pode ser considerada eficaz a técnica passível de ser aplicada em mais de 40 pacientes e cujos resultados possam ser repetidos.
Banco de células-tronco dentárias
O cirurgião-dentista Humberto Cerruti Filho já patenteou no Brasil uma tecnologia para a preservação de células-tronco extraídas de dentes decíduos. No entanto, ele não pretende fazer uso comercial do seu invento antes de obter resultados clínicos que possam ser reproduzidos e viáveis para o Sistema Único de Saúde (SUS). “Se não for viável para o SUS, de que adianta?”, indaga.