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Artigos de Odontologia


Mordida cruzada posterior - Síndrome de Brodie: Uma Revisão da Literatura.


1 de janeiro de 2008


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Ângelo César ROSA** angelocesarrosa@ig.com.br
Bruno Mendes COUTINHO* canelandia@hotmail.com
Gustavo Moreira de MELO* gustavomelo7@hotmail.com
Lucas de Almeida TEIXEIRA* lucasat10@gmail.com
* Cirurgiões-dentistas, graduados pela Faculdade de Odontologia da PUC Minas. Belo Horizonte/MG.
** Cirurgião-Dentista, Graduado na Faculdade de Odontologia da PUC Minas. Belo Horizonte; Pós-Graduando em Saúde Coletiva na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


1. INTRODUÇÃO

Mordida cruzada, segundo MOYERS (1979), é o termo utilizado para indicar a relação lábio-lingual anormal dos dentes. Dentre as más-oclusões de maior freqüência, destacam-se as mordidas cruzadas (POMPEI ET AL., 2005). A prevalência das mordidas cruzadas posteriores está situada entre 8 e 23,5%, segundo diferentes estudos, sendo mais freqüente as unilaterais funcionais que as bilaterais. Esta má-oclusão figura na terceira posição da escala de prioridade e de problemas de saúde bucal do Brasil (TOMITA, BIJELLA, FRANCO, 2000).

A mordida cruzada mais comum é a que se vê quando as cúspides vestibulares de alguns dentes póstero-superiores ocluem lingualmente às cúspides vestibulares dos dentes inferiores. Quando um ou mais dentes da maxila estão em mordida cruzada em direção à linha média, denominamos mordida cruzada lingual. Quando as cúspides linguais dos dentes póstero-superiores ocluem vestibularmente às cúspides vestibulares dos dentes inferiores, denominamos mordida cruzada vestibular.

Podemos observar na literatura, poucos estudos relacionados à Síndrome de Brodie; sendo esta definida para alguns autores, quando se é possível encaixar o arco dental mandibular completamente no arco dental maxilar. Os estudos sobre este tema ainda são escassos, não comprovando metodologicamente se a devida síndrome é caracterizada tão somente por uma mordida em tesoura bilateral, como também em apenas uma arcada. O presente trabalho tem como objetivo realizar uma revisão de literatura a respeito das mordidas cruzadas posteriores, enfatizando a Síndrome de Brodie.

2. REVISÃO DE LITERATURA

2.1 Classificação

Segundo SILVA FILHO (2003), para identificarmos uma mordida cruzada posterior, deve-se, conhecer primeiro o caráter de normalidade.

• O arco dentário superior deve conter por completo o arco dentário inferior.

• A relação sagital entre os arcos dentários, determinada pela relação de caninos, deve ser Classe I, ou seja, a ponta de cúspide do canino superior deve ocluir na ameia entre o canino e o primeiro molar decíduo inferior.

• A relação de incisivos mantém trespasses horizontais e verticais positivos.

Na maioria dos casos, esta discrepância é o resultado da deficiência transversa do arco superior em relação ao inferior (BISHARA ET AL., 1994). Dependendo do grau de atresia, a mordida cruzada posterior varia desde o cruzamento de um único dente, passando pela clássica mordida posterior unilateral, até a mordida cruzada total ou bilateral (SILVA FILHO, 2003).

A mordida cruzada posterior, segundo GHERSEL ET AL. (1992), pode ser classificada como:

• Unilateral funcional: quando os dentes estão em oclusão, não existe coincidência da linha média, e um ou mais elementos posteriores superiores unilaterais se encontram inclinados para palatino. Ao posicionar a mandíbula em relação cêntrica, pode-se observar mordida cruzada posterior de topo-a-topo bilateral.

• Unilateral verdadeira: ocorre devido à deficiência no crescimento ósseo assimétrico em largura da maxila ou mandíbula, com coincidência da linha mediana.

• Bilateral: ocorre devido a uma atresia bilateral da maxila (deficiência do crescimento em largura dos ossos basais).

QUEIROGA (2000) também classifica quanto ao envolvimento do osso alveolar, podendo ser esquelética (quando há um estreitamento da abóbada palatina e os dentes apresentam inclinação adequada), ou dentária (o inverso da esquelética).

2.2 Prevalência e Epidemiologia

Como já relatado anteriormente, a má-oclusão é um desvio morfo-funcional do sistema mastigatório. Sendo assim, qualquer fator que interfira na formação e desenvolvimento desse sistema é fator etiológico da má-oclusão.

Hábitos bucais como a sucção de polegar, a interceptação de língua e de lábio, e a deglutição atípica, podem provocar alterações na posição dos dentes. A gravidade da má-oclusão depende da freqüência, da intensidade e da duração do hábito instalado. VIANA ET AL. (2003) têm chegado à conclusão por estudos, que crianças que apresentavam hábitos viciosos, eram portadoras, em maior número, de mordida cruzada posterior (23,9%). Vários autores confirmam que há maior prevalência de mordida cruzada posterior em crianças que possuem hábitos de sucção digital, bem como em respiradores bucais (KUTIN & HAMES, 1969).

A prevalência de mordida cruzada posterior na fase de dentição decídua, associada ou não a hábitos bucais, é alta (VIANA, 2004). Esta afirmação é reforçada pelo estudo de ASSUNPÇÃO & BASTOS (1999) apud VIANA (2004), que revelaram uma prevalência de mordida cruzada posterior de 17% de casos de seus estudos, sendo que desse total, 90,7%, tinham mordida cruzada posterior unilateral e 9,3%, mordida cruzada posterior bilateral.

Foi observada uma tendência de aumento na freqüência de mordida cruzada posterior unilateral, como a idade, o que reforça a necessidade do diagnóstico e interceptação precoce, evitando assim, o agravamento das condições oclusais. (VIANA ET AL., 2004).

Vários autores enfatizam que há maior prevalência de mordida cruzada posterior em crianças que possuem hábitos de sucção digital, bem como em respiradores bucais. (KUTIN & HAMES, 1969).

2.3 Tratamento

O tratamento ortodôntico interceptor deve ser recomendado, o mais precocemente possível, para a correção da mordida cruzada posterior (SOUZA JÚNIOR ET AL., 2003; SILVA FILHO ET AL., 1995), uma vez que a correção espontânea raramente acontece. Além disso, caso o tratamento não seja instituído, pode ocorrer remodelação esquelética na articulação temporomandibular ao longo do tempo, acarretando a permanência do desvio de linha média inferior e da assimetria facial. (PIRTTINIEMI ET AL., 1990).

A intervenção na dentadura decídua através de desgastes seletivos mostrou-se relativamente eficaz em casos de mordida cruzada funcional. Nos casos não corrigidos, o uso de aparelhos expansores é necessário. Outro tratamento sugerido por OLIVEIRA (1997), para correção deste tipo de mordida cruzada é a utilização das pistas de mordida planas. Essas pistas são o fundamento da reabilitação neuro-oclusal, que busca o equilíbrio do sistema estomatognático através de uma função oclusal equilibrada, e destinam-se à correção da mordida cruzada funcional, em dentaduras decíduas. O tratamento consiste em elaborar pistas artificiais construídas sobre os dentes, que induzem movimentos mandibulares que estimularão a mudança de postura terapêutica, outro papel é eliminar as interferências oclusais nos casos em que apenas os ajustes oclusais não são suficientes. Esta técnica de uso de pistas diretas planas para correção de mordida cruzada, difere das outras por que:

• O estímulo de crescimento é determinado apenas pela função, logo, sem riscos de sobre-correções.

• É realizada ao nível de dentes (sem uso de aparatologia). Logo facilitando a correta aplicação das medidas preventivas de cáries, doença gengival e de estímulo das funções;

• É de baixo custo, comparado com a aparatologia.

• São aplicados em poucas sessões (OLIVEIRA, 1997).

Na fase da dentadura mista, o tratamento é baseado na expansão lenta ou rápida do arco superior, de preferência com aparelhos fixos. Diversos tipos de aparelhos têm sido propostos para efetuar esta terapia, como:
• Hass; Hyrax; Quadri-hélice.

Independentemente do tipo, todos possuem o mesmo princípio mecânico básico, a ancoragem recíproca intra-arco, que proporciona um incremento simétrico bilateral.

O aparelho de Porter oferece algumas vantagens no tratamento de crianças muito jovens. É razoavelmente higiênico e bem tolerado, não necessita de colaboração, por ser fixo, e elimina a dificuldade de retenção nos dentes decíduos quando se opta por recursos removíveis. Ao final do tratamento ativo, deseja-se sobre-correção, depois da qual a Porter serve como excelente contenção, por alguns meses (KING, 1978).

Em relação ao tratamento das mordidas cruzadas vestibulares bilaterais na fase de dentadura mista, NEVES et al. (2002) sugere a utilização de um aparelho expansor de Porter foi instalado na arcada inferior.

Os hábitos bucais, sob o ponto de vista ortodôntico, devem merecer a atenção do profissional sempre que perdurem ou se manifestem em crianças com idade acima de três anos, porque, segundo o que a literatura deixa transparecer, os efeitos dos hábitos, porventura existentes antes dessa idade, sofrem um processo de correção espontânea na maioria dos casos. Ou seja, ainda que a manifestação da má oclusão seja proveniente de hábitos em período anterior da idade de três anos, a interrupção dos hábitos bucais a partir dessa idade tem apresentado um prognóstico mais favorável.

2.4 Síndrome de Brodie

TORRES (2003) define como etiopatogenia da mordida cruzada posterior, seus fatores locais mais importantes:

• Hipoplasia maxilar; hipoplasia mandibular; associação de ambas.

Hábitos:

• Respiração oral; deglutição infantil, habito lingual; sucção anormal (anômala).

A mordida cruzada posterior se descreve em função da posição dos molares superiores. Por exemplo, uma mordida cruzada lingual, ou palatina maxilar bilateral, significa que os molares superiores ocupam de ambos os lados uma posição lingual com relação a sua posição normal, enquanto que uma mordida cruzada bucal mandibular unilateral supõe que o molar inferior ocupa uma posição bucal. (TORRES, 2003)

Segundo TORRES (2003), estas discrepâncias transversais são provocadas por falta de desenvolvimento e são mais raras que as que são conseqüência de um excesso de desenvolvimento transversal. Esta mordida cruzada posterior origina-se de uma compressão maxilar superior. Deve-se diferenciar a compressão maxilar que afeta a arcada dentária (dento-alveolar), da óssea, as alterações puras são pouco freqüentes.

Quando é possível se encaixar o arco dental mandibular completamente no arco dental maxilar é caracterizado uma mordida cruzada bucal. Sendo esta, referida como mordida em tesoura ou Síndrome de Brodie. Esta condição ocorre em menos de 0,01% da população de acordo com o serviço público de apoio norte americano. Esta má-oclusão pode resultar também em excessiva largura da maxila, deficiente largura da mandíbula ou ambos. (YOGOSAWA, 1991).

Segundo TORRES (2003), existem dois tipos de anomalias transversais: mordida cruzada posterior e a mordida em tesoura; quando as faces palatinas dos molares e pré-molares superiores estão em contato com a face vestibular dos elementos inferiores.

3. CONCLUSÃO

Conclui-se de acordo com a revisão citada, que a interceptação da mordida cruzada posterior, quando empregada durante o período ativo de crescimento e desenvolvimento crânio-facial, constitui-se em uma intervenção simples e eficaz; ocorrendo uma redução de problemas seguintes da dentadura permanente.

4. REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA

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