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Pode existir impacto econômico da baixa ingestão de fibras?


1 de janeiro de 2008


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Nutrição Oral - Data de Publicação: 11/12/2007 (Terça-Feira)
 
Pode existir impacto econômico da baixa ingestão de fibras?

Foi detectado que a dieta regular do brasileiro é pobre em fibras alimentares e isso pode ser um fator que cause impacto econômico negativo para o sistema de saúde de qualquer país. No entanto, não existem estudos que avaliem o impacto econômico que a baixa ingestão de fibras poderia ocasionar. Assim, para tentar responder a este questionamento, precisaremos, em primeiro lugar, avaliar os benefícios trazidos pela ingestão adequada de fibras na prevenção e tratamento de doenças e, de forma indireta, chegar a uma conclusão a esse respeito.

A ingestão adequada de fibras (20 a 35 g/dia) pode melhorar a saúde intestinal por diminuir o tempo de trânsito intestinal e aumentar o volume fecal (1-3). Além disso, o consumo de fibras, particularmente solúveis, pode estimular seletivamente a atividade e/ou o crescimento de bactérias benéficas, como as Bifidobacterium e os Lactobacillus, e inibir a freqüência e o crescimento de bactérias patogênicas do gênero Enterococcus (1,4-6).

Além desses efeitos benéficos para a saúde intestinal do ser humano, a dieta rica em fibras pode trazer outros benefícios para a saúde, como diminuir as chances de desenvolver um câncer de cólon (7-9). A baixa ingestão de gorduras e o consumo adequado de fibras podem exercer efeito benéfico na prevenção de doenças metabólicas como doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade (13). No entanto, não podemos deixar de ressaltar que ainda não existe um consenso a esse respeito, devido à existência de estudos que contradizem o efeito benéfico das fibras (10-12).

Em estudo prospectivo realizado por pesquisadores norte-americanos, foi demonstrado que a alta ingestão de fibras (média de 26,3g/dia contra 12,5g/dia) reduz o risco de desenvolvimento de doença cardiovascular (risco relativo [RR] 0,65; intervalo de confiança [IC] 95%:0,51 - 0,84) e infarto do miocárdio (RR 0,46; IC 95%: 0,3 - 0,72) em mulheres. “Estes resultados mostram a necessidade de se recomendar o aumento do consumo de alimentos ricos em fibras, como grãos, frutas e vegetais, como uma medida para prevenir o desenvolvimento de doenças cardiovasculares”, concluem os autores (14). As fibras poderiam também ajudar no controle do peso. Em estudo canadense, homens saudáveis tiveram redução do apetite e menor ingestão calórica após consumirem 33g de fibras insolúveis (15).

Esses são alguns dos pesquisadores que buscaram nas fibras alimentares uma alternativa para tratar ou prevenir doenças que acometem cada vez mais população mundial, e que, como conseqüência, geram um custo alto o sistema de saúde do país.

No Brasil, por exemplo, o sistema único de saúde (SUS) gastou R$ 18,7 milhões com 50 mil internações hospitalares por diabetes (R$ 2 milhões a mais do valor custeado em 2003), em 2004. Para pacientes com hipertensão (doença que está freqüentemente associada ao diabetes e obesidade), os gastos naquele mesmo ano, em todo o Brasil, para 120 mil internações, alcançaram a cifra de R$ 24 milhões, ou seja, 10% a mais que os recursos destinados em 2003 (16).

Em 2005, foram gastos pelo SUS mais de R$ 1,1 bilhão com o tratamento de pacientes com câncer. Isto significa um aumento de mais de 103% desde o ano de 2000 (17).

Segundo o Ministério da Saúde, doenças como infarto, derrame cerebral, cânceres, diabetes e hipertensão causam 40% das mortes no Brasil. E se os cuidados necessários fossem tomados, o país poderia ter economizado, em 2005, cerca de R$ 11 bilhões, gastos anualmente em consultas, internações e cirurgias (incluindo transplantes) (18). Para se ter uma idéia, em cada internação hospitalar que o SUS fez em São Paulo, por exemplo, no período de 2005, gastou-se cerca de R$ 760,00 (19).

Parte deste dinheiro gasto pelo SUS com o tratamento de doenças de origem metabólica poderia ter sido economizado pela prática da prevenção dessas doenças com o desenvolvimento de estilo de vida saudável e mudança dos hábitos alimentares com a redução do consumo de gordura, aumento do consumo de alimentos ricos em fibras e prática regular de atividade física.

Thiago Manzoni Jacintho
Biólogo pela Univerdade de Mogi das Cruzes, Mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e Pesquisador do Laboratório de Metabologia e Nutrição em Cirurgia (Metanutri – FMUSP - LIM35).

Referências:
1. Slavin JL, Greenberg NA. Partially hydrolyzed guar gum: clinical nutrition uses. Nutrition. 2003;19(6):549-52.

2. Castillejo G, Bullo M, Anguera A, Escribano J, Salas-Salvado J. A controlled, randomized, double-blind trial to evaluate the effect of a supplement of cocoa husk that is rich in dietary fiber on colonic transit in constipated pediatric patients. Pediatrics. 2006;118(3):e641-8.

3. Hongisto SM, Paajanen L, Saxelin M, Korpela R. A combination of fibre-rich rye bread and yoghurt containing Lactobacillus GG improves bowel function in women with self-reported constipation. Eur J Clin Nutr. 2006;60(3):319-24.

4. Kleessen B, Sykura B, Zunft HJ, Blaut M. Effects of inulin and lactose on fecal microflora, microbial activity, and bowel habit in elderly constipated persons. Am J Clin Nutr. 1997;65(5):1397-402.

5. Kruse HP, Kleessen B, Blaut M. Effects of inulin on faecal bifidobacteria in human subjects. Br J Nutr. 1999;82(5):375-82.

6. Tuohy KM, Kolida S, Lustenberger AM, Gibson GR.The prebiotic effects of biscuits containing partially hydrolysed guar gum and fructo-oligosaccharides--a human volunteer study. Br J Nutr. 2001;86(3):341-8.

7. Wakai K, Hirose K, Matsuo K, Ito H, Kuriki K, Suzuki T, Kato T, Hirai T, Kanemitsu Y, Tajima K. Dietary risk factors for colon and rectal cancers: a comparative case-control study. J Epidemiol. 2006;16(3):125-35.

8. Levi F, Pasche C, Lucchini F, La Vecchia C. Dietary fibre and the risk of colorectal cancer. Eur J Cancer. 2001;37(16):2091-6.

9. Ghadirian P, Lacroix A, Maisonneuve P, Perret C, Potvin C, Gravel D, Bernard D, Boyle P. Nutritional factors and colon carcinoma: a case-control study involving French Canadians in Montréal, Quebec, Canada. Cancer. 1997;80(5):858-64.

10. Slattery ML, Berry TD, Potter J, Caan B. Diet diversity, diet composition, and risk of colon cancer (United States). Cancer Causes Control. 1997;8(6):872-82.

11. Little J, Logan RF, Hawtin PG, Hardcastle JD, Turner ID. Colorectal adenomas and diet: a case-control study of subjects participating in the Nottingham faecal occult blood screening programme. Br J Cancer. 1993;67(1):177-84.

12. Steinmetz KA, Potter JD. Food-group consumption and colon cancer in the Adelaide Case-Control Study. I. Vegetables and fruit. Int J Cancer. 1993;53(5):711-9.

13. Kaline K, Bornstein SR, Bergmann A, Hauner H, Schwarz PE. The importance and effect of dietary fiber in diabetes prevention with particular consideration of whole grain products. Horm Metab Res. 2007;39(9):687-93.

14. Liu S, Buring JE, Sesso HD, Rimm EB, Willett WC, Manson JE. A prospective study of dietary fiber intake and risk of cardiovascular disease among women. J Am Coll Cardiol. 2002;39(1):49-56.

15. Samra RA, Anderson GH. Insoluble cereal fiber reduces appetite and short-term food intake and glycemic response to food consumed 75 min later by healthy men. Am J Clin Nutr. 2007;86(4):972-9.

16. Ministério da Saúde. Hipertensão e diabetes: Saúde propõe reduzir preço de medicamentos - 12/05/2005. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/aplicacoes/noticias/noticias_detalhe.cfm?co_seq_noticia=15428. Acessado em 1/12/07.

17. Ministério da Saúde. Ministro participa de encontro de capacitação contra o câncer - 31/08/2006. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/aplicacoes/noticias/noticias_detalhe.cfm?co_seq_noticia=28029. Acessado em 1/12/07.

18. Ministério da Saúde. Hipertensão: um mal que pode ser evitado. Ministério da Saúde desenvolve campanha de prevenção às doenças cardiovasculares. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=22837. Acessado em 1/12/07.

19. Ministério da Saúde. Rede Internacional de Informações para a Saúde. Indicadores de Recursos. E.11 Valor médio pago por internação hospitalar no SUS (AIH). Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?idb2006/e11.def. Acessado em 1/12/07.
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