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Risco de crédito - artigo


12 de agosto de 2008


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Otaviano Canuto

As inovações financeiras e a evolução das atividades de gestão de riscos financeiros, nas últimas décadas, já foram comparadas com o processo de "descascar uma cebola". Primeiro, desenvolveram-se os derivativos que permitiram a transferência negociada entre agentes e a melhor gestão de riscos associados à volatilidade de taxas de juros, taxas de câmbio e preços de ações. Essas cotações de mercado corresponderiam a camadas externas da cebola do risco: riscos de mercado, mais padronizáveis e fáceis de identificar e descascar.

Mais recentemente, a atenção voltou-se para camadas internas, particularmente para os riscos de crédito. O risco de crédito é a probabilidade de que o tomador de recursos não queira ou não possa cumprir seus compromissos de dívida. Trata-se do risco predominante nas operações creditícias. Variações na taxa de captação de um banco, por exemplo, podem ser cobertas mediante contratos de empréstimos com taxas ajustáveis, mesmo na ausência de derivativos que permitam o repasse de riscos de taxas de juros ou de câmbio e outros riscos de mercado. O mesmo não ocorre com o prêmio de risco de crédito cobrado nos termos do fechamento da operação. Além disso, a identificação desse risco depende em maior medida do exame das especificidades dos clientes e ativos.

O método clássico para a gestão de riscos de crédito repousa na avaliação prévia às operações em particular, nos termos destas (colaterais, limites de volume etc.) e no provisionamento contra perdas. Além disso, há a busca de diversificação entre clientes, regiões e setores nas carteiras de ativos. O alcance dessa diversificação é menor no caso, por exemplo, de bancos pequenos ou de divisões de crédito especializado dentro de empresas não-financeiras.

O florescimento de mercados para securitização de ativos - inclusive de empréstimos bancários - ampliou as possibilidades de gestão dos riscos de crédito. Títulos ou empréstimos podem ser agrupados e vendidos a compradores externos: investidores institucionais, por exemplo, em busca de diversificação em suas carteiras.

Mas há limites à securitização de empréstimos. Presta-se apenas a operações relativamente uniformes, em termos de cronogramas de pagamento e de características de risco de crédito. Além disso, abdica-se da vantagem comparativa do emprestador original no tocante à capacidade de monitorar o tomador de recursos até o fim do contrato. Da mesma forma, dilui-se a oportunidade do acúmulo do capital informacional típico das relações entre clientes e bancos.

A novidade tem sido os "derivativos de crédito", vale dizer, contratos financeiros de compra/venda de proteção contra perdas relacionadas ao crédito. Trata-se de uma forma de seguro, tornando prescindível o repasse do ativo. A busca de redução no grau de exposição em relação aos clientes, regiões e setores da área de atuação do emprestador não mais exige uma correspondente diversificação nas operações de crédito, podendo ser obtida mediante venda, aquisição ou troca (swap) de exposições em relação a riscos de crédito em particular.

Não por acaso, tem sido espetacular a expansão dos derivativos de crédito nas economias desenvolvidas. E no mundo, segundo pesquisa da Associação de Banqueiros Britânicos, em meados de 2000 os bancos eram responsáveis por 63% da compra de proteção e 47% da venda, enquanto seguradoras vendiam e compravam, respectivamente, 23% e 7% da proteção.

Como sempre, não existem milagres. Como outros derivativos de balcão, trata-se de contratos financeiros negociados em particular e sujeitos a riscos próprios operacionais, de contrapartida, de liquidez e legais.

Colocam também outros desafios aos reguladores. A "arbitragem" entre diferentes avaliações de risco de crédito de uma empresa - entre, por exemplo, o mercado de capitais e um banco ou seguradora que oferece sua proteção - pode esconder uma postura especulativa construída através do seguro de crédito. Da mesma forma, os derivativos de crédito elevam fortemente o potencial de deslocamento rápido da exposição a riscos de crédito, dentro do sistema.

No Brasil, o Banco Central incluiu os derivativos de crédito entre as medidas propostas para redução nos spreads bancários, no final do ano passado, até como alternativa eventual aos atuais pesados provisionamentos contra perdas. Conta-se com a adaptação regulatória para que a camada interna da cebola de risco brasileira não provoque lágrimas nos olhos.



Fonte: Publicado pelo jornal Valor em 16/01/2001
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Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

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