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O Acordo Ortográfico assinado pelas nações pertencentes à CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) ainda gera dúvidas. No Brasil, o novo conjunto de regras está em vigor desde 1º de janeiro.
Com a adoção da unificação ortográfica, a partir de 2009, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe terão a mesma escrita. Todavia, as maneiras peculiares de cada povo emitir oralmente as palavras permanecem.
O português é falado por cerca de 187 milhões de pessoas na América do Sul, 16 milhões de africanos, 12 milhões de europeus, dois milhões na América do Norte e 330 mil na Ásia.
A professora de gramática da Língua Portuguesa e revisora ortográfica Lucimara Ormonde da Mota auxilia na explicação de algumas dúvidas que ainda podem ocorrer em relação às modificações advindas deste acordo.
Formada em letras e pós-graduada em educação a distância, Lucimara trabalha atualmente em uma empresa de educação a distância e atua com correções gramaticias há sete anos.
Em entrevista ao Midiamax sobre as mudanças na Língua Portuguesa, a especialista tira algumas das principais dúvidas a respeito das transformações na escrita.
Vale ressaltar que existirá uma fase de transição em que as duas ortografias coexistirão. Esse período vai até 31 de dezembro de 2012. Por enquanto, as novas regras de grafia são obrigatórias em documentos oficiais dos governos. Por conta do cronograma de compra dos livros didáticos, as instituições de ensino terão prazo dilatado.
A intenção de promover a unificação da escrita da Língua Portuguesa não é nova. Em 1990 houve a assinatura do tratado internacional com este objetivo. Porém, sua concretização só se deu agora.
Mas, esta história é a ainda mais antiga. Em 1911, Portugal fez uma reforma sem consultar o Brasil e muitas das diferenças surgiram neste momento. Em 1931, um Acordo de Unificação foi firmado, mas não foi adotado na prática. A convenção que tornou as grafias entre os dois países mais próximas ocorreu em 1971, com a supressão de mais de dois terços dos acentos que causavam dissensão entre as duas nações.
Cada país teve mudanças na forma de escrever. No Brasil, as modificações ocorreram em relação ao alfabeto (que passa a ter 26 letras, com o ingresso de “k”,“w” e “y”) e no uso do hífen, trema, acento diferencial, acento circunflexo e acento agudo.
Segue abaixo a entrevista com aprovessora Lucimara Ormonde da Mota sobre as mudanças na Língua Portuguesa:
Midiamax – Quais são as principais mudanças após o acordo entrar em vigor?
Lucimara da Mota – As principais mudanças são na acentuação gráfica e a extinção do trema. A mudança vem para unificar a ortografia nos países de língua portuguesa. Acho que toda mudança causa desconforto. Mas, acredito que se for para o bem, será bem vindo.
As paroxítonas terminadas em ditongos abertos “ei” e “oi” não se acentuam mais. Como assembleia, ideia e apneia. Mas, os sons serão os mesmos ao serem pronunciadas. Vamos continuar falando estas palavras de forma aberta.
O “i” e o “u” precedidos de ditongos abertos também não levam acento. Baiuca, feiura a partir de agora se escrevem assim.
Midiamax -E quanto ao hífen? Quais são as mudanças?
Lucimara da Mota – O prefixo auto fica sem hífen, por exemplo, autoescola. O anti, onde a palavra que o acompanha tiver vogais iguais terá hífen: anti-inflamatório. Quando for com “r” e “s”, não tem hifen: dobra-se o “r” e ou “s”, antissocial ou extrarregimento.
O super, o hiper e o inter continuam com hifen: super-racional e inter-relação. Os prefixos co e re perdem o hifen, exceto com palavras que comecem com “h”.
Essas mudanças no hifen melhoraram as normas, porque fica mais simples, na minha opinião.
Midiamax – E quanto ao acento diferencial?
Lucimara da Mota – O “credeleve”, ou seja, os verbos crer, ler e ver, não levam mais acento em creem, leem e veem.
Muito mais simples para quem começa a aprender a escrever.
“O homem péla o pêlo do cachorro pelo prazer de pelar.”
Agora, fica: pela o pelo do cahorro pelo prazer de pelar. Ou seja, vamos ter que saber pela circunstância do texto, se é verbo ou preposição. Mas, a forma de falar continua a mesma.
Midiamax – Quais os reais benefícios, na sua opinião, trazidos pelo Acordo?
Lucimara da Mota – Vai ser bom para promover um intercâmbio de informações entre os países que falam a língua portuguesa.
Midiamax – O que há de ruim nas mudanças?
Lucimara da Mota – Acredito que vão causar gastos; livros terão que ser revisados, por exemplo. Mas pessoas terão quatro anos para se adequar. As duas formas serão aceitas durante este período.
Mas, tem outras coisas ruins. Eu, por exemplo, não vou querer comprar um dicionário que tenha as normas antigas, vou querer um com as novas normas.
Midiamax - Em quanto tempo, você acredita, as pessoas assimilarão as novas regras?
Lucimara da Mota – Eu falava idéia e vou continuar a falar ideia com som aberto e não fechado.
A maneira de escrever muda, mas, o jeito, a forma de falar continua a mesma. Claro, que com suas particularidades no Brasil, em Portugal e nos demais países que se fala português.
Acredito que demora mais para nós, que já estamos acostumados com um jeito de escrever. Para as pessoas que estão terminando o nível fundamental e médio. Para as que estão começando a aprender agora, não muda. Na verdade, vai ser até melhor porque não vai ter aquela preocupação a respeito de onde colocar o acento, por exemplo.
Confira algumas dicas da revisora Lucimara Ormonde da Mota para não bobear no momento de escrever.
Hífen
Não se usará mais: 1. quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em "antirreligioso", "antissemita", "contrarregra", "infrassom". Exceção: será mantido o hífen quando os prefixos terminam com r – ou seja, "hiper-", "inter-" e "super-" – como em "hiper-requintado", "inter-resistente" e "super-revista"
2. quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: "extraescolar", "aeroespacial", "autoestrada"
Trema
Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados
Acento diferencial
Não se usará mais para diferenciar: 1. "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição) 2. "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da preposição com o artigo) 3. "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de "por" e "lo") 4. "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo" (combinação da preposição com o artigo) 5. "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico - pedra) e "pera" (preposição arcaica)
Veja como era e como fica Ele pára o carro. Ele para o carro. Ele foi ao pólo. Ele foi ao polo Pólo. Polo. Pêlos brancos. Pelos brancos. Comi uma pêra. Comi uma pera.
Atenção: Permanece o acento diferencial em pôde/pode. Pôde é a forma do passado do verbo poder (pretérito perfeito do indicativo), na 3ª pessoa do singular. Pode é a forma do presente do indicativo, na 3ª pessoa do singular. Permanece o acento diferencial em pôr/por. Pôr é verbo. Por é preposição. Exemplo: Vou pôr o livro na estante que foi feita por mim.
Acento circunflexo
Não se usará mais: 1. Nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem" 2. Em palavras terminados em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" – que se tornam "enjoo" e "voo"
Acento agudo
Não se usará mais: 1. Nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia" 2. Nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: "feiúra" e "baiúca" passam a ser grafadas "feiura" e "baiuca" 3. Nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de "e" ou "i". Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, argúem
O que muda em Portugal
No português lusitano: 1. desaparecerão o "c" e o "p" de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como "acção", "acto", "adopção", "óptimo" -que se tornam "ação", "ato", "adoção" e "ótimo"
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