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Psicofármacos para o tratamento de transtornos de ansiedade


28 de outubro de 2009


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Discussão

No conhecimento dos autores, esta é a primeira revisão sistemática que busca avaliar ensaios clínicos para o tratamento farmacológico dos TA em crianças e adolescentes. Recentemente, Mancini et al. publicaram revisão sistemática focada apenas no tratamento farmacológico de fobia social.23 Os nossos achados demonstram poucas informações sobre intervenções medicamentosas para as psicopatologias em questão.

Os resultados são favoráveis aos estudos que utilizaram os ISRS. Os benzodiazepínicos mostraram benefícios pouco expressivos, embora os dois trabalhos tenham amostra e período de tratamento reduzido.14-15 No ensaio clínico com imipramina, além do número expressivo de comorbidades, houve pouca melhora no grupo tratado.16

Na maioria dos estudos, as informações a respeito da metodologia foram insuficientes. Grande parte dos ensaios clínicos eliminados não detalhou cegamento, randomização e distribuição de placebos. Além disso, apesar de alguns resultados serem estatisticamente significativos nos estudos incluídos, verificou-se problemas metodológicos relevantes nos mesmos. A alta resposta ao placebo, embora com ampla variabilidade (10-67%), sugere haver vieses de seleção dos pacientes. Uma provável explicação seria que alguns ensaios clínicos não excluíram pacientes que apresentavam transtornos depressivos. Sabe-se que existem altas taxas de resposta a placebo em depressão na infância e adolescência. Além disso, os diferentes desenhos metodológicos podem gerar taxas de resposta desiguais.

A utilização dos mesmos aplicadores para as escalas de desfecho primário e para as escalas de eventos adversos merece atenção. Isso coloca em risco o cegamento, pois tanto os avaliadores como os pacientes têm maior chance de predizer qual intervenção estavam recebendo. Nenhum trabalho forneceu valores do risco relativo ou redução absoluta de risco, o que dificulta a avaliação dos resultados.24

A escolha do CGI-I (medida inespecífica de eficácia) como medida primária de avaliação deve ser motivo de futuras discussões. Além disso, o uso de uma única fonte de informação (avaliações dos pesquisadores) pode suscitar dúvidas. No estudo de RUPP, a melhora foi significativa apenas na opinião do avaliador clínico, o mesmo não ocorrendo para os pais e as crianças.13

As pesquisas com ISRS revelaram maior quantidade de eventos adversos. Isso é importante para que o clínico fique atento aos sintomas de toxicidade quando receitar algum desses psicofármacos. Por exemplo, 88,3% dos pacientes relataram ao menos um evento adverso com o uso de paroxetina no estudo de Wagner et al.18

Essa informação corrobora a recente preocupação quanto à segurança para uso de antidepressivos em jovens. Entre 1998 e 2002, segundo o Food and Drug Administration (FDA), 31% das prescrições de antidepressivos para crianças foram para o tratamento de TA.25 Em resposta a relatos de que os ISRS estariam associados a um aumento de sintomas suicidas, o FDA analisou uma investigação realizada pela Columbia University incluindo 24 ensaios clínicos com antidepressivos. Destes, dois abordaram o tratamento do TAG e um o de FS. Alguns dos ensaios revisados mostraram aumento dos sintomas suicidas em pacientes que usaram ISRS e Inibidores da Recaptação da Serotonina e Norepinefrina. A decisão do FDA foi exigir que a indústria farmacêutica colocasse avisos informando, entre outras coisas, que os antidepressivos aumentariam comportamento e ideação suicida em crianças e adolescentes, e que houvesse um acompanhamento "face-a-face" nas primeiras quatro semanas de tratamento.26 Para aprofundar essa discussão, ver Birmaher.27

Em resumo, os ISRS são, até o momento, a classe de psicofármacos com maior número de ensaios clínicos controlados para TA em crianças e adolescentes. Apresentam resultados modestos quando comparados ao placebo e são liberados pelo FDA apenas para o uso em casos de TOC. A presença de eventos adversos de leves a moderados deve manter o clínico atento durante o período de seguimento.

Em termos de implicações clínicas, a presente revisão sugere que exista espaço para o tratamento farmacológico com os ISRS nos TA em crianças e adolescentes, mas que seu uso deve ser monitorizado com cautela nessa faixa etária.

Sugere-se a realização de estudos futuros bem planejados, nos moldes do Consolidate Standards for Reporting Trials (CONSORT)28 e registrados em um banco de registro de ensaios clínicos.29 Além disso, os eventos adversos devem ser abordados de forma sistemática,30 proporcionando maior segurança ao administrar medicamentos. Finalmente, deve-se ficar atento à falta de resposta ao tratamento e a que TA na infância podem cronificar ou evoluir para outras psicopatologias.


Referências

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