Cientistas extraem substância
anticoagulante da cabeça do camarão
Ricardo Zoretto
O camarão - que já é apreciado à mesa - também poderá despertar o apetite da indústria farmacêutica. A partir da cabeça do animal - parte do corpo sem valor comercial - , pesquisadores brasileiros isolaram uma substância que previne a formação de coágulos no sangue, a heparina de baixo peso molecular. Esses coágulos, chamados no jargão médico de trombos, podem entupir os vasos e até rompê-los. Pacientes com problemas circulatórios, ou que estejam imobilizados por longos períodos, podem desenvolver trombos e suas diversas complicações, que incluem infarto e acidente vascular cerebral.
Essa heparina foi encontrada no camarão da espécie Penaeus brasiliensis por um grupo de pesquisadores das universidades federais de São Paulo, do Paraná e do Rio Grande do Norte, num estudo coordenado por Carl Peter von Dietrich, do Departamento de Bioquímica e do Núcleo de Desenvolvimento Cultural e Científico, da Unifesp.
Segundo Dietrich, a heparina de baixo peso molecular extraída do camarão tem algumas vantagens sobre as produzidas sinteticamente a partir das vísceras de boi ou de porco. A heparina do camarão é natural, pois não precisa ser "quebrada" por processos químicos que modificam a estrutura de suas moléculas. Por ser retirada de uma espécie distante da humana, ela não deve ser carregadora de vírus que possam contaminar o homem. De acordo com Dietrich, há também o aspecto religioso: essa heparina pode ser usada para tratar pessoas de religiões que proíbem o consumo de substâncias provenientes do porco (como a muçulmana) e do boi (como a hindu).
Além disso, a substância pode ser extraída de uma matéria-prima que tem custo quase zero e de uma espécie cujas condições de produção em cativeiro são favoráveis no Nordeste brasileiro.
Apesar de ter ocorrido no ano passado, a descoberta só foi revelada agora para evitar que produtores começassem a cobrar pela cabeça do camarão antes que se mostrasse que a produção da heparina é viável.
Segundo Dietrich, investidores de São Paulo já estão interessados na produção dessa substância em escala industrial. Antes de virar um produto farmacêutico, a heparina do camarão deverá ser submetida a testes farmacológicos, toxicológicos e clínicos.
Produção
A produção atual do Brasil é de aproximadamente 20 mil toneladas por ano de camarão Penaeus brasiliensis criado em cativeiro. Parte disso, cerca de 6 mil toneladas, é de cabeça de camarão. Para Dietrich, com essa quantidade seria possível produzir aproximadamente 200 quilos de heparina de baixo peso molecular por ano, o suficiente para suprir a demanda de um país como a Itália.
No Brasil, não há dados sobre o consumo dessa substância. Mas, no mundo, são consumidas cerca de 75 toneladas de heparina de baixo peso molecular, que são produzidas por um bilhão de dólares.
Camarão
Apesar de a heparina de baixo peso molecular ser derivada da heparina, elas têm ação um pouco diferenciadas.
A primeira, que tem cerca de um terço do peso da segunda heparina, tem uma capacidade de combater a trombose (doença caracterizada pela formação de trombos) maior que a heparina normal. Ela é mais eficiente para prevenir a formação de trombos porque permanece mais tempo ativa na circulação. Por esse motivo, ela pode ser usada em doses menores. Uma dose diária de heparina de baixo peso molecular tem ação equivalente a três doses de heparina normal.
Ambas as heparinas são usadas para combater a formação de trombos devido a ateromas (acúmulos de placas de gordura nos vasos sangüíneos), inflamação dos vasos (tromboflebite) e traumas como cirurgias. (RZ
Dietrich: camarão pode ser fonte alternativa para produção de heparina
Substância foi descoberta por
pesquisadores da Unifesp
A heparina de baixo peso molecular foi preparada pela primeira vez no mundo, em 1974, pela equipe dos bioquímicos Carl Peter von Dietrich e Helena Nader, da Unifesp.
Quando eles quebravam a heparina normal, descobriram que sobrava uma substância menor, com cerca de um terço do tamanho da heparina, que perdia a atividade anticoagulante mas mantinha a ação antitrombótica (que previne a formação de trombos).
O produto industrializado entrou no mercado apenas cerca de um quarto de século mais tarde. Começou a ser usada na Europa, em 1990, e nos EUA, em 1995. No Brasil, ela é usada há oito anos, segundo Dietrich.
Em geral, a heparina é encontrada em vertebrados (animais que têm coluna vertebral, como peixes, répteis, anfíbios, aves e mamíferos ), entre os quais o porco e o boi, que são grandes reservatórios.
A partir da metade da década de 80, num programa realizado entre a Unifesp e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, os cientistas começaram a buscar heparina em 100 espécies de moluscos e a encontraram em duas.
Depois, os cientistas tentaram identificar essa substância em várias espécies de crustáceos. Em 1999, os pesquisadores descobriram que os camarões das espécies Penaeus brasiliensis e Penaeus vannamae, cultivados no Nordeste, produzem heparina de baixo peso molecular em quantidade razoável, que permite exploração comercial. (RZ)