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Química Medicinal


1 de janeiro de 2008


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A Química Medicinal é uma disciplina baseada na Química que engloba inovação; descobrimento e desenvolvimento de novas substâncias químicas bioativas (NCEs); síntese ou modificação molecular; extração, isolamento, identificação e elucidação estrutural de princípios ativos naturais de plantas, animais ou minerais; descrição das moléculas desde a sua constituição atômica (passando por relações entre a estrutura e propriedades) até suas características estruturais quando da(s) interação(ões) com alvos biológicos de interesse terapêutico; compreensão, a nível molecular, de processos bioquímicos/farmacológicos, toxicológicos e farmacocinéticos e a criação de relações entre estrutura química e atividade farmacológica (SARs).

Ela também está implicitamente relacionada com a proposição e validação de modelos matemáticos através dos estudos de relações entre a estrutura química e a atividade farmacológica e/ou toxicológica e/ou farmacocinética.

A química medicinal é, portanto, uma disciplina híbrida operando conjuntamente com outras especialidades como biofísica, biologia molecular, bioquímica, clínica médica, físico-química, fisiologia, neurobiologia, patologia, química biológica, química inorgânica, química orgânica, química quântica, etc., dentro dos aspectos trans-(sobre a inserção de um conceito em outro), multi- (sobre a co-existência de múltiplos) e interdisciplinar (sobre a necessidade de interfaces), onde todas as partes são igualmente fundamentais.

No início do século XX, os métodos de descobrimento de novos fármacos eram empíricos ou estavam quase dominados pelo acaso. O sucesso da equação de Hammett, entretanto, possibilitou a racionalização química de pequenas regiões subestruturais que permitiu o aparecimento das relações quantitativas entre estrutura e atividade (do inglês QSAR), na década de 1960. Desde então, a busca reducionista de informações capazes de descreverem biomacromoléculas ou sistemas biológicos mais complexos, tornou-se atividade comum em inúmeros centros de pesquisas em todo o mundo. Mais recentemente, contudo, o advento da química combinatória trouxe um novo avanço na busca e identificação em massa de novas substâncias químicas bioativas ou na otimização delas.

Por ocasião da comemoração dos 25 anos da Sociedade Brasileira de Química um número especial de Química Nova foi dedicado ao aniversário da Sociedade (Química Nova vol. 25, 2002), da qual pode-se extrair o seguinte: Segundo comunicação pessoal do professor Toshio Fujita, o pesquisador pioneiro Corwin Hansch visitou o Brasil já nos idos de 1966, durante o terceiro Simpósio Internacional de Farmacologia, na Universidade de São Paulo, quando ministrou palestra sobre relações entre estrutura química e atividade farmacológica, mostrando aquilo que viria a ser conhecido como a abordagem de Hansch-Fujita. Sua vinda ao Brasil ocorreu por convite do saudoso professor Rocha e Silva, um dos organizadores da fase brasileira do evento.

Em 1964, o professor Corwin Hansch publicou o primeiro artigo versando sobre relações quantitativas entre a estrutura química e a atividade farmacológica e, anos depois, o Brasil entrava para o cenário internacional com algumas publicações históricas dos professores Andrejus Korolkolvas e Ivan da Rocha Pitta. Também de forma pioneira, o saudoso professor Andrejus Korolkovas escreveu e traduziu seu livro Medicinal Chemistry para o português. Com isso, uma verdadeira escola se formou, principalmente em meio farmacêutico, onde a disciplina de farmacologia/química farmacêutica é ministrada. A produção de literatura na área continuou evoluindo e atualmente culminou com a publicação de um novo livro sobre a natureza atual da química medicinal, de autoria dos Professores Eliezer Barreiro e Carlos Alberto Mansour Fraga.

Uma das primeiras tentativas de sistematização e divulgação das atividades inerentes à química medicinal, com significativo efeito multiplicador, ocorreu nos idos de 1988-89 quando se iniciou um intercâmbio de pesquisadores do Brasil e do exterior. Inicialmente na área de QSAR esta se deu com a participação de diversos pesquisadores estrangeiros, mas que contou com a dinâmica contribuição do Professor Hugo Kubinyi. Durante os primeiros cinco anos, as metodologias utilizadas em QSAR, suas potencialidades e limitações foram divulgadas, em diferentes regiões do Brasil, por meio, principalmente, de atividades no âmbito da pós-graduação e da pesquisa.

A segunda etapa compreendeu o desenvolvimento de projetos de pesquisa, efetuados agora em colaboração com outros grupos de pesquisa, de Institutos de Pesquisa e Universidades, no Brasil e também no exterior. Estes foram e, estão sendo factíveis, através de financiamentos, na grande maioria das vezes provenientes das diferentes agências de fomento, com bolsas de doutorado, mestrado e iniciação científica. Como resultado deste intercâmbio, realizaram-se no IQ/USP, São Paulo dois workshops sobre "Chemical Structure and Biological Activity", respectivamente em 1991 e 1994. O grande interesse despertado avalia-se pelo elevado número de participantes, apresentando painéis (mais de 100, em cada um deles), vindos de várias partes do Brasil e América do Sul. O efeito multiplicador destes dois eventos foi significativo e foram determinantes para as ações arroladas como seguem: surgimento da Divisão de Estrutura Química e Atividade Biológica (SA), na SBQ, precursora da Divisão de Química Medicinal, formada em 1998; formação de grupos de pesquisa (envolvendo pesquisadores e alunos de pós-graduação) na área de QSAR/3D-QSAR, em Instituições de Ensino e Pesquisa e Institutos de Pesquisa; realização de cursos de pós-graduação; concretização de visitas de pesquisadores brasileiros provenientes dos vários núcleos de pesquisa brasileiros aos laboratórios especializados no exterior; crescimento expressivo da participação de pesquisadores brasileiros em Congressos da área no exterior e inserção de pesquisadores brasileiros junto à comunidade científica internacional.

Conhecedora das bases dessa forma estabelecidas, a Divisão de Química Medicinal da Sociedade Brasileira de Química estabeleceu, como uma de suas tarefas, a realização do SIMPÓSIO BRASILEIRO EM QUÍMICA MEDICINAL, nomeado BRAZMEDCHEM.

Vários cientistas renomados deste país e também do estrangeiro reuniram-se em Caxambu-MG, durante os dias 11 e 16 de novembro de 2001, com o objetivo de discutir a química medicinal em um país com uma pujante biodiversidade. Foram 125 participantes, sendo representados por 6% de não-acadêmicos, 44% de estudantes e 50% de acadêmicos. Foram apresentados 115 trabalhos científicos distribuídos da seguinte forma e áreas: Perspectives in Drug Discovery and Design of Antiprotozoal Drugs, 21; Receptor-based Prediction of Binding Affinities, 7; Applications of Multivariate QSAR, 35; Medicinal Chemistry of Natural Products, 23; Synthesis and Bioassay, 18, e Miscellaneous, 11. Além disso, ainda ocorreram 17 conferências plenárias e 9 apresentações orais.

Conseqüentemente, a Química Medicinal tornou-se uma disciplina de caráter essencialmente colaborativo onde um esforço múltiplo entre químicos, biólogos, espectroscopístas, geneticistas e biotecnológos faz-se mister. Destarte, este número especial do Journal of the Brazilian Chemical Society é dedicado a todas aquelas pessoas que lá se reuniram com o objetivo de fazer nascer uma ciência da importância da química medicinal em um país como o Brasil.

Fonte: Journal of the Brazilian Chemical Society

Carlos A. Montanari
Ronaldo A. Pilli

 

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