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Cientistas questionam eficcia de novas drogas anti-psicticas


1 de janeiro de 2008


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Cientistas questionam eficácia de novas "drogas maravilhosas"

Elas foram rotuladas de drogas maravilhosas, mais seguras e eficazes para o tratamento da esquizofrenia do que qualquer outro medicamento anterior.

Durante muitos anos, parecia que todo o entusiasmo em torno delas era totalmente justificado.

Havia histórias notáveis de recuperação. E a nova geração de drogas anti-psicóticas, chamadas de "atípicas" (tradução do inglês), parecia causar poucos dos efeitos colaterais freqüentemente presenciados quando da administração de altas doses das medicações mais antigas para as psicoses.

As drogas pareciam ser um sucesso tão grande que os médicos logo começaram a prescrevê-las para outros males. Não só para doenças psicóticas, como o transtorno bipolar, mas também para o mal-de-Alzheimer, desordens de personalidade e depressão não-psicótica, além de desordens de conduta e agressividade intensa em crianças. As vendas das medicações dispararam.

Mas, 14 anos após a primeira geração dessas drogas ter sido lançada no mercado, os pesquisadores estão questionando se elas são assim tão milagrosas - ou benignas - conforme foi originalmente alardeado.

A primeira safra de antipsicóticos gerava efeitos colaterais tão desagradáveis, como por exemplo secura da boca, rigidez das articulações e tremores, que os pacientes muitas vezes paravam de usá-los. Já as ""atípicas"" são tidas por muitos pacientes como mais toleráveis, e muitos especialistas acreditam que elas sejam melhores que as drogas mais antigas para o tratamento de certos aspectos das psicoses.

Mas estudos sugerem que a sua superioridade é, na melhor das hipóteses, modesta, específica para certos sintomas e variável de droga para droga. Ao mesmo tempo, há a suspeita cada vez maior de que elas causem sérios efeitos colaterais, especialmente o diabetes, levando, em certos casos, à morte.

A questão dos riscos se tornou mais premente à medida que essas drogas passaram a ser prescritas para crianças e para adultos com sintomas moderados. E os Estados, que pagam quantias enormes pelas drogas ""atípicas"" todos os anos para atender aos pacientes portadores de graves problemas mentais, estão questionando se os benefícios das novas drogas compensam os seus custos elevados.

Segundo especialistas, esses medicamentos atingiram agora um ponto de inflexão, onde os seus benefícios potenciais precisam ser sopesados com base em seus efeitos colaterais e seus custos.

Espera-se que os psiquiatras discutam os méritos relativos de anti-psicóticos mais novos e mais antigos em São Francisco, na próxima quarta-feira, em um simpósio na reunião anual da Associação Psiquiátrica Americana. Em outros eventos, os psiquiatras estão apresentando novos dados relativos à segurança das drogas ""atípicas"".

"Clínicos e investigadores estão examinando com mais rigor aquelas áreas nas quais as novas drogas deveriam ter um melhor desempenho", diz Jeffrey A. Lieberman, professor de psiquiatria e farmacologia da Universidade da Carolina do Norte.

O desenrolar dessa questão será acompanhado de perto não só pelos quase cinco milhões de norte-americanos que sofrem de esquizofrenia ou de transtorno bipolar - assim como as suas famílias - mas também pelas autoridades do governo e muitos milhões de outros indivíduos que atualmente estão tomando os medicamentos ou ministrando-os com um copo d'água a seus filhos.

Quando um medicamento chamado Clozaril entrou no mercado em 1989, foi considerado como um marco revolucionário para o tratamento da esquizofrenia.

Pesquisadores europeus, que estudaram essas drogas anos antes, as descreveram como """atípicas""" porque até mesmo em doses muito altas não produziam rigidez nas articulações, tremores e outros sintomas semelhantes aos da doença de Parkinson, geralmente presenciados em pacientes que tomam antipsicóticos mais antigos como o Haldol.

O Clorazil demonstrou ser capaz de ajudar certos pacientes esquizofrênicos quando todos os outros medicamentos fracassavam. Em certos casos, pacientes incapacitados há muito tempo se livraram da apatia e da depressão, retornaram à escola, cultivaram amizades e se engajaram em trabalho produtivo pela primeira vez desde que adoeceram.

Mas em uma pequena percentagem de pessoas (0,7%, de acordo com informação fornecida pela Novartis, que comercializa a droga), o Clorazil causou uma desordem hematológica potencialmente letal chamada agranulocitose, e os pacientes necessitaram de exames de sangue periódicos para monitorar os efeitos colaterais, aumentando os custos e fazendo com que os médicos passassem a hesitar em usá-lo.

No decorrer da década passada, uma série de outras drogas "atípicas", que não causavam desordens hematológicas, foram lançadas no mercado.

O Risperdal, o primeiro desses medicamentos, da Janssen Pharmaceuticals, foi aprovado pela Administração de Alimentos e Remédios (FDA, na sigla em inglês) em 1994. O Zyprexa recebeu aprovação da FDA em 1996.

As novas drogas - entre as quais estão também o Seroquel, vendido pela AstraZeneca Pharmaceuticals; o Geodon, pelo Pfizer; e, mais recentemente, o Abifily, comercializado pelo Bristol-Myers Squibb - demonstraram ser extremamente lucrativos para a indústria farmacêutica.

"É provavelmente o mercado que mais cresce no setor farmacêutico", afirma Richard Evans, analista de pesquisas da Sanford C. Bernstein.

As vendas nacionais de antipsicóticos chegaram à casa dos US$ 6,4 bilhões em 2002, fazendo deles a quarta categoria de remédios mais vendida, atrás dos medicamentos para abaixar o colesterol, das drogas contra úlcera e dos antidepressivos, segundo a IMS, uma companhia que monitora as vendas de medicamentos. Segundo a NDCHealth, uma outra empresa que monitora o setor, em 2002 mais de 7,4 milhões de receitas foram prescritas para o Zyprexa e mais de 7,6 milhões para o Risperdal, as duas medicações "atípicas" mais vendidas.

Especialistas dizem que o sucesso dessas drogas não é apenas um fenômeno de marketing. Vários médicos e pacientes as preferem quando comparadas aos medicamentos mais antigos.

Bretta M., de 34 anos, moradora do Brooklyn, em Nova York, por exemplo, diz que o Zyprexa que toma atualmente é um grande avanço em relação ao Haldol, um remédio de geração mais antiga que, segundo ela, fazia com que se sentisse "como um zumbi".

"Estou menos enrijecida", diz Bretta M. "Sou capaz de me concentrar mais e estou mais alerta."

Mas essas drogas demonstraram que estão longe de ser uma panacéia, dizem os especialistas, e algumas são mais eficazes e têm menos probabilidade de causar efeitos colaterais do que outras.

Estudos indicaram que elas são melhores para evitar o retorno dos sintomas e que têm menos riscos de apresentar o efeito colateral mais pernicioso das drogas mais velhas: a disquinesia tardia, uma desordem caracterizada por movimentos repetitivos que em alguns casos persistem mesmo após a suspensão do medicamento.

Essas drogas podem ainda auxiliar nos casos de problemas de memória, de tomada de decisões e de outras funções mentais que muitas vezes impedem os esquizofrênicos de trabalhar, mas essa é uma questão que ainda é objeto de polêmica.

"Creio que as drogas de nova geração demonstraram ter algumas vantagens", diz John Kane, chefe de psiquiatria do Hospital Zucker Hillside, no Queens, em Nova York, e especialista em esquizofrenia. "Elas podem não apresentar resultados consistentes com relação a todos os estudos e a todas as drogas dessa família, mas quando examinadas como um conjunto, o seu efeito faz sentido."

Mas tem sido difícil para os psiquiatras saber ao certo se as novas drogas são realmente mais eficazes, em parte porque vários estudos são realizados por companhias farmacêuticas ansiosas por demonstrar a superioridade dos seus produtos e a precariedade dos concorrentes.

Estudos independentes são mais incomuns, e seus resultados menos conclusivos.

Por exemplo, em uma apresentação em um seminário sobre esquizofrenia no mês passado, John Davis, professor de psiquiatria da Universidade de Illinois em Chicago, falou sobre uma análise de 124 estudos que compararam as novas drogas com as velhas. Dez antipsicóticos atípicos estavam incluídos na pesquisa, alguns deles comercializados apenas na Europa. Cinco das novas drogas, incluindo duas que não estão no mercado norte-americano, demonstraram ser mais eficazes no tratamento dos sintomas psicóticos do que os tratamentos convencionais, revelou a análise.

Daqueles medicamentos vendidos nos Estados Unidos, o Clozaril foi o mais eficiente, seguido pelo Risperdal e o Zyprexa. Quatro das drogas, no entanto, não demonstraram ter vantagem alguma, e uma delas, vendida apenas na Europa, revelou-se até pior. Davis diz que não recebeu nenhum financiamento de indústrias farmacêuticas para a sua pesquisa.

Mas uma análise feita em 2000, por John Geddes, psiquiatra da Universidade Oxford, criou uma celeuma ao não encontrar diferenças em termos de eficiência entre as duas categorias de drogas. O estudo, financiado pelo Departamento de Saúde Inglês e publicado no "British Medical Journal", examinou 52 estudos comparando drogas antigas e as "atípicas".

Alguns especialistas nutrem esperanças de que um estudo de grandes dimensões comparando antipsicóticos tradicionais e atípicos, realizado sob os auspícios do Instituto Nacional de Saúde Mental e dirigido por Lieberman, ajudará a resolver a questão quando os seus resultados forem divulgados no ano que vem.

Mas, quaisquer que sejam os resultados, a pesquisa não vai revelar nada com relação aos efeitos dos novos anti-psicóticos sobre as desordens não psicóticas, para as quais esses medicamentos são cada vez mais prescritos.

Ainda menos conhecidos são os efeitos dessas medicações sobre as crianças. Os psiquiatras dizem que elas são úteis e necessárias para as crianças que sofrem de psicose ou que exibem um comportamento extremamente agressivo. Mas até o momento há poucos dados quanto à sua eficiência ou segurança, embora as companhias farmacêuticas estejam agora começando a estudar o efeito dessas drogas sobre crianças e adolescentes.


Fonte: Jornal Folha de São Paulo
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Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

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