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terça-feira, 1 de janeiro de 2008 - 00:00

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Esquizofrenia: 1% da população mundial é vítima da doença

por: Colunista Portal - Educação

Por Giuliana Reginatto

Um jovem de classe média abandona a casa dos pais para viver pelas ruas. Depois, troca o jeans de grife por cobertores fedorentos e as aulas de medicina por longas conversas com mendigos. Parece até chantagem emocional, típica de um rebelde sem causa desesperado por atenção. Este caso, no entanto, saiu de uma das gavetas do psiquiatra Rodrigo Bressan, coordenador do programa de esquizofrenia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Há uma tendência em associar a esquizofrenia com demência. Na verdade, tratava-se de um rapaz com muito potencial. Hoje, após tratamento, cursa pós-graduação em economia na PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)", relata o médico.

É bem possível que o final feliz do caso acompanhado por Bressan se repita na ficção. Assim como esse paciente, a personagem Alexandra (Nívea Stelmann), da novela "Alma Gêmea", da "Rede Globo", era uma estudante de medicina bastante convencional quando o primeiro surto de esquizofrenia aconteceu. Certa de que seu marido Eduardo (Ângelo Antônio) planejava matá-la, tentou esfaqueá-lo enquanto ele dormia. "Alexandra ouve vozes, imagina que está sendo perseguida", explica Nívea. Os sintomas descritos pela atriz caracterizam um tipo de esquizofrenia conhecido como paranóide, normalmente acompanhado por delírios megalomaníacos.

Há esquizofrênicos que juram ser Napoleão Bonaparte; outros se auto-intitulam deuses. O paciente de Bressan, por exemplo, acreditava ser o principal expoente político da causa dos sem-terra. Já Alexandra, apresenta-se como mensageira dos céus sempre que alguém resolve frear um de seus surtos. "É ótimo poder quebrar o cenário todo. Alivia tensões. Além disso, aproveito as olheiras de minhas noites mal dormidas por causa do meu bebê para compor a personagem", brinca Nívea.

Exageros de TV à parte, descuidos com aparência e abandono da higiene pessoal são comuns entre esquizofrênicos. A ordem dada pelo diretor da novela das seis, Jorge Fernando, foi bem clara: nada de maquiagem, cabelo escovado ou unhas pintadas para Nívea. "Nem corretivo posso usar, mas sei que não há vaidade para o ator. Ele tem de ser camaleão. Alexandra é muito diferente das mocinhas que sempre interpretei. Ela me desafia." Já a esquizofrenia, desafia os médicos. Ainda não existe entre eles uma explicação definitiva para as alterações de dopamina que acontecem no cérebro de um esquizofrênico. A substância, quando liberada em excesso pelos neurônios, causa os transtornos psicóticos que caracterizam a doença. 

"Não se sabe o que provoca essa descarga maior de dopamina. Fala-se em genética e alterações no neurodesenvolvimento do bebê durante a gravidez", explica Bressan. Cerca de 80% dos casos se manifestam entre os 17 e os 27 anos, mas fatores externos podem agravar a doença, como o consumo de drogas, álcool e anfetaminas.

"Há casos em que um grupo fuma maconha na faculdade e só um estudante desenvolve esquizofrenia. Não é possível dizer que a droga sozinha desencadeie a doença. A substância age dessa forma em uma pessoa com predisposição genética", diz.

 Por ser quase sempre camuflada pela família do doente, a esquizofrenia parece atingir só os loucos personagens da ficção. A doença, na verdade, afeta mais de 1% da população mundial, sendo mais freqüente que o mal de Alzheimer, diabete ou esclerose múltipla.

Só no Brasil, há cerca de 1,8 milhão de esquizofrênicos. "O problema é que a família reluta em procurar o psiquiatra, o que só retarda o início do tratamento", explica Bressan. Não existe cura definitiva para a doença. Nos EUA, por exemplo, ela é responsável por 20% de todos os dias de afastamento da Previdência Social. Ainda que seja impossível curar uma desordem neurológica tão intensa, medicamentos antipsicóticos e tratamento psicológico quase sempre conseguem reintegrar socialmente o paciente.

Excentricidade genial

- Van Gogh passou por muitos sanatórios durante suas crises de alucinação. Chegou a mutilar a própria orelha para oferecê-la a uma prostituta. O pintor tentou o suicídio várias vezes, até dar um tiro no próprio peito em 1890. Além de esquizofrenia, sofria de epilepsia.

- Syd Barrett era mais do que um músico movido por LSD. Era poeta, pintor e performer da banda Pink Floyd. A droga agravou sua esquizofrenia, doença que o afastou do rock. Atormentado por alucinações, tornou-se jardineiro.

- As grandes depressões de Abraham Lincoln, presidente dos EUA no século 19, estão documentadas em seus escritos. Há neles indícios de esquizofrenia, embora não exista diagnóstico preciso sobre seus distúrbios psíquicos.

- Dotado de uma técnica primorosa, o bailarino russo Vaclav Nijinsky era chamado de "o deus da dança" e "a oitava maravilha do mundo". Após duas décadas de palco, abandou a dança aos 29 anos, por causa de um colapso mental diagnosticado como esquizofrenia. A história está documentada em seu famoso diário.

Variações: de estátua a Napoleão

PARANÓIDE - É a manifestação mais freqüente da doença. O paciente acredita que o mundo inteiro o persegue, que as pessoas falam mal dele e o invejam ou que desejam fazer-lhe mal e até matá-lo. É exatamente esse tipo que a novela "Alma Gêmea" retrata por meio da personagem Alexandra. Não é raro que a pessoa tenha também delírios de grandeza, acompanhados por aparições de deuses, diabos alienígenas e outros seres sobrenaturais. Alguns doentes, inclusive, chegam a se proclamar líderes políticos ou religiosos, como Napoleão Bonaparte e Maomé.

HEBEFRÊNICA - Também chamada de esquizofrenia desorganizada. Neste grupo estão aqueles que têm problemas de concentração, pouca coerência de pensamento e discurso infantil. Expressam falta de emoção ou emoções pouco apropriadas, como gargalhadas em ocasiões solenes e choro excessivo sem motivo aparente. Alguns pacientes também têm crenças falsas, como achar que o vento se move na direção que ordenam.

CATATÔNICA - É o tipo menos freqüente. Apresenta como sintoma transtornos psicomotores, tornando difícil ao paciente mover-se. Alguns passam horas sentados na mesma posição. A falta de fala também é freqüente.

INDIFERENCIADA - Trata-se de uma esquizofrenia que reúne sintomas de todos os outros grupos: delírios e alucinações, distúrbio do pensamento e comportamento estranho, como embotamento afetivo e falta de motivação.

Uma mente que seduziu multidões

Descobrir-se vulnerável aos caprichos do cérebro parece assustador. Deve ser por isso que o drama biográfico "Uma Mente Brilhante", de Ron Howard, fez tanto sucesso quando foi lançado em 2001. A platéia descobre a esquizofrenia junto com John Forbes Nash Jr. (Russel Howard), o matemático norte-americano que melhor traduz a expressão "cientista maluco". Vencedor do prêmio Nobel de economia em 1994, Nash alternava seus relâmpagos de genialidade com crises agudas da doença, com direito a amigo imaginário, retração social e vozes que ditam ações. Em 2002, o filme faturou quatro categorias do Oscar e quatro prêmios Globos de Ouro, entre outros títulos.

Fonte: Agência Estado

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