Fonte: PHARMACIA BRASILEIRA, nº 20, maio/jun 2000
A automedicação é definida como o uso de medicamentos sem prescrição médica, na qual o próprio paciente decide qual medicamento utilizar. Inclui-se nesta designação genérica a prescrição (ou orientação) de medicamentos por pessoas não habilitadas, como amigos, familiares ou balconistas de farmácia, nesses casos também considerados exercício ilegal da Medicina. (BORTOLI et al., 1998). No Brasil, de acordo com a ABIFARMA (Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas), cerca de 80 milhões de pessoas é adepta da automedicação (IVANNISSEVICH, 1994).
Estes dados são preocupantes, pois em um país como o Brasil, onde o acesso aos serviços de saúde pública é difícil, o nível de instrução e escolaridade são baixos, onde há carência de informação à população, se instalou uma verdadeira selva terapêutica caracterizada pelo elevado número de especialidades farmacêuticas e pela deturpada consciência acerca dos medicamentos e da farmacoterapia, os riscos da prática da automedicação são potencializados sinergicamente.
Recentemente, um trabalho realizado no município de Curitiba, pela UFPR, conseguiu traçar o perfil da automedicação em dois bairros da capital paranaense, onde foram avaliados: o consumo de medicamentos no mês anterior à entrevista, o número de pessoas que recorreram à automedicação, os sintomas motivadores mais frequentes e os medicamentos utilizados. Para avaliar a influência do nível socioeconômico, foram aplicados questionários, nos bairros com diferentes índices de carência. Este índice foi definido, a partir dos indicadores de condição de vida, como domicílio, saneamento básico e nível social do morador. O índice do bairro A foi 1, que corresponde a uma região em condições muito críticas, enquanto o índice de carência do bairro B foi 4, situando-o como um bairro de condições sociais boas.
RESULTADOS:
Dos indivíduos entrevistados, 75% consumiram medicamentos, e destes, 21,6% mediante automedicação. Analisando-se os bairros pesquisados, o índice de automedicação no bairro A foi de 7,5%, enquanto no bairro B, a prevalência ficou em 34,4%.
ÍNDICE DE AUTOMEDICAÇÃO
Bairro A 7,5%
Bairro B 34,4%
Os sintomas mais comuns citados foram: cefaleia com 43,5%; seguido dos sintomas de gripes e resfriados, com 13,0%; hiperacidez gástrica com 8,7% e outros diversos, com 34,7% dos casos. Os analgésicos foram os medicamentos mais utilizados na automedicação, em 50% dos casos; seguidos dos antiácidos em 13,6%; e antitussígenos em 9,1%. Outros medicamentos citados obtiveram 27,3%.
DISCUSSÃO E CONCLUSÃO
Os valores encontrados são muito destoantes dos demais estudos realizados em outras cidades brasileiras. Em municípios do interior da Bahia, das 226 pessoas entrevistadas, 168 (74%) consumiram medicamentos por conta própria ou indicados por leigos (HAAK). No município de Santa Maria, RS, 53,3% dos entrevistados se automedicaram, mas se considerarmos somente os que consumiram medicamentos (prescritos pelo médico ou não) a prevalência é de 76,1% (BORTOLI, 1998).
Concluiu-se que estes bairros curitibanos apresentam índices de automedicação inferiores aos observados em estudos pregressos de outros locais do país; sendo que no bairro de condições sociais mais baixas os índices observados foram menores, pois os medicamentos são obtidos pela população principalmente pelo Sistema Único de Saúde. Desta forma, o SUS revela-se um importante controlador/ moderador da automedicação, pois o medicamento no posto de saúde somente é obtido mediante apresentação de receituário médico.
Nesse contexto, o farmacêutico notabiliza-se como o mais importante profissional na automedicação, pois é o último profissional a entrar em contato com o paciente, antes do início do tratamento medicamentoso e, desta forma, pode atuar com sucesso no uso correto, apropriado e criterioso do medicamento, contribuindo decisivamente com a farmacoterapia racional, fornecendo informações seguras, embasadas no seu vasto rol de conhecimentos farmacológicos e farmacotécnicos.
TATIANA HERRERIAS
MILENA MARTINEZ
GRACCE MARIA SCOTT BARETA
Adam Macedo Adami - Redação e Resumo - Formando de Farmácia*