Por Dr. Antonio Iñesta
Muitos medicamentos de venda livre e de prescrição médica podem conter açúcar (sacarose, glicose, etc.), e foi bem estabelecido, na lista de discussão eletrônica, que os açúcares presentes nos medicamentos (como hidratos de carbono, que são ainda que na forma de mono ou dissacarídeos de absorção mais rápida) podem ser utilizados pelos pacientes diabéticos sempre que se saiba a quantidade que se utiliza e o tempo de duração do tratamento.
No caso dos diabéticos, é muito mais importante considerar os princípios ativos que interagem com os antidiabéticos e/ou com a insulina e que produzem alterações no metabolismo da glicose, alteram a tolerância a este açúcar e podem ocasionar a apresentação de autênticos problemas clínicos. A seguir apresenta-se uma série destes princípios ativos que podem fazer parte da composição de medicamentos de venda livre ou de prescrição médica:
Medicamentos de venda livre
Ácido acetilsalicílico (AAS) - Em pequenas doses (como aquelas que se utilizam em uma dor de cabeça) não apresentam problemas. Em grandes doses (como aquelas adotadas para o tratamento da dor na artrite crônica) pode reduzir os níveis de glicose. Este fato é mais observado em pacientes diabéticos tipo 2 que fazem uso de sulfonilureias.
Produtos contra resfriado e produtos para dietas - Muitos dos compostos contidos nestes medicamentos, como efedrina, pseudoepinefrina, fenilefedrina e epinefrina, podem elevar o nível de glicose sanguínea.
Suspensões, gotas e xaropes para a tosse - Muitos xaropes, suspensões e gotas levam açúcar em sua composição, além disso, quando se está doente, os níveis de glicose tendem a aumentar ocasionando, em consequência, problemas em pacientes diabéticos. Os xaropes e gotas contra a tosse só devem ser utilizados para tosses secas e não nos casos de tosse produtiva. O melhor supressor de tosse disponível é o dextrometorfano e se deve priorizar o uso apenas deste princípio ativo (sem associações) para o tratamento da tosse seca. Para a tosse produtiva a sugestão é a ingestão de seis a oito copos de água ao dia para diminuir a congestão. Portanto, as tosses produtivas não devem ser tratadas com xaropes ou outros produtos contra a tosse, neste caso, é melhor que as secreções sejam eliminadas do que retidas com a utilização de antitussígenos.
Medicamentos de prescrição médica que elevam os níveis de glicose sanguínea:
Corticoides (predinisona, dexametasona, cortisona, triancinolona, etc.) - antagonizam o efeito hipoglicêmico dos medicamentos antidiabéticos. Esta interação não se aplica aos medicamentos de uso tópico incluindo aqueles de inalação (bombinhas).
Diazóxido - antagoniza o efeito hipoglicemiante dos antidiabéticos.
Diuréticos (clorotiazida, hidroclorotiazida, acetazolamida, ácido etacrínico, furosemida, etc.) - antagonizam do efeito hipoglicemiante dos antidiabéticos.
Diurético (tiazídico) associado a um poupador de potássio com clorpropamida - aumenta o risco de hiponatremia (diminuição dos níveis plasmáticos de sódio).
Estrógenos em contraceptivos orais combinados - antagonismo do efeito hipoglicemiante dos antidiabéticos; também pode aplicar-se a adesivos de contraceptivos combinados. Em caso de terapia de reposição hormonal em baixas doses é pouco provável que estas interações sejam induzidas.
Carbonato de lítio - às vezes pode prejudicar a tolerância à glicose.
Fenitoína - a concentração plasmática de fenitoína é transitoriamente aumentada pela tolbutamida (possibilidade de toxicidade)
Fenotiazinas - possível antagonismo do efeito hipoglicemiante das sulfonilureias
Nifedipina - às vezes deteriora a tolerância à glicose.
Octreotida - possível redução da necessidade de insulina e de metformina.
Progestágenos- antagonismo do efeito hipoglicemiante dos antidiabéticos orais. As interações de contraceptivos orais combinados também podem aplicar-se a adesivos de contraceptivos combinados.
Propranolol e outros betabloqueadores - reduzem o nível de glicose sanguínea em algumas pessoas e o elevam em outras. Também mascaram os sintomas da hipoglicemia, tais como, sudorese e temor.
Rifamicina - as rifamicinas possibilitam a aceleração do metabolismo (efeito reduzido) de sulfonilureias (clorpropamida e tolbutamida). A rifamicina reduz a concentração plasmática de repaglinida.
Medicamentos de prescrição que reduzem os níveis de glicose sanguínea
AINE - efeito possivelmente aumentado das sulfonilureias. As interações não se aplicam em geral aos AINES de uso tópico.
Aminoglutetimida - os fabricantes indicam a possibilidade de aceleração do metabolismo dos antidiabéticos orais (biguanidas e sulfonilureias).
Azapropazona - efeito aumentado das sulfonilureias (evitar o uso concomitante).
Colestiramina - aumenta o efeito hipoglicemiante da acarbose. Deve-se tomar os outros medicamentos pelo menos uma hora antes ou 4 a 6 horas depois da administração de colestiramina para reduzir uma possível interferência na absorção.
Esteroides anabolizantes - possível aumento do efeito hipoglicêmiante dos antidiabéticos.
Cimetidina - Aumenta a concentração plasmática da metformina devido à inibição da sua excreção renal. Claritromicina - aumenta o efeito da repaglinida.
Cloranfenicol - aumenta o efeito das sulfonilureias.
Anticoagulantes cumarínicos - possível aumento do efeito hipoglicemiante das sulfonilureias e alteração nos efeitos anticoagulantes. Mudanças na condição clínica do paciente, particularmente quando associada com enfermidade hepática, enfermidade intercorrente ou administração de medicamentos, tornam necessário maior frequência no controle anticoagulante.
Fibratos (clofibrato) - podem melhorar a tolerância à glicose e ter um efeito aditivo com a insulina.
Fluconazol - Aumenta as concentrações plasmáticas das sulfonilureias. Em geral, as interações se relacionam com tratamentos de doses múltiplas.
Genfibrozila - quando administrado junto com a repaglinida apresenta risco aumentado de hipoglicemia grave (evitar o uso concomitante).
Inibidores da Enzima Conversora da Angiotensina (IECA) - aumenta o efeito hipoglicemiante das insulinas.
Inibidores da Monoamino Oxidase (IMAO) - possível aumento do efeito hipoglicemiante.
Miconazol - Aumenta a concentração plasmática das sulfonilureias. Efeito hipoglicemiante aumentado com glipizida e gliclazida (evitar uso concomitante).
Orlistat - os fabricantes aconselham a evitar o uso concomitante com acarbose.
Propranolol e outros betabloqueadores - reduzem os níveis de glicose sanguínea em algumas pessoas e o elevam em outras. Também mascaram os sintomas da hipoglicemia, tais como, sudorese e temor.
Sulfonamidas (como antibacterianos) - raramente aumentam o efeito das sulfonilureias.
Testosterona - possível aumento no efeito hipoglicemiante.
Algumas indicações que podem ser informadas a pacientes diabéticos para evitar interações com medicamentos
Ler os prospectos de informação (bulas) dirigidos ao paciente, principalmente as informações referentes às precauções, advertências, interações e contraindicações. Todos os médicos que atendem o paciente devem saber suas principais patologias e os medicamentos que o mesmo faz uso. Utilize uma só farmácia para obter os medicamentos, desta forma será possível o registro de todos os seus medicamentos e de suas enfermidades mais importantes, especialmente as crônicas. Saiba o nome genérico e para que servem os medicamentos que lhe foram prescritos ou tenha esta informação anotada.
Tenha conhecimento das doses que devem ser utilizadas e os seus respectivos horários, bem como, como deve proceder em caso de esquecer um dos horários de tomada. Supervisione sua glicose sanguínea (anote em seu registro os valores obtidos juntamente com observações sobre os medicamentos que tomou e suas respectivas doses). Pergunte se deve tomar o medicamento com ou sem alimentos e se deve considerar qualquer efeito secundário potencial.
Quanto mais o paciente conhece os medicamentos que utiliza melhor supervisionará os seus níveis de glicose no sangue e evitará complicações. Como resumo, pode-se afirmar que a principal preocupação dos farmacêuticos com os pacientes diabéticos deve ser o controle da administração de outros medicamentos que possam interagir com os antidiabéticos e/ou insulina ou que possam alterar diretamente a tolerância à glicose.
Fonte: Núcleo de Pesquisa em Atenção Farmacêutica e Estudos de Utilização de Medicamentos
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