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Mitos em diabetes


24 de janeiro de 2011


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Atualmente, mesmo possuindo acesso mais amplo à informação, ainda existem diversas dúvidas que povoam o imaginário popular, quando o assunto é diabetes. Elas se dividem em simpatias "milenares", no "poder" de alguns alimentos e na questão das complicações crônicas que podem surgir após o diagnóstico.
É exatamente por meio dessa desinformação, digamos, generalizada, que nascem os mitos da disfunção. A maioria está relacionada aos alimentos. Não são poucas as receitas caseiras que prometem um tratamento definitivo. Até mesmo a cura, por meio de "nutrientes milagrosos", chegou a ser anunciada.
A ciência, é claro, não poderia ficar alheia ao apreço popular por esses produtos naturais, que persistem em comprovar sua eficácia em relatos espalhados não só pelo Brasil, mas em todo o mundo. Ainda não existem provas ou resultados satisfatórios que apontem a eficiência de alguma planta, carne, fruto ou verdura. Conheça os principais mitos e saiba o que a medicina tem a dizer sobre eles.

A Polêmica Sobre o Consumo do Mel

Em maio de 2002, a revista Veja publicou uma reportagem em que um advogado paulista afirmou curar o diabetes com derivados de mel. A afirmação, infelizmente, não é verdadeira. Serviu apenas para causar polêmica entre os especialistas e comentários de várias sociedades que atuam na área. Mas isso não significa que estamos diante de um alimento ruim. O que deve ser analisado são as substâncias que o constituem e os efeitos que causam no organismo.

Por possuir característica de alta absorção, o mel pode modificar rapidamente a glicemia. Há uma concentração maior, por exemplo, de carboidratos. A pessoa com diabetes tipo 1 não está proibida de consumir mel, desde que calcule a dose extra de insulina ultrarrápida que será necessária aplicar posteriormente. O que não pode haver, no entanto, é o consumo livre e contínuo. Porque, com o passar do tempo, o excesso de carboidratos vai se transformar em ácido graxo e gordura. E isso significa ganhar massa corporal.

É exatamente na questão do peso que surge o principal problema para o diabetes tipo 2. Este é um grupo onde 90% dos indivíduos são obesos. E a dieta é um fator importante para o tratamento correto, pois possibilita um melhor controle da glicemia e, consequentemente, da pressão e do perfil lipídico. Portanto, é imprescindível que os alimentos sejam discutidos à luz destas informações.

Polêmica Sobre o Consumo de Café

No dia 8 de novembro de 2002, o site do jornal Folha de São Paulo publicou uma reportagem sobre o estudo preliminar do Instituto Nacional de Saúde Pública da Holanda, referente ao café. Segundo os resultados divulgados, o hábito de ingestão diária da bebida poderia reduzir as chances de desenvolver o diabetes tipo 2.

Mais de 17 mil indivíduos foram analisados. Os pesquisadores holandeses concluíram que quem costuma ingerir sete doses por dia de café reduziria em até 50% as possibilidades em relação aos que ingerem apenas duas vezes ou menos.

No entanto, não foi encontrada uma relação de causa e efeito na pesquisa. Ou seja, não foi relatado de que forma o benefício poderia ocorrer ao longo dos anos. Suspeita-se até que as conclusões não passam de mera coincidência.

No mais, como sabemos, o café é uma bebida nacional altamente difundida. Possui substâncias estimulantes que podem atuar no conjunto digestivo. Para as pessoas com diabetes, o consumo deixou de ser um problema, pois o açúcar foi substituído pelo adoçante. O que se deve evitar é o exagero, assim como com qualquer outro alimento.

Frutos do Mar

O argumento de que os frutos do mar podem ajudar no tratamento do diabetes surgiu em razão de alguns (como o camarão, por exemplo) conterem dois tipos de minerais: o cromo e o zinco, cujas taxas costumam ser baixas nos indivíduos que possuem a disfunção.

Embora haja a carência dessas substâncias, a suplementação desses elementos não melhora o quadro de diabetes. Além disso, esses estudos ainda são preliminares e merecem uma análise mais profunda para esclarecer qualquer dúvida. Pode-se até levar em conta que, por serem de baixa caloria, tenham uma ação benéfica. Além disso, possuem menos gorduras. Portanto, o uso pode ser direcionado para a terapia da dieta, mas nada específico ou protetor contra o diabetes.

Plantas

Plantas como a Carqueja, Pata de Vaca, Alcachofra e Cebola são as preferidas da população e são as que mais geraram mitos, como as famosas “receitas e chás infalíveis para o diabetes”. Quem nunca ficou sabendo de alguma pelo taxista, dona do lar ou curandeira? Pois é, todos que possuem este problema na família já ouviram diversas afirmações neste sentido.

É claro que algumas plantas, assim como outros alimentos naturais, possuem elementos nutritivos importantes, com baixas calorias. O que é ideal para manter uma dieta saudável. Contudo, elas já estiveram “na mira” dos especialistas, que, infelizmente, não obtiveram resultados satisfatórios.

Realmente seria espetacular a descoberta de alguma substância que indicasse a cura ou um novo tratamento do diabetes, principalmente em nosso país, que possui uma biodiversidade tão grande. Mas isso não significa que as pessoas com diabetes estejam sem saída. É importante lembrar que os métodos atuais já proporcionam uma vida longeva e saudável, para todos aqueles que seguem o tratamento com responsabilidade e disciplina.

Batata Yacón

Este é um mito que vem obtendo fundamento. Os estudos, apesar de ainda serem preliminares, estão demonstrando resultados interessantes. A Batata Yacón possibilitaria a pessoa com diabetes um aporte calórico maior de carboidratos, sem colocar em risco o controle metabólico.

Além disso, há alguns anos a imprensa vem ressaltando sua capacidade de diminuir os níveis de açúcar no sangue. Suspeita-se que esse alimento apresenta teor de frutose em 60% de sua composição. Isso poderia auxiliar a diminuição da glicose, embora ainda não se saiba como.

Luzes acessas ao dormir

No dia 30 de junho de 2002, o site da BBC Brasil publicou uma reportagem sobre o estudo da Universidade de Cardiff, na Grã-Bretanha, sugerindo que as pessoas com diabetes dormissem com as luzes acessas. A teoria diz que a medida pode evitar a retinopatia, responsável por causar danos à visão. Sabe-se que a complicação ocorre porque minúsculos vasos sanguíneos na parte traseira dos olhos rompem-se ou são bloqueados.

A retina seria lesada por ausência de oxigenação e o problema aumentaria durante a noite, quando os olhos necessitam de mais oxigênio para enxergar em ambientes escuros. Assim, foi concluído que a claridade pode passar pela pálpebra, fazendo com que os olhos adaptem-se melhor à luz e reduzam o consumo de oxigênio da retina.

Com esses argumentos, teoricamente os estudos fazem sentido, porque a luz promove a dilatação e a circulação. No entanto, é um método que contraria o bem-estar. Além disso, possuímos exames avançados que podem detectar a retinopatia ainda na fase inicial e tratá-la de forma correta.

Impotência sexual

A impotência é uma complicação que pode ocorrer. A melhor forma de tentar evitá-la é por meio do controle da glicemia. Ou seja, cuidar bem do diabetes, mantendo uma vida saudável. Isso significa que ninguém está fadado a sofrer deste problema, basta seguir corretamente as orientações médicas.

Adoçantes artificiais como causa de câncer

Há cerca de um século os indivíduos com diabetes vêm utilizando, regularmente, os adoçantes artificiais e não existem evidências científicas de maior incidência de câncer neste grupo. As pesquisas que levaram a esta dúvida utilizaram doses diárias quinhentas vezes maior do que a recomendável para o homem. Podemos dizer, portanto, que o uso é seguro.

Acupuntura

A acupuntura vem ganhando, ultimamente, muitos adeptos no Brasil. Para as pessoas com diabetes pode ser útil apenas no alívio das dores, nas neuropatias e para determinados casos, sob orientação médica. No entanto, se for usado como substituto do tratamento usual (dieta, insulina comprimidos hipoglicemiantes, exercício físico e etc.), pode ser perigosa.

Homeopatia para curar o diabetes

Não existem evidências nem mesmo a existência de trabalhos científicos que atestem sua validade no tratamento do diabetes. Portanto, não se pode pensar no abandono do tratamento clássico, pela homeopatia.

Mitos em geral

No geral, as dúvidas variam muito com o nível de conhecimento das pessoas em relação ao diabetes. Na população de baixo poder aquisitivo costuma ser comum a crença de que o tratamento é algo localizado, com prazo estipulado e cura definitiva. O que não é verdade. Há uma dificuldade de entender o uso contínuo da medicação.

Já nos indivíduos de classe média e alta encontra-se a questão da imagem. Algumas sentem vergonha de serem taxadas de diabéticas. O que não tem fundamento, pois o diabetes não torna ninguém incapaz. Além disso, o tratamento atual permite uma vida saudável e duradora.
Fonte: Sociedade Brasileira de Diabetes
Consultoria: Dr. José Egídio Paulo de Oliveira, Professor da Faculdade de Medicina da UFRJ e ex-presidente da SBD.*
 
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