Por Deborah Franklin
Sua garganta parece ter engolido cacos de vidro, seu peito está obstruído há alguns dias, você está tossindo uma coisa verde e deverá pegar um avião dentro de uma semana. Não faz mal que seu médico ache que você está sofrendo uma infecção viral e que os antibióticos não conseguirão curá-lo. Por que não iniciar a prescrição de algum medicamento antibacteriano imediatamente, só para garantir?
O médico Alastair D. Hay, que dá aulas a estudantes de medicina na Universidade de Bristol, na Inglaterra, e também oferece tratamento a pacientes, afirma que até recentemente sujeitava-se à pressão de entregar uma prescrição de vez em quando. “Como uma política pessoal, não entro em discussões sérias com meus pacientes”,disse Hay.
E dado que a lição moral padrão sobre como antibióticos não irão acabar com um vírus, mas quiçá contribuir para seu crescimento, o problema mundial da resistência do medicamento raramente convence pessoas doentes de que não necessitam do remédio. “A menos que você possa dizer que esta constitui uma desvantagem direta a elas”, disse Hay, “a mensagem simplesmente não entra em suas cabeças”.
No entanto, atualmente, Hay pode citar uma evidência direta de um efeito colateral. Um número crescente de estudos, inclusive seu próprio trabalho, sugere que até mesmo antibióticos devidamente prescritos podem estimular o crescimento de uma ou mais tensões de bactérias resistentes a antibióticos de dois a seis meses dentro da pessoa que toma o medicamento.
“Carregar” um micróbio dentro de você que seja resistente a um medicamento também significa que, durante este tempo, você pode “compartilhar o vírus resistente com a família, colegas de trabalho e outras pessoas que surjam em seu caminho”.
Esta pressão em especial pode não deixá-lo doente. Mas se um dia você estiver sem imunidade depois de uma quimioterapia, machucado por um acidente de carro ou cirurgia ou especificamente vulnerável a uma pneumonia bacteriana depois de um forte resfriado, essas tensões resistentes de bactéria vivendo dentro de você aumentam as chances de qualquer infecção ser muito difícil – e até impossível – de ser combatida.
Em um estudo publicado na edição de julho de 2005 do The Journal of Antimicrobial Chemotherapy, Hay e nove colegas solicitaram amostras de urina de uma amostragem representativa de pessoas saudáveis por todo o sudoeste da Inglaterra. Em seguida eles verificaram as amostra da E. coli, bactéria intestinal comum que pode invadir a uretra. Análises publicadas estimam que cerca de 25% a 35% das mulheres entre 20 e 40 anos nos Estados Unidos possuem infecção no curso urinário, e a E. coli constitui a causa mais frequente dela.
Dos 618 homens e mulheres de quem Hay e seus colegas foram capazes isolar a E. coli e, além disso, conseguiram registros médicos extensivos, 39% possuíam uma tendência bacteriana resistente a um ou mais dos antibióticos de primeira-linha, comumente utilizados para tratar de infecções urinárias.
De forma mais significativa, disse Hay, a probabilidade de um paciente possuir um organismo resistente era dobrada se o paciente tivesse tomado “qualquer antibiótico por qualquer motivo dentro dos últimos dois meses, quando comparados àqueles que não tomaram antibióticos”.
As descobertas se encaixam com os resultados de outros estudos que encontraram uma forte, porém temporária, ligação entre infecções urinárias resistentes a medicamentos e antibióticos tomados nos últimos seis meses.
“Muitas mulheres passaram pela experiência de terem uma infecção urinária que parece não ser tratável, ou que precisa cada vez mais de remédios”, disse Abigail A. Salyers, microbiologista na Universidade de Illinois e coautora, juntamente de Dixie D. Whitt, do novo livro “Revenge of he Microbes: How Bacterial Resistance Is Undermining the Antibiotic Miracle”.
Mas o significado da pesquisa vai além das infecções urinárias. Os médicos estão começando a perceber que qualquer antibiótico que prescrevam para combater uma infecção em especial – seja via oral ou injetada –, também irá combater um amplo número de bactérias vizinhas pelo corpo, destruindo micróbios vulneráveis e deixando um espaço, pelo menos temporário, para que bactérias resistentes colonizem o local e obtenham sucesso.
As bactérias diferem em suas habilidades – para se defenderem dos antibióticos – e nos métodos que utilizam. As mais preocupantes são aquelas que rápida e facilmente adquirem material genético por meio das espécies. Uma bactéria que um dia foi vulnerável a qualquer um dos diversos medicamentos pode se tornar imbatível a todos eles. Ela faz isso adquirindo um circuito extra de DNA – principalmente uma maleta genética altamente portátil contendo diversos genes diferentes de resistência – de um micróbio transitório.
Agentes públicos de saúde costumavam supor que esses tipos de superbactérias apareciam principalmente em hospitais, em que uma variedade de condições – incluindo uma concentração de pacientes gravemente doentes, feridas abertas e o amplo uso de antibióticos fortes – gerava as incubadoras das construções de resistência a medicamentos.
O Dr. Ralph Gonzáles, residente da Universidade da Califórnia em São Francisco, é um dos pesquisadores que cada vê mais se dedica ao aprimoramento das formas como os antibióticos são prescritos e levados a clínicas públicas.
Gonzáles espera preservar os poderosos benefícios dos medicamentos enquanto minimiza suas resistências. Há muitos anos, ele trabalhou com associações médicas e com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças para desenvolver diretrizes baseadas em provas a médicos para que as usem na prescrição a pacientes que necessitem de antibióticos em infecções respiratórias.
Mas cada vez mais Gonzáles pensa que são os pacientes – especialmente profissionais de 30 a 40 anos de idade com resfriados fortes e tempo de vida decisivo – que precisam ser convencidos, tanto quanto outros médicos. Segundo Gonzáles, estudos mostram que quando os pacientes chegam à clinica esperando por um medicamento, os médicos tendem a prescrevê-los.
“Poucos pedem diretamente por um antibiótico”, disse ele. “Ao invés disso, você irá ouvir um ‘eu tenho um casamento pra ir em breve – meu casamento – e minha gripe não passa’”.
Para romper com as expectativas dos pacientes de tomarem antibióticos antes de visitarem um médico, Gonzáles prega cartazes em salas de exames que, por exemplo, ajudam a explicar quais sintomas indicam uma infecção bacteriana e quais indicam um princípio viral.
E o que parece um caixa eletrônico no lobby das clínicas sérias de tratamento do hospital, pacientes que esperam para receber a consulta médica agora podem assistir a vídeo clips e responder a perguntas com a intenção de guiá-los a uma melhor compreensão do por que os antibióticos nem sempre são a resposta.
Se essas medidas irão ajudar? Ainda é muito cedo para saber.
Fonte: The New York Times