(1)
(20)
1 de janeiro de 2008
O uso de produtos de limpeza deixou de ser tema doméstico para se transformar em assunto de saúde pública. Um grupo de pesquisadores teme que o uso excessivo de bactericidas nas casas, em forma de sabonetes, desinfetantes ou esponjas, possa não só provocar problemas à saúde do consumidor, mas também colaborar para a seleção de microrganismos resistentes a antibióticos. Em uma reunião sobre resistência global realizada no fim do ano passado, no Canadá, cientistas de várias partes do mundo discutiram a ameaça e concluíram: é preciso cuidado no emprego doméstico de bactericidas.
A médica Flávia Rossi, do Laboratório de Microbiologia da Universidade de São Paulo, participou do encontro e afirma: "A questão precisa ser mais bem estudada, mas serve da alerta. Essas substâncias têm indicação específica e não devem estar em todos os produtos de higiene que usamos no corpo ou na casa."
A idéia de que bactérias têm de ser combatidas a todo custo vem ganhando força entre a população. Produtos que levam bactericida em sua fórmula agora estão associados à idéia de segurança e proteção. Um engano, garante o médico e professor de microbiologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Alexandre Adria. "Ao lado das 10 quatrilhões de células do organismo, há outros 100 quatrilhões de bactérias." Para que doenças não apareçam, é preciso que haja um perfeito equilíbrio entre os microrganismos.
"É como o ecossistema: quando uma espécie é eliminada, outras que concorrem com ela aumentam de forma expressiva. No caso das bactérias, o desequilíbrio é o primeiro passo para o aparecimento de uma infecção."
Pulga e canhão - Claro que os cientistas não apregoam o fim da limpeza da casa. "Queremos apenas alertar que muitos tentam matar uma pulga com um canhão. É errada a idéia de que a casa tem de receber a mesma limpeza de um hospital", diz Flávia. Ela completa dizendo que em casos de pessoas com resistência baixa, quando há risco de infecções ou se já foi diagnosticado problema de saúde, os bactericidas são recomendados, e muito.
"Nesse caso ele funciona como protetor. Mas quando o ambiente e as pessoas são saudáveis, ele tem efeito contrário. Ele retira a proteção natural."
Adria salienta que a limpeza não precisa ser feita com produtos caros ou potentes. De nada adianta, por exemplo, usar bactericida em todos os cantos de uma cozinha e deixar resíduos de alimentos na esponja de lavar pratos ou usar para secar talheres um pano que já serviu para secar a pia.
Sabonete - Os excessos no uso de produtos de limpeza são detectados em consultórios médicos de várias especialidades. A professora de dermatologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ediléa Bagatin, diz ter perdido a conta de quantos pacientes procuram-na com problemas provocados pelo abuso de bactericidas. "As pessoas exageram, principalmente quando estão cuidando de crianças."
Ediléa afirma, por exemplo, que sabonetes anti-sépticos geralmente são muito alcalinos, e, por isso, são incompatíveis com o uso prolongado. "Muitas crianças chegam a ficar com eczemas irritativos, provocados pelo excesso desses sabonetes. Eles são necessários apenas nos casos de infecções. " Com uma filha de 6 anos, Ediléia garante que seus cuidados em casa com limpeza não são exagerados. "A velha combinação de água, sabão, álcool e um ou outro produto já são mais do que suficientes", diz.
Alergia - A professora adjunta de alergia e imunologia da Unifesp Maria Cândido Rizzo lembra ainda que muitos produtos usados podem ter efeito irritante. Para pessoas com propensão à alergia e asmáticos, por exemplo, o cuidado na escolha dos itens de limpeza tem de ser redobrado.
Maria Cândido também considera que muitas pessoas exageram no uso de bactericidas. "Não adianta nada, pois a todo momento trazemos novas bactérias para casa." A professora, que há vários anos estuda a associação entre bactérias e processos alérgicos, afirma: "Em algumas pesquisas, vamos às casas colher amostras para análise. Não é raro detectar em locais aparentemente com limpeza impecável, a presença de bactérias gran-negativas, geralmente encontradas no intestino." Para ela, uma prova de que limpeza correta não depende de produtos potentes.
Cuidados básicos dependem apenas de bom senso
A professora Maristela Funari, de 50 anos, lembra que, quando seus filhos eram pequenos, tinha uma preocupação excessiva com o combate às bactérias. "Vivia limpando, lavando e até jogava água fervente em locais onde caía um bicho."
O cuidado excessivo, no entanto, não foi suficiente para que sua filha mais nova, Marina, hoje com 20 anos, contraísse uma séria infecção. "Alguns amigos disseram que eu não deixava que o organismo criasse defesas", diz.
Depois do susto e de perceber que o contato com bactérias não pode ser evitado, ela garante não cometer mais abusos. "Médicos me convenceram a abandonar boa parte dos meus métodos de limpeza."
A professora de alergia e imunologia da Unifesp Maria Candido Rizzo conta que alguns imunologistas defendem a tese de que crianças que entram em contato com bactérias gran-negativas são menos propensas a desenvolver alergias. Batizada de teoria da limpeza, essa tese, porém, nunca foi comprovada cientificamente. "Mas sabemos que exageros não fazem bem."
A seus pacientes, Maria Cândido dá conselhos tradicionais: arejar a casa, trocar a roupa de cama pelo menos uma vez por semana, limpar a casa com água, sabão e álcool, sempre com panos limpos. O cuidado com os sapatos também é importante: não guardá-los no armário, com as roupas e, se possível, tirá-los sempre que chegar em casa.
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo
Comentários
(1)
(20)