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Resgate Histórico: Enfermagem e a Arte do Cuidar


16 de abril de 2008


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RESGATE HISTÓRICO: ENFERMAGEM E A ARTE DO CUIDAR
Revisão
Enfª Fabiana Schunemann

Estudando-se o surgimento dos hospitais, têm-se vários fatos a serem analisados. Historicamente, antes do período da emergência da medicina científica, o hospital era basicamente um local que se destinava ao abrigo de pobres e doentes que não tinham condições de tratamento domiciliar, procurando as instituições para receber o devido cuidado ou o último sacramento e morrer. Mas a finalidade variava de instituição a instituição e de época para época. O atendimento era frequentemente prestado por religiosas e leigas, que buscavam sua própria salvação (MARTIN, 2003)1.
Segundo Martin (2003), os hospitais, até o século XVIII, esteve sob péssimas condições, devido à predominância de doenças infecto-contagiosa e pela falta de contingente qualificado para cuidar dos doentes. Os ricos eram tratados em suas próprias casas, enquanto que os de classe social mais humilde, além de não terem esta alternativa, tornavam-se objeto de experiência que resultaria em maior conhecimento sobre as doenças em benefício da classe abastada.
É neste cenário que a Enfermagem passa a atuar, quando Florence Nightingale é convidada pelo Ministro da Inglaterra para trabalhar junto aos soldados feridos em combate na Guerra da Criméia. Florence é personagem marcante na elevação do significado da atividade de Enfermagem. Durante cerca de cinco décadas, Nightingale lutou pelo reconhecimento desta profissão, resultando em um trabalho de elevado prestígio para a atividade de Enfermagem (MARTIN, 2003).
Diz ainda que, por volta do século XIX, devido o avanço tecnológico e social a instituição hospitalar elaborou estratégias que visava o bem estar do cidadão, criou-se novos pensamentos e preocupações acerca do binômio, saúde-doença, ou seja, implemento de um ambiente de atenção em saúde com enfoque às resoluções de agravos e cura.
Reportando-nos a Martin (2003), ao passar do tempo, a visão do hospital mudou, contudo, o avanço da Medicina favoreceu a reorganização. Nessa nova concepção de pensar, o médico especialmente, se torna um profissional liberal e a enfermagem gradativamente se profissionaliza, instituindo distinções entre enfermeiras auxiliares e técnicas e as de curso universitário. Assim, como as mulheres foram adquirindo espaço no cuidado, os homens também foram inserindo-se na enfermagem, formando outra mentalidade e imagem das duas profissões.
Os enfermeiros profissionalizaram-se na melhor e mais ampla acepção do termo. Hoje buscam aperfeiçoamento permanente freqüentando cursos e especializações, mestrado e doutorado. O retraimento de outros tempos deu lugar a uma postura mais altiva e voluntariosa. A profissão ganhou espaços mais nobres e generosos, como reconhecimento por sua presença institucional e pela importância de seu trabalho na sociedade.
1 MARTIN, L. M. A ética e a humanização hospitalar. Mundo da Saúde. São Paulo, v. 27, n. 2, ano 27, abr./jun.2003.
O profissional acumula grandes responsabilidades, desde a realização da supervisão da equipe de enfermagem de uma unidade ou várias ao mesmo tempo, até a realização do processo administrativo. Nenhuma tecnologia pode substituir o trabalho do profissional, pois é responsável pelo cuidado, além de muitas atribuições. Ele fica responsável por inúmeras vidas diariamente, independente de estar prestando assistência direta ao paciente ou não.
O objetivo da atenção de enfermagem é cuidar, oferecer condições para que o paciente consiga enfrentar mudanças no seu cotidiano, além de contribuir para uma transição saudável, considerando-o como um ser integral com múltiplas necessidades e potencialidades.
Para Senna (2000, p. 545)2, “o cuidado abrange muito mais que uma técnica ou momento de atenção, de zelo. É uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro”. Esta consciência é necessária para interagir com a pessoa hospitalizada, não deve ser considerado apenas um número ou uma patologia a ser tratada, mas sim, um ser humano, que necessita de cuidado. O acolhimento na visão de Campos (1994, p. 138)3 é “a relação humanizada, acolhedora, que os trabalhadores e os serviços, como um todo, têm que estabelecer com os diferentes tipos de usuários que a eles aportam”.
Podemos estar prestando assistência e não estar cuidando. Cuidar significa, além de tudo, estar preocupado com o paciente, mais que um momento de atenção. “Cuidar é um verbo que se refere à ação de assistir, ajudar ou facilitar ao outro indivíduo, com necessidades evidentes ou que podem ser antecipadas, que levam a melhorar ou aperfeiçoar uma condição humana ou modo de vida” (CROSSETTI, 2000, p. 46)4.
De acordo com Baggio (2006)5, o cuidado está vinculado ao cuidar também com ação de prevenção. A preocupação da equipe de enfermagem necessita abranger não apenas o biológico, mas a totalidade que permeia o cuidado holístico. Conforme Costenaro & Lacerda (2001)6, o profissional não pode limitar a sua atenção ao atendimento daquilo que é visível no corpo. Ampliar a sua visão para o todo é uma necessidade.
Ainda Baggio (2006) apud Silva & Gimenes (2000), enfatiza que, é preciso perceber o 'outro' como ele se apresenta, nos seus gestos e falas, na sua dor e limitação, pois, por trás de cada situação física de doença, há uma história de vida que pode ser percebida em muitos detalhes. Seguramente, o corpo físico revela muitas informações saudáveis e doentias armazenadas.
2 SENNA, R. R. de et al. O ser cuidador na internação domiciliar em Betim/M.G. Revista Brasileira de Enfermagem. Brasília, v.53, n.4, p.545, 2000.
3 CAMPOS, G. W. S. Inventando a mudança na saúde. São Paulo: Hucitec, 1994.
4 CROSSETTI, M. G. O. Ações de cuidar na enfermagem de natureza propedêutica e terapêutica e suas interfaces com os atos de outros profissionais. Revista Gaúcha de Enfermagem. Porto Alegre, v.21, n.44 – 67, jan. 2000.
5 BAGGIO, M. A..O significado de cuidado para profissionais da equipe de enfermagem. Revista Eletrônica de Enfermagem, v. 08, n. 01, p. 09 – 16, 2006. Disponível em http://www.fen.ufg.br/revista/revista8_1/original_01.htm.
6 COSTENARO, R.G.S.; LACERDA, M.R. Quem cuida de quem cuida? Quem cuida do cuidador? Santa Maria: Unifra, 2001.
O cuidado é imprescindível em todas as situações de enfermidades, incapacidade e no processo de morrer. Não se limita apenas a uma tarefa a ser realizada e sim a um momento de se relacionar com o paciente, começando com tarefas técnicas, até seu conforto, mostrando a sua importância para a recuperação e elevação da auto-estima.
Perceber que “o cuidado, assim como a música, tem vários tons que fazem com que seja compreendido/ouvido/percebido de formas diferentes” (ESPIRITO SANTO, 2000, p. 24)7 e torná-lo parte do cotidiano do fazer do enfermeiro poderá ser o início para uma mudança de postura e, uma melhor qualidade da assistência.
O enfermeiro no ambiente hospitalar tem a função de informar e orientar o paciente e seus familiares a respeito de seu tratamento e procedimentos realizados, de uma maneira acolhedora, estabelecendo a relação de apoio e amor com o próximo. Os procedimentos realizados com os pacientes fazem parte das rotinas hospitalares no sentido de promover o restabelecimento físico e emocional.
Para a equipe de enfermagem, os procedimentos podem ser simples e ao mesmo tempo tornam-se ameaçadores para o paciente. Sendo assim, antes de cada procedimento, por mais simples que pareça, a equipe deve esclarecer de forma clara o que será realizado.
Baggio (2006), completa ao referir que, o ambiente hospitalar é possuidor de características que deixam as pessoas vulneráveis, por ser triste e sombrio. Por sua vez, as pessoas enfermas são submetidas a procedimentos, exames, manipulações que desgastam a si próprios, familiares, amigos e, por que não, a própria equipe que presta os cuidados, principalmente a equipe de enfermagem, que é diretamente responsável pelos cuidados deste ser, ofereça um ambiente calmo e acolhedor.
Nesse sentido, a hospitalização causa medo e sofrimento, pois ocorre um afastamento dos familiares trazendo solidão. Nesse momento é importânte a atenção da equipe de enfermagem, buscando perceber essa situação e organizar alternativas para minimizar o sofrimento, contribuindo assim, para uma melhor adaptação ao tratamento.
O exercício do cuidado pelo profissional de enfermagem, é fundamentado principalmente pelo cuidar do outro, toda ação da assistência está voltada para o paciente. Ressalto que, o cuidar do outro, causa para o cuidador sentimentos de prazer e satisfação através das trocas mútuas de conhecimentos e sentimentos, ao cuidar do outro o enfermeiro está também cuidando de si mesmo.
Diante do cuidado do outro pelo enfermeiro, este deve manter uma relação empática com os aspectos físico e sobretudo o emocional do paciente, de modo a resguardar a dignidade de ser humano. A dor manifestada pela clientela sensibiliza o profissional, que busca em suas ações o alívio, através de ações inseridas na práxis do cuidar.
Conforme Baggio (2006), a relação de empatia é desenvolvida a partir da capacidade de colocar-se no lugar do outro, seja em situações gratificantes ou de frustração. Os seres humanos são únicos e possuem histórias de vida particular a si, por isso, nem sempre será possível perceber do mesmo modo. No entanto, a empatia pode ser compreendida de maneira semelhante, mais próximo, do que o outro possa perceber.
7 ESPIRITO SANTO, F. H. de et al. Revista Brasileira de Enfermagem. Brasília, v.53, n.1, 2000.
Por fim, o cuidado de enfermagem é sublinhado como imprescindível na assistência, desta forma, a aproximação entre o cuidador e o ser cuidado possui finalidades terapêuticas que visam melhor à recuperação e a re-inserção social.

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