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1 de janeiro de 2008
Kevin Sack
Em um hospital de veteranos de guerra em Pittsburgh, as enfermeiras removem amostras das passagens nasais de todos os pacientes internados para testá-los quanto à presença de bactérias resistentes a medicamentos. Os pacientes cujos testes dêem resultado positivo são internados em alas de isolamento, por trás de linhas vermelhas pintadas no assoalho que alertam os trabalhadores a não entrarem sem luvas e trajes de proteção. Todas as salas e corredores estão equipados com máquinas que fornecem uma espuma sanitária para as mãos. Os tubos dos medidores de pressão são jogados fora depois de casa uso, e cada sala tem um estetoscópio que não sai de lá, a fim de impedir a transferência de micróbios.
Por meio dessas e de outras medidas de custo relativamente modesto, o hospital reduziu significativamente o número de pacientes que desenvolvem infecções mortíferas e resistentes a medicamentos, um problema que durante muito tempo foi desconsiderado nos hospitais norte-americanos. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças, uma organização federal, previu que este ano um em cada 22 pacientes contrairá uma infecção durante sua internação hospitalar - o equivalente a 1,7 milhão de casos anuais - e 99 mil deles morrerão freqüentemente como resultado de algo que começou como um procedimento de rotina. O custo de tratamento dessas infecções atinge as dezenas de bilhões de dólares, estimam os especialistas.
Mas nos últimos dois anos alguns poucos hospitais demonstraram que a simples triagem e isolamento de pacientes, acompanhados de foco firme na higiene, poderiam reduzir o número de infecções perigosas. Ao fazê-lo, eles alimentaram um debate nacional sobre os hospitais estarem ou não fazendo tudo que podem para proteger pacientes contra infecções, que agora respondem por mais mortes do que o diabetes ou o Mal de Alzheimer. No Hospital de Veteranos de Pittsburgh, administradores dizem que o número de infecções por uma bactéria virulenta conhecida como MRSA caiu a 17 casos no ano passado, ante uma média de 60 antes que o programa fosse implementado. A unidade cirúrgica de 40 leitos, que começou a experiência em 2001, reduziu em 78% a incidência de infecções.
Esses resultados não são inéditos. Diversos países europeus, entre os quais Holanda e Finlândia, praticamente eliminaram a MRSA por meio de campanhas igualmente agressivas. Mas em muitos hospitais dos Estados Unidos, dizem os especialistas, os altos níveis de infecção vêm sendo aceitos como parte dos custos operacionais. No máximo 25% dos hospitais do país submetem os pacientes a exames de colônias bacterianas de maneira metódica, constatou uma pesquisa recente.
"As pessoas não acreditam que o problema exista em suas instituições e, caso o façam, consideram que seja grande demais para que se possa tomar providências, e que é preciso conviver com ele", disse Terri Wolf, diretora dos serviços de saúde para veteranos de guerra em Pittsburgh. "Mas nós demonstramos que se pode fazer algo a respeito". O Dr. John A. Jernigan, especialista em MRSA do Centro de Controle de Doenças, disse que existe - um debate científico legítimo - sobre o desvio de preciosos recursos hospitalares para conduzir exames em todos os pacientes. "É um problema considerável, e se provou recalcitrante", disse. "Estamos começando a ver alguns resultados encorajadores. Mas acredito que estejamos tão presos à discussão sobre o que funciona e o que não funciona que as pessoas se esqueceram de colocar programas em operação".
O problema das infecções hospitalares é grave e está crescendo. A MRSA vem sendo um patógeno especialmente perigoso desde que surgiu nos Estados Unidos, em 1968. Resistente a diversos antibióticos, a bactéria pode causar infecções em postos cirúrgicos, no aparelho urinário, na corrente sangüínea e nos pulmões, o que pode resultar em estadias hospitalares mais longas. A MRSA pode ser conduzida aos hospitais por pacientes que não demonstram sintomas, e depois prospera em ambientes nos quais os sistemas imunológicos estão debilitados e onde incisões oferecem pontos de entrada convidativos. Ela agora responde por 63% das infecções hospitalares por estafilococos, ante 22% em 1995.
O Centro de Controle de Doenças estimou, sete anos atrás, que o custo adicional que o tratamento de pacientes de infecções hospitalares gerava ao ano para o setor de saúde estava perto dos US$ 5 bilhões. Agora, os especialistas acreditam que esteja próximo dos US$ 20 bilhões, ou 1% dos US$ 2 trilhões ao ano que os Estados Unidos gastam com saúde. Outros especialistas estimam o custo em mais de US$ 30 bilhões. Como no caso de outros hospitais que estão experimentando com controles rigorosos, o de Pittsburgh descobriu que a prevenção de infecções oferece bom custo/benefício.
O Dr. Rajiv Jain, diretor de medicina do hospital, estima que o programa de controle de infecções custe US$ 500 mil ao ano, incluindo os kits de testes, os salários de três funcionários e a despesa de US$ 175 por paciente em luvas, camisolas hospitalares e desinfetante para as mãos. Mas o hospital, cujo orçamento é de US$ 431 milhões ao ano, economizou US$ 900 mil, em termos líquidos, com a queda no número de pacientes infectados, ele afirma.
O Centro de Controle de Doenças não recomenda testes com os pacientes no momento de internação, e aconselha que sejam aplicados apenas se outros métodos não reduzirem a incidência de infecções hospitalares. Mas há quem discorde. Betsy McCaughey, que começou a defender a causa do combate às infecções hospitalares quando era vice-governadora de Nova York, diz que as infecções hospitalares comuns causam sete vezes mais mortes que o HIV, para o qual os pacientes são testados regularmente. "As normas frouxas do Centro de Controle de Doenças deram desculpas aos hospitais para que façam o mínimo possível quanto ao problema", ela afirma.
Tradução: Paulo Migliacci ME
Fonte: The New York Times
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