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quarta-feira, 1 de agosto de 2012 - 15:20

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Infecção do trato urinário (ITU) na gestação

por: Flávia Márcia Oliveira

Infecção do trato urinário (ITU) na gestação
Infecção do trato urinário (ITU) na gestação

A infecção do trato urinário (ITU) é definida como a invasão, colonização e propagação de micro-organismos no trato urinário, desde a uretra até os rins, que causa lesões teciduais com graus variáveis no sistema urinário e pode levar a uma diversidade de manifestações clínicas variando desde uma bacteriúria assintomática até um abscesso perirrenal com sepse (DUARTE et al, 2004; COUTINHO 2004; POLETTO; REIS, 2005; DUARTE et al, 2008; MULLER et al, 2008; SALCEDO et al, 2010).



A contaminação do trato urinário por bactérias da microbiota intestinal é, normalmente, a principal causa da ITU (MULLER et al, 2008; JACOCIUNAS; PICOLI, 2007). Entre os principais agentes causadores da ITU estão Escherichia coli, Proteus sp., Saphylococcus saprophyticus, Klebsiella sp., Enterobacter sp., e Enterococcus sp. (JACOCIUNAS & PICOLI, 2007). A bactéria gram-negativa aeróbica Escherichia coli é o uropatógeno mais predominante, sendo responsável por, aproximadamente, 85% das ITUs adquiridas na comunidade. Em contraste, os organismos que costumam colonizar a vagina raramente causam infecção (DALBOSCO et al, 2003; DACHI, 2000).



A infecção fúngica é uma causa incomum da ITU e acomete, frequentemente, pacientes imunossuprimidos, principalmente transplantados e portadores da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. Esporadicamente, pode ocorrer por causa viral ou mesmo acometimento do trato urinário (VIEIRA NETO, 2003). De acordo com Dalbosco et al (2003), a urina é habitualmente estéril devido a presença de mecanismos de defesa de trato urinário contra a invasão bacteriana. As bactérias podem atingir o trato urinário por três vias: ascendente, hematogênica e linfática, mas estudos científicos consideram que a via ascendente é a mais importante na patogênese da ITU (DUARTE, 2004).



Para atingir o trato urinário por via ascendente é necessária a aderência bacteriana à mucosa vaginal e, posteriormente, à mucosa uretral ou vesical. Por via retrógrada, as bactérias podem passar pelo ureter e alcançar a pelve renal, seja por refluxo vesicouretral ou por alterações do peristaltismo ureteral associado à aderência bacteriana. Além disso, podem prosseguir a invasão tecidual e colonizar o parênquima renal (PR) produzindo inflamação aguda (KOFF, 2003). Raramente, os micro-organismos podem atingir o PR através da corrente sanguínea, ocorrendo em lactentes por meio dos cocos geram positivos ou em adultos com infecções fúngicas.


A presença de obstrução favorece este mecanismo de ITU. Os usuários de drogas injetáveis constituem um grupo de risco para esta via de infecção (KOFF, 2003). A via linfática é pouco comum e ocorre em casos de obstrução intestinal ou abscessos intra ou retroperitoniais, especialmente em pacientes com estado geral comprometido (KOFF, 2003). Segundo Koff (2003) e Coutinho (2004), o desenvolvimento da ITU depende dos fatores bacterianos e das defesas do hospedeiro. O fator bacteriano mais importante é o poder de aderência das bactérias às células do hospedeiro, uma vez que a aderência inadequada resulta na eliminação das bactérias através da micção. Existem diferentes tipos de aderência na superfície bacteriana.



O pili tipo 1, denominado de manose-sensitivo, da E. coli é um dos mais conhecidos porque adere aos receptores de manose na superfície celular do intestino, vagina, intróito vaginal e urotélio. As fímbrias tipo P são pili que aderem a outros receptores das células uroteliais. Após a adesão, as bactérias produzem substâncias como, por exemplo, hemolisina e proteases que facilitam a invasão e multiplicação. A hemolisina é um peptídeo que causa a lise dos eritrócitos e causa danos a outras células (KOFF, 2003). A produção de endotoxinas bacterinanas promove a paralisia da musculatura lisa ureteral, resultando no bloqueio do peristaltismo e no favorecimento da ascensão bacteriana até os rins (DALBOSCO et al, 2003).



Dentre os fatores ligados ao hospedeiro que dificultam a colonização e a multiplicação microbiana destaca-se a proteína de Tamm-Horsfall, um uromucóide produzido pelo rim e presente na urina que satura os receptores de manose do tipo pilli 1 e, dessa forma, bloqueia a aderência de micro-organismos ao epitélio. Na bexiga também existem fatores antibacterianos e antiadesivos como o revestimento mucopolissacarídeo cuja lesão permite a aderência microbiana. O peristaltismo ureteral constitui outra barreira protetora contra a invasão bacteriana, uma vez que favorece a lavagem de bactérias (DALBOSCO et al, 2003; KOFF, 2003; COUTINHO, 2004).



A micção é um fator mecânico eficiente na remoção das bactérias que eventualmente penetram na bexiga, além de apresentar condições desfavoráveis para o crescimento microbiano devido a elevadas concentrações de uréia e ácidos orgânicos (DALBOSCO et al, 2003). O crescimento rápido do epitélio vaginal, devido à produção de estrógenos, causa descamação celular com bactérias aderidas. Os estrógenos também aumentam a produção de glicogênio, resultando nas condições adequadas para a proliferação dos lactobacilos que, por sua vez, diminuem o pH vaginal e dificultam a proliferação bacteriana (KOFF, 2003).



Por outro lado, algumas condições do hospedeiro favorecem a colonização microbiana como, por exemplo, a glicosúria e o aumento do pH da urina (RIYUZO et al, 2007). Esses fatores são responsáveis pela elevada incidência de ITU em diabéticos e em gestantes, respectivamente. A invasão do parênquima renal pelas bactérias desencadeia uma resposta imunológica do tipo humoral caracterizada pela síntese de anticorpos neutralizantes que bloqueiam a fixação local de bactérias.

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Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

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colunista

Flávia Márcia Oliveira

Possui doutorado em Bioquímica e Imunologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (2003) e aperfeiçoamento em Saúde Pública. Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal Sergipe. Tem experiência na área de Imunologia, Patologia e Saúde Pública.

Enfermagem