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Estratégias discursivas para a manutenção do poder: o Gênero Editorial


3 de janeiro de 2012


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Análise dos aspectos de manipulação em texto editorial

1 - APONTAMENTOS SOBRE ACD

A Análise Crítica de Discurso (ACD, daqui por diante) é um campo disciplinar de investigação do discurso que considera a linguagem como prática social, e como espaço para (re)produção das relações de abuso de poder, de dominação, e de desigualdade. Não se enquadra como escola ou como método científico; trata-se de modo diferenciado de teorizar, analisar e investigar os fenômenos sociais materializados pela linguagem, tendo recebido contribuições dos vieses críticos de diferentes áreas, como a pragmática, linguística e sociologia.

 

Segundo Magalhães (2001), as obras de Kress (1988) e de Fairclough (1989) consolidam as bases para os estudos críticos da linguagem, apresentando conceitos de discurso, gênero discursivo, texto, ideologia e poder, apropriados de estudiosos dos fenômenos sociais - como Gramsci (1971) e Thompson (1990), e do fenômeno discursivo - como Foucault (1989). Em Discurso e Mudança social, Fairclough (2001) apresenta o quadro teórico da ACD, cujos objetivos seriam "reunir a análise de discurso orientada linguística e o pensamento social e político relevante para o discurso e a linguagem" (FAIRCLOUGH, 2001, p. 89).

 

Antes de se adentrar na análise proposta neste trabalho, é preciso apontar, ainda que de maneira breve dado o limite de espaço, conceitos fundamentais para esta abordagem de estudo do discurso. Em primeiro lugar, é importante ressaltar que, nesta perspectiva, a linguagem é forma de ação, e não atividade individual.

 

Na ACD, considera-se também a relação entre discurso e estrutura social: pelo discurso, os sujeitos representam e (re)significam o mundo, ajudando a construir, fortalecer e perpetuar relações sociais, ideologias e conhecimentos. A prática discursiva é, pois, uma prática social. Entende-se prática discursiva como o complexo conjunto de processos de produção, distribuição e consumo de textos - das mais variadas formas, verbais, não-verbais, ou multissemióticos - nas mais variadas esferas institucionais ou sociais.

 

A totalidade dessas práticas configura o que Foucault chamou de "ordem do discurso": "no caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, (...) e se puder definir uma regularidade (uma ordem ...), diremos, por convenção que se trata de uma formação discursiva" (FOUCAULT, 1969, p.43, não grifado no original).

 

Ainda dos escritos de Foucault foram apropriadas também as seguintes noções: a) o discurso constitui um social e também os objetos e os sujeitos sociais; b) as práticas e técnicas do biopoder moderno são discursivas; e c) a luta por poder ocorre tanto no discurso quanto subjacente a ele.

Fairclough (2001) reconhece a importância do trabalho de Foucault para o quadro teórico da ACD, mas aponta fragilidades quando da discussão sobre poder - "na totalidade de seu trabalho (...), a impressão dominante é a das pessoas desamparadamente assujeitadas a sistemas imóveis de poder" (p.83).

 

Pela abordagem crítica do discurso, o sujeito não é assujeitado pelas estruturas das quais participam - "as estruturas são reproduzidas ou transformadas, dependendo do estado das relações, do equilíbrio de poder, entre os que estão em luta" (p. 84) -, ou seja, se concebe o equilíbrio entre sujeito e estrutura, mediando as relações de poder e de hegemonia, outros dois conceitos essenciais para a ACD.

 

Esse equilíbrio, segundo Fairclough (2001), se dá porque os sujeitos são posicionados ideologicamente, mas também capazes de agir criativamente no sentido de realizar suas próprias conexões entre as diversas práticas e ideologias a que são expostos e de reestruturar as práticas e as estruturas posicionadoras. O equilíbrio entre o sujeito "efeito" ideológico e o sujeito agente ativo é uma variável que depende das condições sociais, tal como a estabilidade relativa das relações de dominação (FAIRCLOUGH, 2001, p.121).

 

A noção de hegemonia que baliza os estudos em ACD encontra fundamentos em Gramsci, cujos estudos focalizam a luta hegemônica como ponto de instabilidade entre as classes e os blocos dominantes, em que o sujeito não está subordinado às formas econômicas, políticas e ideológicas, mas que delas participa. A hegemonia seria, então, uma situação de equilíbrio instável; a luta hegemônica é, pois, foco de luta sobre pontos de instabilidade em relações hegemônicas. Eagleton (1991) avalia a perspectiva de Gramsci a cerca da hegemonia como um conjunto de estratégias relacionais, práticas e dinâmicas, pelas quais um poder dominante obtém o consentimento ao seu domínio daqueles que subjuga. Assinala ainda que "conquistar a hegemonia, no parecer de Gramsci, é estabelecer liderança moral, política e intelectual na vida social, difundindo sua própria visão de mundo pelo tecido da sociedade como um todo" (EAGLETON, 1991, p. 108).

 

Sobre essa noção de hegemonia, Coutinho (2008) faz uma ressalva: os escritos de Gramsci pouco se referem ao que hoje se entende por meio de comunicação (televisão, por exemplo, estava em fase experimental na época). Mesmo assim, apesar de estar vivendo os primórdios da comunicação, Gramsci oferece contribuições à crítica das produções midiáticas, pois "não deixa de sinalizar o movimento pelo quais os nascentes mass-media (...) tornam-se os mais eficazes dos aparelhos de hegemonia, desequilibrando a correlação de forças na sociedade civil em favor dos grupos dominantes" (COUTINHO, 2008, p.48).

 

Para Gramsci, há um vínculo orgânico entre a estrutura social e a estrutura ideológica, ou seja, a dialética da relação entre o social e o ideológico, que "organiza as massas humanas, forma o terreno no qual os homens se movimentam, adquirem consciência de sua posição, lutam, etc." (GRAMSCI, 1971, p.237). A hegemonia é, pois, o domínio exercido pelo poder de um grupo sobre os demais - não pelo uso da força, mas pelo consenso - que perpassa pelas estruturas sociais e ideológicas.

 

A noção de que marcas ideológicas estão encarnadas no discurso já aparece nos estudos de Bahktin (1989), que considerava a palavra como o lugar perfeito para a manifestação de ideologias. O estudioso russo opunha palavra a "sinal" (na concepção de Saussure): palavra é um signo dialético, dinâmico e plurivalente, ou seja, é o signo ideológico por excelência, é o espaço em que os indivíduos dão vida a seus anseios e crenças. Cada palavra "ou cada signo ideológico é não apenas um reflexo, uma sombra da realidade, mas também um fragmento material dessa realidade" (BAHKTIN, 1929, p.33).

 

Essa perspectiva é essencial para a abordagem crítica do discurso na transformação e na reprodução de ideologias. Assume-se, pois, que "as ideologias são significações/ construções da realidade (...) que são construídas em várias dimensões das formas/ sentidos das práticas discursivas e que contribuem para a produção, a reprodução ou a transformação das relações de dominação" (FAIRCLOUGH, 2001a, p. 117, não grifado no original).

 

Ideologia, nessa perspectiva, se aproxima da acepção utilizada por Thompson (1990), que caracteriza o fenômeno ideológico como de natureza hegemônica, ou seja, como o fundamento das relações de dominação, reproduzindo a ordem social, e favorecendo grupos dominantes. Thompson (1990) acredita que, para se explicar as relações dominação, é preciso o estudo das maneiras como o sentido serve para estabelecê-las e sustentá-las, focalizando o sentido das formas simbólicas ("amplo espectro de ações e falas, imagens e textos (...) não linguísticas ou quase linguísticas" p. 79) que estão inseridas nos contextos sociais e que circulam o mundo.

 

Vale também destacar a concepção de ideologia defendida por Van Dijk (1998, 2000), cujos estudos também oferecem significativa contribuição para a ACD. Para Van Dijk (1998), a ideologia, ao contrário das ações e do discurso, não se produz fixamente em um local, em cada contexto social específico, por um único falante.

 

A ideologia, como o sistema da língua e as normas da gramática, são definidas como sistemas abstratos de conhecimento que permitem aos falantes de uma comunidade linguística a comunicação nos mais variados contextos. Da mesma maneira que um usuário de uma língua seria incapaz de falar e de entender essa língua sem uma gramática mais ou menos estável, os membros de um grupo seriam incapazes de realizar suas práticas diárias e seus julgamentos sociais sem representações sociais mais ou menos estáveis, como o conhecimento, as atitudes e as ideologias (VAN DIJK, 1998, p. 56).

 

O autor explica ainda que os conceitos de ideologia e de discurso aparecem em três áreas do saber: nos estudos sobre o discurso, que envolvem aspectos relacionados ao uso da linguagem; nos estudos sobre cognição, cujo enfoque recai sobre as ideologias estão relacionadas às opiniões e a construção do conhecimento; e nos estudos sobre sociedade, direcionado para o papel dos aspectos históricos, sociais e políticos na reprodução ou resistência ao domínio.


Dessa maneira, em se tratando de reprodução e/ou de resistência, o discurso traz no bojo marcas de manipulação, ou seja, de se legitimar pela credibilidade e de se fazê-la perpetuar entre os sujeitos. Apesar de reconhecer a tenacidade da fronteira entre manipulação (ilegítima) e persuasão (legítima), Van Dijk (2008) assume como critérios cruciais que ambas fazem as pessoas agirem contra sua total consciência e interesses, e que a manipulação serve aos interesses do manipulador. A diferença entre a legitimidade e a ilegitimidade de uma prática de interação estaria diretamente relacionada à proximidade do fenômeno social aos interesses dos receptores. "Definimos como ilegítimas todas as formas de interação (...) que servem apenas aos interesses de uma parte ou são contra os interesses dos receptores" (VAN DIJK, 2008, p. 238).


Se a ideologia é a maneira pela qual o sentido é construído e monopolizado pelas formas simbólicas a serviço de indivíduos ou de grupos para a manutenção de relações que lhes beneficiem, pode-se perceber na ideologia um processo de naturalização (ou de desnaturalização) de outras estruturas da conjuntura discursiva. Em outras palavras, a estrutura ideológica se manifesta, se produz e se reproduz, através dos sujeitos, nas diferentes instâncias estruturais do discurso. Esse complexo de estruturas do fenômeno discursivo leva Fairclough (1993) a avaliar os eventos discursivos em três dimensões: a do texto, falado ou escrito; a prática discursiva, ou seja, a produção e a interpretação do texto; e a prática social. Na análise da dimensão da prática social, para ele, o foco deve ser político, sobre o evento como mediação das relações de poder e de dominação.


Nesse sentido, defende-se a posição de Fairclough (2001) e de Van Dijk (2008), segundo os quais, através de formas comunicativas ou simbólicas de comunicação, os sujeitos sofrem alguma influência discursiva e/ou são, de alguma forma, manipulados. Concorda-se, pois, que "as estruturações particulares das relações entre palavras e das relações entre os sentidos de uma palavra são formas de hegemonia" (FAIRCLOUGH, 2001, p. 105), e que a ideologia só pode se manifestar na língua "a manipulação é uma das práticas sociais discursivas de grupos dominantes que servem à reprodução de seu poder" (VAN DIJK, 2008, p. 237).

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Luís Rodolfo Cabral Sales

Luís Rodolfo Cabral Sales

Aluno do Programa de Pós-Graduação - Mestrado em Letras da Universidade Federal do Piauí, É graduado em Letras (UFMA 2007.1), com habilitação em português e inglês, e respectivas literaturas. Pós-graduado em Língua Portuguesa e Literatura (FAMA 2008.1). Foi professor de Língua Portuguesa na Universidade Federal do Maranhão.

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