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Artigos de Biologia


A Floresta


1 de janeiro de 2008


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As florestas de mangue são um aspecto notável dos litorais tropicais de todo o mundo. Sua localização, restrita à faixa entre - marés (situada entre o ponto mais alto da maré alta e o ponto mais baixo da maré baixa), faz com que sejam verdadeiros pontos de ligação entre ambientes marinho e terrestre. Estima-se que haja cerca de 20 milhões de hectares de manguezais em todo o mundo. As maiores florestas estão localizadas na Ásia (principalmente na Malásia e na Índia), na América atlântica (Brasil e Venezuela) e na África atlântica (Nigéria e Senegal). A intensa utilização de seus recursos naturais ameaça a permanência dos manguezais em todas essas áreas. No Brasil, embora ainda não se tenham dados precisos, avalia-se que a área total de mangues chega a cerca de 25.000km2 distribuídos ao longo de todo o litoral, do cabo Orange no Amapá, a Araranguá em Santa Catarina.

O manguezal é um ecossistema costeiro, de transição entre os ambientes terrestre e aquático, característico de regiões tropicais e subtropicais, sujeito ao regime de marés. É constituído por espécies vegetais lenhosas típicas, adaptadas às condições específicas deste ambiente. No que diz respeito à energia e à matéria, são sistemas abertos, recebendo em geral, um importante fluxo de água doce, sedimentos e nutrientes do ambiente terrestre e exportando água e matéria orgânica para o mar ou águas estuarinas.

Nos manguezais, encontra-se pouca variedade de espécies de árvores, mas grande número de indivíduos por espécie. Na costa brasileira, há três espécies dominantes: o mangue vermelho (Rhizophora mangle), o mangue siriúba (Avicennia schaueriana) e o mangue branco (Laguncularia racemosa). Além destas, outra espécie é bastante comum, embora não seja típica de mangue: o algodoeiro-da-praia (Hibiscus pernambucensis).

Além das árvores, os manguezais abrigam grande variedade de outras plantas e animais característicos. Entre as plantas, destacam-se as epífitas como orquídeas, bromélias e certas samambaias. Em conjunto com várias espécies de liquens, essas plantas constituem o estrato superior do ecossistema, nas copas das árvores. No outro extremo, as raízes e os troncos são intensamente colonizados por algas marinhas, que se fixam nessas estruturas. As capas de algas, que cobrem todas as estruturas das árvores na faixa entre - marés abrigam uma infinidade de pequenos invertebrados marinhos, importantes fonte de alimento para vários animais do mangue e das águas costeiras adjacentes à maré alta.

O desenvolvimento dos manguezais depende de cinco requisitos básicos:

1- Altas temperaturas: média mensal mínima maior que 20°C e uma amplitude anula inferior à 5°C;

2- Costas livres de ação de ondas e marés violentas: Baías rasas e estuários abrigados, lagoas, o lado de ilhas abrigado de ventos e canais protegidos;

3- Aluvião fino e particulado: substrato mole constituído por silte e argila fina, rica em matéria orgânica;

4- Presença de água salgada;

5- Uma larga amplitude de marés.

O bom funcionamento dos ecossistemas de mangue depende de alguns fatores de importância vital, entre os quais se incluem a estabilidade do solo, um suprimento adequado de água doce, aportada pelas chuvas e pela rede de drenagem e, finalmente, da demanda de evaporação da atmosfera.

Em áreas banhadas pelo menos uma vez por dia pelas marés, e na ausência de fatores que modifiquem a distribuição uniforme da inundação (como bancos de areias, recifes ou irregularidades na topografia), a salinidade do solo permanece semelhante à das águas costeiras adjacentes, ou seja, dentro da faixa de tolerância das espécies do mangue. Entretanto, em áreas onde a água doce, principal agente de diluição, é insuficiente, devido à escassez de chuvas e rede de drenagem, ou onde as inundações da maré são pouco freqüentes ou variam, a transferência de água para a atmosfera por evapotranspiração das plantas leva a um aumento significativo da concentração de sais no solo, tornando deficiente a absorção de água e de nutrientes pelas plantas.

Para suplantar essa deficiência, devido ao aumento da pressão osmótica do solo, a planta desloca grande quantidade de energia de seu metabolismo para os sistemas de absorção de água e nutrientes, em detrimento de outras funções fisiológicas, como o controle da concentração interna de sais, o crescimento e a reprodução. Este fato pode ocasionar, caso persistam as condições de baixa diluição progressiva da produtividade primária do ecossistema, podendo até levá-lo eventualmente à destruição.

O suprimento adequado de nutrientes está intimamente relacionado com o suprimento de água. De modo geral, as principais vias de entrada de nutrientes para o ecossistema são: a maré cheia, que traz os nutrientes em solução na água do mar; as cheias dos rios e demais cursos d`água da rede de drenagem, que depositam no interior do mangue partículas finas às quais nutrientes se encontram adsorvidos (aderidos), e, finalmente, as chuvas e a deposição de salsugem marinha (maresia), que transportam e depositam no meio nutrientes vindos da própria atmosfera. A principal via de saída é a exportação, durante a maré cheia, dos detritos produzidos pelo mangue.

Ao contrário dos principais ecossistemas florestais dos trópicos, as florestas de mangue apresentam poucos mecanismos de reciclagem de nutrientes. Em uma floresta tropical típica, ocorrem associações biológicas sofisticadas, como micorrizas, fungos e algas colonizadoras de folhas, responsáveis pela reutilização seguida dos nutrientes, que assim permanecem mais tempo no ecossistema. Já nos manguezais, a reciclagem se restringe a atividade de animais, principalmente caranguejos no sedimento. Através da remobilização do sedimento, resultado de sua atividade de cavar túneis e buracos, esses animais permitem que as plantas reutilizem os nutrientes em camadas profundas do solo.

Este processo, entretanto, tem pouca importância se comparado aos grandes fluxos de nutrientes dissolvidos, para dentro do ecossistema, e de detritos e outras partículas, para fora. Esta característica torna o ecossistema de mangue comparativamente muito aberto, o que em ultima análise permite a exportação e grande quantidade de matéria orgânica, especialmente detritos vegetais, para as águas costeiras adjacentes.

A grande exportação de detritos orgânicos é o aspecto mais importante da interdependência entre os manguezais e o sistema costeiro adjacente. Transportados pela maré para as águas costeiras, os detritos são colonizados por uma flora e fauna microbianas que os enriquecem em compostos orgânicos de alto valor energético, como proteínas e aminoácidos. Assim enriquecidos, esses detritos vão servir de base a cadeias alimentares costeiras, tornando os manguezais os principais responsáveis pela manutenção da atividade pesqueira das áreas tropicais.

Outro aspecto do funcionamento íntegro dos mangues está nas características físicas e químicas do substrato. Ao atravessar a zona de raízes, o fluxo de água perde velocidade, o que provoca um aumento na taxa de deposição de partículas. Como resultado final do processo, os sedimentos formados são muito fluidos e instáveis, extremamente suscetíveis à erosão.

Se o hidrodinamismo (dinâmica das águas) for alterado em uma determinada região, seja naturalmente, por ventos fortes ou tempestades, seja pela ação do homem, através de dragagem ou canalização das áreas costeiras adjacentes, a erosão do sedimento será imediata, retirando a sustentação das árvores e provocando a destruição do sistema.

Embora não seja tão evidente quanto às modificações provocadas pela erosão, uma reversão no equilíbrio físico-químico do sedimento também resulta da alteração do hidrodinamismo. Este equilíbrio, estabelecido sob condições normais, mantêm o sedimento praticamente isento de oxigênio, devido a degradação de grandes quantidades de matéria orgânica que nele se depositam. Com a oxigenação do sedimento, aumentada pela intensificação da circulação de água, várias substâncias nutritivas são solubilizadas e imediatamente perdidas pelo ecossistema. Como o resultado da perda de nutrientes, pode ocorrer uma diminuição progressiva do mangue, e problemas agudos e eutrofização e contaminação das águas costeiras adjacentes.

A salinidade intersticial é um parâmetro de grande importância uma vez que pode interferir no desenvolvimento de plantas, altura das árvores e diminuição das folhas. As espécies vegetais dos manguezais são plantas halófitas, próprias de ambientes salinos. Embora essas plantas possam se desenvolver em ambientes livres da presença do sal, em tais condições não ocorre formação de bosques, pois perdem espaço na competição com plantas de crescimento rápido, melhor adaptadas à presença de água doce. Seu desenvolvimento parece melhor em áreas de salinidade baixa, e sua ocorrência no ambiente costeiro pode estar ligada à competição com outras plantas terrestres. Estas árvores desenvolvem várias formas de adaptação que permitiram seu sucesso na colonização do ambiente costeiro, principalmente em relação à regulação das concentrações internas de sais.

Num ambiente de elevada salinidade, a absorção de água e de nutrientes é dificultada. Isto ocorre porque as reações de troca de água e nutrientes entre o meio externo (o solo) e o meio interno das células das raízes são afetadas pela osmose. Graças a esse fenômeno, a água e as substâncias nela dissolvidas podem passar para dentro e para fora da célula, sempre que houver diferenças nas concentrações de substâncias dissolvidas no meio externo e no meio intracelular, isto é, diferenças de pressão osmótica.

Como no solo dos manguezais a concentração de sais é elevada, o equilíbrio entre as pressões osmóticas tende a ser restabelecido através da migração de água para fora do meio intracelular. Para evitar esta perda de água e facilitar a absorção de nutrientes, as plantas devem manter em seu interior altas concentrações de sais, a fim de que sua pressão osmótica se iguale à do meio externo.

A variabilidade da pressão osmótica do solo, porém, é muito ampla, devido ao movimento das marés, às chuvas e a evaporação, que alteram drasticamente a concentração dos sais nele depositados. Logo, as plantas não só precisam concentrar sais em suas células, como também devem desenvolver mecanismos capazes de equilibrar rapidamente as concentrações internas de sais em resposta às variações de salinidade do meio externo.

Dadas as condições hostis do ambiente físico para a maioria das plantas, as espécies vegetais de mangue possuem adaptações especiais para sobrevivência. Para fixação em substrato inconsolidado (frouxo) o mangue vermelho (Rhizophora) apresenta raízes-escora que são raízes aéreas que partem do caule principal arqueadas até o solo. As raízes das espécies de mangue possuem lenticelas localizadas nas raízes escora e em raízes aéreas denominadas pneumatóforos que ocorrem nos mangues brancos (Laguncularia), e negros (Avicennia). Estas estruturas têm a função de realizar as trocas gasosas, uma vez que o sedimento do manguezal é anóxico. Para superar os problemas da salinidade as plantas de mangue desenvolveram mecanismos que impedem com que o sal entre na planta através da raiz (Rhizophora e Laguncularia) ou excluem o sal através de glândulas localizadas nas folhas (Avicennia). Outra adaptação à salinidade é a viviparidade, que protege os embriões. Em água salgada a longevidade dos propágulos (sementes) de Rhizophora é de mais de um ano, enquanto que de Avicennia é de 110 dias e de Laguncularia de 35 dias. Estes propágulos têm poder de flutuação e podem chegar a regiões muito distantes de onde foram produzidos.

As espécies constituintes dos manguezais correspondem a um número limitado de famílias (umas 13) que compreendem de 18 a 20 gêneros. Cada gênero pode estar representado por uma ou por várias espécies e neste último caso, diferem morfologicamente pouco entre si, isto indica que o fator ecológico é uma força tão considerável, que conseguiu imprimir as espécies de diversas origens taxonômicas, uma morfologia especial e bastante homogênea que as distingue das demais. As espécies variam latitudinalmente, em decorrência do clima e índices pluviométricos.

Pesquisas indicam que as várias espécies de árvores de mangue originaram-se nas regiões do Indo-Pacífico, uma vez que nestas regiões há uma maior diversidade de espécies. Teorias sugerem que sua migração para outras regiões do mundo, inclusive para costa do Brasil, ocorreu há alguns milhares de anos atrás, através do transporte de propágulos de mangue, sementes germinadas, pelas correntes marítimas quando os continentes encontravam-se mais próximos uns dos outros.

Existem cerca de cinqüenta espécies de árvores de mangue. Na região Indo-Pacífico concentra-se a grande maioria. Nas Américas e costa brasileira são encontradas sete espécies pertencentes a quatro gêneros: Rhizophora, Avicennia, Laguncularia, Conocarpus.

As áreas dos manguezais são, portanto, de extrema importância, uma vez que delas provém boa parte das proteínas (mariscos e peixes), tão essenciais para a subsistência. Curandeiras empregam diferentes produtos vegetais fazendo uso de suas propriedades bactericidas e adstringentes na cura de várias moléstias comuns no ambiente. O tanino, produto obtido da casca das árvores, serve para proteger as redes e as velas das embarcações. Em várias regiões do país os manguezais encontram-se seriamente ameaçados, em processo adiantado de desaparecimento. A destruição dos manguezais gera grandes prejuízos, inclusive para economia, seja direta ou indiretamente, uma vez que são perdidas importantes frações ecológicas desempenhadas por esses ecossistemas. Problemas observados são os desmatamentos e aterro de manguezais para dar lugar a portos, estradas, agricultura, carcinocultura estuarina, invasões urbanas e industriais; derramamento de petróleo, lançamento de esgotos, lixo, poluentes industriais, agrotóxicos, assim como a pesca predatória, onde é muito comum a captura do caranguejo-ucá durante a época de reprodução, ou seja, nas andadas, quando torna-se presa fácil. É preciso conhecer e respeitar os ciclos naturais dos manguezais para que o uso sustentado de sues recursos seja estabelecido.

O manguezal dispõe de vários diplomas legais para sua proteção, a nível federal, estadual e municipal. Os manguezais são Áreas protegidas ou d3e Preservação Permanente ou ainda reservas Ecológicas, conforme o Código florestal, Lei 7771, Art.2, de 15/09/1965, Art. 18 da Lei 6.938, de31/08/1981, decreto 89.336, de 31/04/1984 e Resolução 4 do CONAMA, de 18/09/1985, representando por si só, um grande obstáculo contra a degradação desse ecossistema.

Autor: Ademir Kleber Morbeck de Oliveira 

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