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Artigos de Biologia


Amazônia


1 de janeiro de 2008


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Em novembro de 1971, o biólogo alemão Harold Sioli. Do Instituto Max Planck, fazendo pesquisas na Amazônia, foi entrevistado por um repórter da agência de notícias americana. O jornalista estava interessado na questão da influência da floresta sobre o planeta e o pesquisador respondeu com precisão a todas as perguntas que lhe foram feitas. Mais tarde, porém ao redigir o texto a entrevista, o repórter acabou cometendo um erro que ajudaria a criar um dos maiores e mais persistentes mitos sobre a floresta amazônica. Numa de suas respostas, Sioli afirmara que a floresta continha grande quantidade de dióxido de carbono (CO2) existente na atmosfera. No entanto, ao transcrever a declaração, o jornalista esqueceu a letra C - símbolo do átomo de carbono - da fórmula citada pelo biólogo, que ficou no texto como O2, o símbolo da molécula de oxigênio.

A reportagem com o oxigênio no lugar do dióxido de carbono foi publicada pelo mundo afora, da noite para o dia, a Amazônia se tornou conhecida como "pulmão do mundo" - uma expressão de grande impacto emocional que tem ajudado a semear a confusão no debate apaixonado entre os efeitos ambientais em larga escala da ocupação da floresta. É um debate em que, por enganos como aquele, mau argumentos acabam sendo usados para escorar uma causa justa. As organizações de defesa de ecologia misturam às vezes no mesmo balaio fatos e fantasias ao alertar para os perigos das queimadas da floresta amazônica - até porque dados e conceitos capengas sobre o assunto só levam água para o moinho daqueles que não querem que se faça alarde algum sobre as agressões à natureza que ali cometem.

As teimosas referencias ao "pulmão do mundo", nesse contexto, são exemplares, pois a Floresta Amazônica, simplesmente não é o pulmão do mundo. As árvores, arbustos e plantas de pequeno porte, da mesma forma que os animais, respiram oxigênio durante 24 horas do dia. Na floresta, a quantidade desse gás produzida de dia pelas plantas é totalmente absorvida durante a noite, quando a falta de sol interrompe a fotossíntese. Quando a planta é jovem, em fase de crescimento, o volume de oxigênio produzido na fotossíntese é maior que o volume necessário à respiração. Nesse caso, a planta produz mais oxigênio do que utiliza.

Isso acontece porque a planta jovem precisa fixar um grande volume de carbono para poder sintetizar as moléculas que são a matéria-prima de seu crescimento. Já nas plantas maduras, porém o consumo de oxigênio na respiração tende a igualar o total produzido na fotossíntese. A Amazônia não constitui uma floresta em formação. Nela, portando, os seres vegetais já crescidos consomem todo o oxigênio que produzem. Apesar de não ser o pulmão do mundo, a floresta amazônica apresenta outras características que muito contribuem para a manutenção da vida no planeta.

As florestas são grandes fixadoras do carbono existente na atmosfera. Somente as matas tropicais contêm cerca de 350 milhões de toneladas de carbono, aproximadamente a metade do que há na atmosfera. Ora, o ciclo deste elemento químico esta saturado no planeta, como dizem as especialistas. Devido à queima de combustíveis fósseis - gás, carvão e petróleo - o carbono se acumula cada vez mais na atmosfera, na forma de dióxido de carbono, metano e compostos de clorofluorcarbono. Esse acumulo é responsável pelo chamado efeito estufa, o aprisionamento da energia radiante que, se suspeita, tende a aumentar a temperatura global da Terra, com efeitos catastróficos também para o homem. Nesse quadro, as florestas exercem uma função essencial na condição de maiores controladoras do efeito estufa. Por isso na opinião de cientistas, a Floresta Amazônica é o "grande filtro" do planeta.

Segundo, cientistas brasileiros, medições feitas em 1987 mostraram que cada hectare de floresta retira da atmosfera, em media, cerca de 9 quilos de carbono por dia (um hectare equivale a dez mil metros quadrados). A cada ano, o homem lança na atmosfera algo como 5 bilhões de toneladas de carbono. É como se cada ser humano fosse pessoalmente responsável pelo lançamento de uma tonelada de gás por ano. Somente a Amazônia brasileira, som deus 350 milhões de hectares, retira do ar aproximadamente 1,2 bilhão de toneladas anuais, ou seja, pouco mais de um quinto do total. Números como esses causariam polemica num passado não muito remoto, quando se duvidava que a floresta fosse capaz de armazenar tamanho volume de carbono. Hoje, porem, se sabe que a assimilação apenas repõe o volume de gás continuamente perdido para o solo e para os rios.

Uma controvérsia que freqüentemente aquece a discussão sobre a Floresta Amazônica diz respeito à parte que cabe às queimadas na região de acumulação de CO2 na atmosfera. Os cálculos mais aceitos dizem que as queimadas liberam 200 milhões de toneladas de carbono por ano, ou seja, 4% da emissão total. Segundo o INPE, os desmatamentos por queimadas de todas as florestas do globo contribuem com 16% do acumulo de dióxido de carbono. Mesmo que a Floresta Amazônica fosse queimada, especulam, "o aumento da concentração do gás seria da ordem de 2%". Dito desse modo pode-se ter a impressão de que pouco importa para o clima planetário haver ou não uma Amazônia. Nada mais errado e perigoso, pois além de serem controladoras do efeito estufa, as florestas podem exercer enorme influência sobre o clima do globo. A Amazônia é uma "grande maquina de produzir calor". Daí seu papel decisivo para manter estável o clima nos países do hemisfério norte.

A produção de calor na floresta resulta das altas taxas de evaporação e transpiração no local. Na Amazônia, cerca de 80 a 90% da energia disponível é consumida nesse processo. Quando o vapor de água se condensa para formar nuvens, libera a mesma quantidade de energia que foi necessária a sua evaporação. À medida que as nuvens crescem, vão convertendo mais vapor em gotas de água, aquecendo a atmosfera circulante. Há dias na Amazônia em que a temperatura nas camadas mais altas - cerca de 10 mil metros do solo - chega a aumentar 30 graus. Essa fantástica quantidade de calor é então transportada para fora dos trópicos, rumo ao hemisfério norte.

Além da Amazônia, existem duas outras fontes de calor no planeta. Uma é a floresta tropical da bacia do Rio Congo, na África Central. A outra é de origem oceânica: uma região do Pacífico próxima ao norte da Austrália e à Indonésia, onde uma confluência de correntes faz com que a temperatura da água esteja sempre entre os 27 e 31 graus. As altas temperaturas fazem com que as taxas de evaporação sejam igualmente elevadas, promovendo a formação de nuvens e consequentemente produção de calor. A destruição da floresta poderia alterar dramaticamente o clima dos países do hemisfério norte. Segundo os climatólogos, " sem o transporte de calor dos trópicos, esses países passariam a ter invernos ainda mais frios e mais longos".

Toda floresta é um ecossistema extremamente complexo. As florestas constituem o ponto final do processo evolutivo dos ecossistemas terrestres no planeta. "Estes apresentam o máximo de vida possível em um determinado espaço. A tendência natural da vida na Terra é produzir florestas", dizem os ecólogos. Existem três grandes tipos de florestas no mundo: a boreal encontrada nas altas latitudes do hemisfério norte; as temperadas, que existem nos Estados Unidos, norte da Europa e na Ásia; e as tropicais, mais próximas do equador, que cobrem 7% da superfície da Terra e abrigam pelo menos metade das espécies do planeta.

Cada qual tem suas próprias características, mas as três apresentam uma coisa em comum: são exemplos bem-sucedidos da colonização de extensas áreas pelos vegetais. A Floresta Amazônica provavelmente é o melhor exemplo. Arraigada a solos pobres em minerais e material orgânico, a floresta não só se auto-sustenta e se matem, como também exibe uma exuberância e uma riqueza de espécies inigualável em todo o planeta. Estima-se que a Amazônia abriga cerca de 80 mil espécies vegetais e possivelmente 30 milhões de espécies animais - a maioria insetos.

Examinada mais de perto, a Floresta Amazônica parece um paradoxo ecológico. De fato, como a maior floresta do mundo consegue existir em solos tão pobres, que não chegam a oferecer sustentação às plantas, obrigadas então a espalhar suas raízes para adquirir estabilidade. Milhões de anos de chuvas levaram os solos antigos da Amazônia, que na sua configuração atual existe há uns 15 mil anos, transportando para os rios e depois para o mar toda a sua riqueza mineral. Para enfrentar o problema, os vegetais parecem ter inventado esquemas alternativos de sobrevivência. Em resumo, aprenderam a se alimentar por si mesmos.

Ao contrário do que ocorre na floresta temperada, cujos solos são nutritivos, os ciclos de vida na floresta tropical - principalmente na Amazônia - devem ser mais velozes. As folhas das árvores caem mais depressa e uma vez no solo se decompõem mais rapidamente para que os seus nutrientes possam ser reaproveitados no menor tempo possível pelos vegetais ao redor. Isso faz com que o suprimento vital de alimento na floresta esteja armazenado na própria folhagem. Assim, a riqueza das florestas tropicais está na massa vegetal, não no solo. Isso enganou - e ainda engana - aqueles que, diante das árvores portentosas, acharam que os solos da floresta seriam tão férteis que neles em se plantando tudo daria.

Estima-se que a floresta tenha de 500 a 700 toneladas de matéria verde viva por hectare, incluindo caules, troncos e raízes. Desse total, as folhas representam cerca de 20 toneladas, ou seja, algo como 3 ou 4%. Em comparação com a massa vegetal, a fauna não é tão abundante. Existem somente 30 quilos de herbívoros por hectar3e, por exemplo. A razão desse outro paradoxo é a mesma da anterior. Apesar da exuberância e variedade, as espécies vegetais da floresta são extremamente pobres em vitaminas e nutrientes, o que as torna inadequada ao sustento de rebanhos de animais.

Essa é também a causa da rarefação humana no ecossistema da floresta tropical. Mesmo as comunidades indígenas que ali se desenvolveram se caracterizam pelo número relativamente limitado de membros. A Amazônia não atrai naturalmente grandes aglomerações humanas. A falta de animais herbívoros acarreta, por outro lado, um menor número de espécies de mamíferos selvagens. Em termos de presença desses animais, a Amazônia fica atrás de todas as formações vegetais do planeta. A extrema diversificação de espécies vegetais na floresta - cerca de trezentas variedades por hectare, em média - também é uma resposta da natureza às condições desfavoráveis da região.

Cada espécie tem suas características próprias quanto a disposição das raízes no solo e ao aproveitamento dos nutrientes. Assim, quanto maior for a diversidade numa área, maior o aproveitamento de todos. Praticamente, nada é perdido. Na Amazônia, a competição parece ter alcançado um estágio requintado de equilíbrio. A variedade de espécies vegetais só é igualada pela de insetos, vermes e outros ínfimos seres que constituem a microfauna da floresta. Em cada hectare podem ser encontradas cerca de 120 toneladas dessas formas de vida.

Algumas pesquisas estimam que somente na Amazônia possa residir cerca de 30% de todo o estoque genético do planeta, ou seja, 30% de todas as seqüências de DNA que a natureza combinou. É um número extraordinário, e certos pesquisadores ainda consideram tratar-se de um cálculo por baixo. Uma coisa é absolutamente certa: a preservação da variedade genética da Floresta Amazônica - que faz da região uma espécie de banco de gens, o maior do mundo - deve ser um dos argumentos mais fortes contra o desmatamento por atacado e a ocupação sem critério da Amazônia. Pois, por mais abstrato que esse argumento possa parecer aos invasores do local - desde os simples colonos que migram de outras regiões às empresas multinacionais de mineração - cada espécie é única e insubstituível e sua destruição pode significar a perda de um importante acervo genético, de incalculável valor prático para o homem.


Apenas se começa a aprender a ler mais informações contidas nas florestas tropicais, existe aí uma verdadeira enciclopédia a ser conhecida. Os índios com certeza têm algo a ensinar nesse vasto capitulo. Os antropólogos descobriram que cada comunidade indígena que habita a Amazônia dispõe de um cardápio de pelo menos cem plantas e um receituário de duzentas espécies vegetais. Um exemplo relativamente recente da utilização do estoque genético da floresta é o desenvolvimento de um remédio contra hipertensão - inspirado no veneno da jararaca. Essa cobra mata a sua presa com uma substância tóxica que reduz a zero a pressão sanguíneos do animal. Os estudos sobre a ação do veneno no organismo trouxeram informações valiosas para o reconhecimento da pressão no ser humano.

É esse patrimônio que deve ser preservado junto com as florestas. É um desafio urgente. O atual ritmo de extinção de espécies no mundo provavelmente não tem paralelo. Os pesquisadores calculam que nos próximos 25 anos cerca de 1,2 milhões de espécies (dos até 30 milhões que se supõe existir na Terra), desaparecerão por completo com a devastação de seus refúgios florestais. Isso equivale a um genocídio de aproximadamente 130 espécies inteiras por dia.

O debate em torno da preservação das florestas tropicais ainda esta longe de se esgotar. A maioria das previsões - mais ou menos desastrosas - que se faz nesse campo estão atreladas a modelos matemáticos, muitas vezes passíveis de falhas. De todo modo, enquanto os especialistas conferem suas projeções, fatos acontecem. E a idéia de preservar indefinidamente a Floresta Amazônica se mostra cada vez mais impraticável. Como a vocação da Amazônia é essencialmente florestal, é necessária a sua utilização racional, menos predatória.

A questão que está posta é rigorosamente esta: conjugar o desenvolvimento e a abertura de novas fronteiras com o delicado equilíbrio que sustenta os ecossistemas da floresta tropical. Iniciativas como a construção de grandes hidrelétricas devem ser planejadas cuidadosamente, se bem que seus efeitos a longo prazo para a floresta ainda sejam desconhecidos. Não se pode perder de vista um dado essencial: o conhecimento sobre dinâmica das florestas tropicais ainda é muito precário. Não ocorre o mesmo com as florestas temperadas do hemisfério norte. Por sinal, ao contrario do que se imagina, essas florestas vêm aumentando sensivelmente nas últimas décadas. Na França, por exemplo, representam atualmente cerca de 30 % do território - menos em todo caso do que ao tempo da Revolução de 1789. Calcula-se que a chuva ácida e a poluição danificaram pouco mais de um quinto das áreas florestais na Europa. No Japão, o último relatório anual sobre a situação do meio ambiente no país mostra que 67% do arquipélago está coberto de florestas. Se a isso se somarem às áreas ocupadas por lagos, montanhas, neves eternas e pradarias, se verão que ali as regiões naturais chegam a 80% da área total. Em resumo, toda extraordinariamente vigorosa economia do Japão brota numa área inferior ao estado do Rio de Janeiro - prova de que a propriedade não é incompatível com a preservação da natureza, ou com seu uso inteligente quando não há alternativa.

Pelo menos 10% de todas as formas vivas existentes no planeta, 20% da água potável e um terço das matas latifoliadas - folhas largas - de todo mundo estão reunidos em um irregular tapete verde de 7,8 milhões de quilômetros quadrados no norte da América do Sul, a grande Amazônia.
Essa vastidão já maravilhou muitos exploradores e estrategistas, caso do britânico Richard Spruce, um dos mais famosos botânicos e exploradores da floresta (1817 - 1893) consumiu 17 anos de sua longa vida anotando tudo que pudesse ser de interesse de Sua Majestade. Relatos históricos registram que muitas vezes ele se lamentou que toda a região não estivesse nas mãos da Inglaterra. A Amazônia espalha-se por terras de Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela, além do Suriname, Guiana e Guiana Francesa.

Dados consolidados num trabalho preparado pelo MMA (ministério do Meio Ambiente), dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal, a Agenda Amazônica 21, avaliam que mais de 25% de todas as drogas prescritas nos EUA contêm substâncias derivadas de plantas das florestas tropicais.

Apenas as populações indígenas, segundo o levantamento, dominam o conhecimento de 1300 dessas plantas com princípios ativos com características de antibióticos, anticoncepcionais, antidiarréicos, anticoagulantes, fungicidas, anestésicos, relaxantes musculares e antiviróticos. Neste último caso, são recursos promissores para a descoberta de novos medicamentos.

Autoria: Ademir Kleber Morbeck de Oliveira 

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