Bullying na escola: quando o foco é a deficiência física

03/04/2013 17:53:00


Atualmente a questão do bullying é, de fato, muito discutida. E, para se falar nisso, primeiramente, temos que saber o que é, mesmo, esse fenômeno que, na verdade, trata-se, até, de uma polêmica. Então, para essa necessária conceituação, Cézar e Barros Neta (2011, p. 4) trazem concepções e pressupostos de Fante (2005) e Guareschi (2008), afirmando que o bullying pode ser descrito como:

[...] a forma de violência mais cruel, pois tal nível de agressividade torna suas vítimas reféns da ansiedade e de emoções que interferem negativamente nos seus processos de aprendizagem e convívio social, devido à excessiva mobilização de emoções de medo, de angústia e de raiva reprimida. Isso pode ser decisivo no incentivo à evasão escolar e ao ingresso desses alunos no mundo das drogas e do crime, bem como, formar uma geração de pessoas psicologicamente desestruturadas, que poderão vir a cometer violência doméstica e adotar características antissociais.

E torna-se essencial frisar que, quando o assunto é o bullying, [...] a situação se torna ainda mais grave [...] quando o alvo é uma criança ou um jovem com algum tipo de deficiência - que nem sempre tem habilidade física ou emocional para lidar com as agressões. [...] (NOVA ESCOLA, 2009).

Assim, através desse prisma, o bullying é - ou parece ser - ainda mais facilmente oferecido, mais operante, principalmente quando se trata da Deficiência Física, mesmo que, nesse caso, a prática do referido mal se mostra, realmente, de uma maneira bem disfarçada.

A Deficiência Física pode ser proveniente de diversas causas, como condições adquiridas, má-formação congênita, lesões neurológicas e neuromusculares etc., sendo que três de seus principais tipos são a Paraplegia (perda total das funções motoras dos membros inferiores), a Tetraplegia (perda total da função motora dos quatro membros) e a Hemiplegia (perda total das funções motoras de um hemisfério do corpo).

No entanto, outros aspectos da aparência e da condição física são, também, muitas vezes, motivos para chacotas, chateações, gracinhas, dentre outros abusos, para os praticantes do bullying, lembrando que “a violência moral e física contra estudantes com necessidades especiais é uma realidade velada [...]” (Nova Escola, 2009), todavia, nada impede que muitas das vítimas sejam atingidas de modo translúcido, a ponto até de sofrerem algum tipo de agressão. Aliás, a mídia traz muitos exemplos disso.

O que aqui se coloca enfaticamente é que aquilo que está mais visível torna-se um “prato cheio” para os praticantes do bullying; ou seja, determinados aspectos físicos de alguma deficiência tornam-se esse “prato cheio”. E, quando os referidos aspectos vêm somados a outros que lhes podem ser intrínsecos, como o comprometimento da fala ou da audição, por exemplo, o mesmo “prato”, ainda é remontado, passando a ser um “prato transbordante”.

Desde os tempos de outrora, até os dias atuais, muitos dos olhares para esses indivíduos parecem ser, fielmente, os mesmos. O descaso, o desprezo, a aversão perduram, neles, presentes. E foi lembrado, dessa maneira, de um passado remoto porque as deficiências sempre existiram. Aliás, “anomalias físicas ou mentais, deformações congênitas, amputações traumáticas, doenças graves e de consequências incapacitantes, sejam elas de natureza transitória ou permanente, são tão antigas quanto a própria humanidade” (SILVA, 1987, p. 21), sendo pertinente enfatizar que, bem antigamente, se uma criança parecia “feia, disforme e franzina”, revelando algum tipo de limitação física, era levada e jogada em um abismo, “pois tinham a opinião de que não era bom nem para a criança nem para a república que ela vivesse, visto que, desde o nascimento, não se mostrava bem constituída para ser forte, sã e rija durante toda a vida” (LICURGO DE PLUTARCO apud SILVA, 1987, p. 105).

Diante dessa tamanha crueldade, é incontestável que, em épocas contemporâneas, ornam mudanças... Aliás, mudanças muito significativas. Entretanto, o bullying não acabou e, dificilmente, o verbo “acabar”, em relação ao referido problema, poderá ser empregado na íntegra, afinal, deficientes podem até não estar sendo jogados em abismos, contudo, eles continuam sendo vítimas de olhares que não os veem, apenas, como diferentes, mas, sim, como “desiguais”, inclusive dentro da própria Instituição Escolar que, por sua vez, tanto tem a obrigação de contribuir na promoção da Inclusão Social.

Na verdade, a “diversa diversidade” humana - permitam-me utilizar, digamos, um trocadilho - infelizmente, é motivo para que alguém se sinta ofendido a ponto, até, de praticar severos casos de violência, inclusive, contra alguém que, por alguma limitação física, não tem nem como se defender, ficando nítido, então, que, mesmo diante das tantas mudanças e transformações deste mundo globalizado, determinados aspectos da pluralidade humana ainda não são aceitos. E, vale lembrar que, sobre isso, existem excelentes palavras que podem ser empregadas em todo o contexto da presente discussão. São vocábulos de Santos (1995), os quais dizem que [...] “temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”.

O significado dessas palavras de Santos (1995) é mais que uma verdade porque, ainda que alguém nos considere inferiores a si por algum “motivo” que para essa tal pessoa passa a ser uma “razão”, temos, mesmo, o direito a ser incluídos naquela igualdade que esse mesmo sujeito busca para si, assim como temos o direito a ser diferentes quando essa igualdade, equivocadamente, passa a nos descaracterizar, sendo que, como exemplo disso, pode-se falar do portador de Necessidades Educativas Especiais (NEE), quando o mesmo esteja na condição de não ser amparado, considerado, respeitado, protegido e atendido, sobretudo na Escola, dentro das suas características e subjetividade, sendo frisado que, de fato, tudo isso deve ocorrer em um clima de Educação Especial, mas que, realmente, esta seja contemplada numa efetiva incorporação ao Sistema Educacional do ensino comum.

Referências
CESAR, Coll; MARCHESI Álvaro; PALACIOS, Jesús & colaboradores. Desenvolvimento psicológico e educação: transtornos de desenvolvimento e necessidades educativas especiais. Trad. Fátima Murad - 2. ed. 3v. Porto Alegre: Artmed, 2004.
CÉZAR, N; BARROS NETA, M. da A. P. O impacto do fenômeno bullying na vida e na aprendizagem de crianças e adolescentes. Disponível em: http://www.ie.ufmt.br/semiedu2009/gts/gt2/ComunicacaoOral/NEURA%20CEZAR.pdf. Acesso em: 30/03/2013.
LEANDRO, Vera Lucia Damacena. Bullying no ambiente escolar. 2011. Disponível em: http://www.pedagogiaaopedaletra.com.br/posts/bullying-no-ambiente-escolar/. Acesso em: 28/03/2013.
REVISTA Nova Escola. Bullying contra alunos com deficiência / Edição 228/Dezembro de 2009. Título original: Chega de Omissão. Disponível em: http://deficienciavisualsp.blogspot.com.br/2009/12/bulling-contra-alunos-com-deficiencia.html. Aceso em: 27/03/2013.
SANTOS, Boaventura de Souza. Entrevista com o Prof. Boaventura de Souza Santos. (On line). Disponível: http://www.dhi.uem.br/jurandir/jurandir-boaven1.htm, 1995. Acesso em: 21/07/2011.
SILVA, Otto Marques da. A Epopéia ignorada - a história da pessoa deficiente no mundo de ontem e de hoje. Centro São Camilo de Desenvolvimento em Administração da Saúde, 1987.

Autor: Selmai S. Ourives Biazão






Fonte: Portal Educação - Cursos Online : Mais de 1000 cursos online com certificado


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