Atividade Lúdica

31/01/2013 12:38:00


A aquisição de linguagem é um processo contextualizado, faz parte do conhecimento de mundo sobre as pessoas, as ações, os sentimentos, os eventos do meio. É um processo influenciado pela motivação, pela experiência com o outro e está intimamente ligado a outras habilidades semióticas e cognitivas (CHAPMAN, 1996). O aparecimento da linguagem faz parte de uma série de transformações no comportamento da criança, marcadas pelo aparecimento de condutas simbólicas e de transformações correlatas na forma de compreender e interagir com o mundo (ZORZI, 1999).

A linguagem é uma atividade comunicativa, com função social, mas é também uma atividade representativa, na medida em que permite evocar ações, pessoas, objetos ausentes.

Na criança, as primeiras manifestações da capacidade simbólica, inerente ao ser humano, ocorrem por meio da linguagem oral e do brincar simbólico. Quando a linguagem oral não aparece, não é incomum as crianças também apresentarem atraso na atividade simbólica sobre o brinquedo.

Dessa forma, a avaliação fonoaudiológica deve, sempre, independente de ter uma criança diante de si com oralidade, incluir a atividade lúdica, considerando a intrínseca relação entre a capacidade de representar o mundo por intermédio da fala e do faz de conta. Aliás, esse tipo de avaliação auxilia consideravelmente no diagnóstico diferencial de crianças com Atraso no Desenvolvimento da Linguagem daquelas com Atraso de Linguagem como parte de um déficit mais global do desenvolvimento.
Mas quais seriam os critérios de análise da atividade lúdica?

Quando a criança manipula os objetos, é possível observar o tipo e frequência da ação sobre o brinquedo: se as ações estão restritas a uma manipulação sensório-motora ou se o brincar já atingiu algum nível simbólico, ou seja, se a criança dá funcionalidade aos brinquedos, se imita ações que ocorrem no seu dia a dia, se coordena sequências de ações. É importante verificar também quais as ações que predominam na atividade infantil: se as sensório-motoras ou as simbólicas. Outro critério de análise é a forma de manipulação sobre os brinquedos: se ela é rápida e desinteressada, ou ainda, se a exploração já atingiu um nível de maior atenção sobre os objetos. Isto pode ser observado quando a criança experimenta os brinquedos das mais variadas formas (ZORZI, 1993).

Aplicação de escalas de desenvolvimento

As escalas de desenvolvimento refletem os principais ganhos ao longo do desenvolvimento e tem o objetivo de determinar o nível evolutivo específico da criança.

O nível de evolução da criança é obtido por meio de dados relatados sobre o desenvolvimento da criança (normalmente os pais) que, posteriormente, são comparados com uma escala. Os dados também podem ser obtidos a partir da observação direta sobre o comportamento da criança quando solicitada a realizar determinadas tarefas que reflitam as condutas específicas que se mostram na escala.

As escalas são frequentemente utilizadas na avaliação de crianças com menos de três anos com o intuito de detectar, precocemente, alterações no desenvolvimento da linguagem, principalmente quando se tem dúvidas sobre a evolução desse desenvolvimento. Podem-se citar algumas delas: ELM - Early Language Milestone Scale, (COPLAN, 1982); BSID-II- Bayley Scale Infant Development, revisada, (BAYLEY, 1993). Todavia, há escalas que podem ser aplicadas em crianças com mais de três anos.
Uma dessas escalas, bastante utilizada para detecção precoce de transtornos do desenvolvimento, incluindo alterações do desenvolvimento da linguagem, é o DDST - Denver Developmental Screening Test. (FRANKENBURG e DODDS, 1967). Abrange a faixa etária de zero a seis anos de idade, é de fácil aplicação e pode ser usado por profissionais da área da saúde e/ou da educação. Baseia-se na observação direta do que a criança pode fazer e no relato dos pais. É composto de quatro grandes áreas: conduta social, motricidade fina e adaptação, linguagem e motricidade grossa.

Uma escala semelhante é a de Gesell e Amatruda (1989), que abrange também a faixa etária de zero a seis anos e pode ser aplicada pelos diversos profissionais da área da saúde, incluindo o fonoaudiólogo. As áreas avaliadas são: comportamento adaptativo (ajustes viso-motores para solução de problemas); comportamento pessoal-social (reações pessoais à cultura social); comportamento motor grosseiro (postura, equilíbrio, marcha); comportamento motor delicado (preensão e manipulação dos objetos) e comportamento de linguagem.

Mas quais seriam as vantagens do fonoaudiólogo incluir nos seus procedimentos de avaliação a aplicação de escalas de desenvolvimento? Algumas, bem interessantes.

Primeiro, as escalas foram aplicadas num número grande de crianças e, dessa forma, fornecem parâmetros de normalidade bastante confiáveis e objetivos.

É importante lembrar que o fonoaudiólogo lida com uma das funções mentais superiores mais complexas da natureza humana, onde é difícil estabelecer uma metodologia de avaliação que possa ser utilizada com crianças de diferentes níveis sociais e de uma ampla faixa etária.

A linguagem tem uma natureza altamente qualitativa, de difícil quantificação. Assim, instrumentos, um pouco mais objetivos e que não se restrinjam só a linguagem, quando bem aplicados e bem interpretados, contribuem para o entendimento das alterações do desenvolvimento infantil, incluindo o desenvolvimento da linguagem.

Segundo, como as escalas podem ser aplicadas por diferentes profissionais da área da saúde, este fato dá ao fonoaudiólogo certa autonomia para o diagnóstico das alterações de linguagem em crianças, pois a escala contribui para evidenciar se o atraso de linguagem é específico ou faz parte de alterações mais globais do desenvolvimento. E isso é muito bom, pois fornece subsídios para diagnóstico diferencial e dirige melhor as possíveis condutas terapêuticas.

Autor: Colunista Portal - Educação






Fonte: Portal Educação - Cursos Online : Mais de 1000 cursos online com certificado


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