Conservação Ex Situ E In Situ

15/10/2012 18:20:00


Conservação ex situ é uma estratégia de preservação e recuperação de espécies vegetais e animais; envolve populações não-naturais, como plantas cultivadas em estufas e sementeiras, e animais criados em cativeiro ou aquários (Wikipédia, enciclopédia livre).


Conservação in situ são estratégias de conservação de ecossistemas e habitats naturais e de manutenção e recuperação de populações viáveis de espécies em seus meios naturais e, no caso de espécies domesticadas ou cultivadas, nos meios onde tenham desenvolvido suas propriedades características (inciso VII, art. 2º, SNUC).


Em termos de Biologia da Conservação, muitas vezes, para otimizar tempo e recursos em pesquisas, utilizam-se metodologias complementares para determinação de estratégias de manejo para conservação de espécies ameaçadas. Por exemplo, os papagaios-da-cara-roxa, na área do sul de São Paulo e norte do Paraná, na região de Guaraqueçaba (maior área de Mata Atlântica contígua no Brasil), a SPVS desenvolve estudos de campo sobre comportamento e estudos ex situ, no Zoológico de Curitiba para obtenção de dados sobre a Biologia reprodutiva desta espécie, testando, inclusive, modelos de ninhos artificiais mais aceitos por aquela espécie. O zoológico recebeu recintos exclusivos para os papagaios-da-cara-roxa e a SPVS trabalha para mudar o status de extinção dessa espécie.


Isso demonstra que, ao invés de apenas observar passivamente as espécies em perigo que se dirigirem para a extinção, muitos biólogos de conservação começaram a desenvolver abordagens para salvar essas espécies. Alguns métodos novos e interessantes estão sendo desenvolvidos para estabelecer novas populações silvestres e semi-silvestres de espécies raras e ameaçadas, e para aumentar o tamanho da população existente. Estes experimentos oferecem a esperança de que as espécies, agora vivendo apenas em cativeiro, possam recuperar seu papel na natureza, seja ecológico ou evolucionário, dentro das comunidades biológicas. Um experimento interessante que está sendo adotado pelos estudiosos é adicionar ao equipamento de rádio telemetria, um GPS para que se consiga mapear padrões de deslocamento do animal em seu território.


Na natureza, as populações podem ter menos chances de destruição por catástrofes (tais como epidemias ou guerras), do que as populações confinadas em cativeiros (quem não viu o que aconteceu aos pandas na China no último terremoto que matou centenas de pessoas?). Além disso, simplesmente aumentar o número e o tamanho das populações de uma espécie, geralmente já diminui sua probabilidade de extinção.


Os programas de estabelecimento não serão eficazes, a menos que os fatores que levam ao declínio das populações silvestres originais sejam claramente entendidos e então eliminados, ou pelo menos controlados. Por exemplo, se uma espécie endêmica de pássaros for caçada até sua extinção no seu ambiente natural, por habitantes locais, e suas áreas de criação danificadas pelo desenvolvimento, e seus ovos comidos por uma espécie exótica, essas questões têm que ser tratadas como parte integral de um programa de restabelecimento.

Simplesmente liberar pássaros criados em cativeiro, na natureza, sem uma discussão que envolva os vários segmentos da sociedade local (responsáveis pala extinção), sem uma mudança nos padrões de uso da terra, e sem controle de espécies exóticas, resultaria em uma recorrência da situação original. A mesma fórmula cabe para os processos de simples soltura de alevinos em rios e lagoas, para “repovoamento”.


Três abordagens básicas têm sido usadas para estabelecer novas populações de animais e plantas. Um programa de reintrodução compreende soltar indivíduos retirados do ambiente selvagem ou criados em cativeiro, dentro de uma área de ocorrência histórica, onde essa espécie não mais existe ou está em declínio (Kleiman, 1996, apud RODRIGUES, op.cit.).


O principal objetivo de um programa de reintrodução é criar uma nova população no ambiente original. Por exemplo, um plano recentemente implementado para reintroduzir micos-leões pretos (Leonthopitheus chrysopigus) nos fragmentos de floresta ao redor do Parque Estadual do Morro do Diabo, de modo que o fluxo gênico, entre o Parque e os fragmentos de floresta, seja aumentado. Indivíduos são frequentemente libertados no local de onde eles ou seus ancestrais foram retirados, para garantir adaptação genética ao ambiente.


Indivíduos são também, às vezes, soltos em outros lugares dentro da abrangência da espécie com uma nova área protegida sendo estabelecida, uma vez que uma população existente está sob uma nova ameaça ou não mais conseguirá sobreviver em sua localização atual, ou porque há barreiras naturais ou artificiais dificultando as tendências normais de dispersão da espécie. Em Manaus, temos outro exemplo de primata trabalhado, o sagui-de-coleira ( Saguinus bicolor). Este pequeno primata ocorre na Amazônia, na área mais densamente povoada, no perímetro urbano de Manaus e no seu entorno, e as populações, em franco declínio, são manejadas para garantir o fluxo gênico por pesquisadores da UFAM, nas suas referidas áreas de ocorrência.


Infelizmente, há uma confusão entre os termos que denotam a reintrodução de populações. Às vezes esses programas também são chamados, na literatura, de “restabelecimento de populações”, “restaurações” ou “translocações”. O importante é sempre lembrar que todas essas nomenclaturas se enquadram em categorias de manejo.


Dois outros tipos distintos de programas de liberação também estão sendo usados. Um programa de acréscimo consiste em liberar indivíduos em uma população existente para aumentar seu tamanho e o seu pool gênico. Esses indivíduos podem ser indivíduos selvagens retirados de algum outro tipo de lugar ou indivíduos criados em cativeiro. Um exemplo especial de acréscimo é a abordagem de “vantagem inicial”, na qual filhotes de tartaruga marinha são criados em cativeiros ou protegidos durante seu estágio de vida mais vulnerável, e depois são liberados no ambiente natural, como por exemplo, é o que faz o Projeto Tamar Tartarugas Marinhas.


Na África, algumas experiências estão sendo feitas com populações de leões e também de elefantes africanos, por se tratarem de grandes mamíferos com espaços restritos. Estas espécies estão em processo de vulnerabilidade gênica por endocruzamento, e a partir daí, algumas experiências estão sendo feitas nos Parques africanos para melhorar a qualidade gênica das populações.
O programa de introdução transporta animais e plantas para áreas fora da sua extensão histórica, na esperança de estabelecer novas populações (Conant, 1988, apud RODRIGUES, op.cit.). Tal abordagem pode ser adequada quando o ambiente dentro da extensão histórica de uma espécie se deteriorou a ponto da espécie não conseguir sobreviver ali, ou quando o fator que causa o declínio original ainda está presente, tornando a reintrodução impossível. A introdução de uma espécie para novos sítios precisa ser cuidadosamente pensada, para assegurar que a espécie não danifique seu novo ecossistema ou prejudique populações de qualquer espécie ameaçada no local.


Também deve se tomar cuidado para garantir que os indivíduos liberados não tenham contraído doenças, enquanto em cativeiro, que poderiam se espalhar e dizimar populações silvestres inteiras. Em várias ilhas do litoral paulista foram introduzidas cabras trazidas da Europa, com o intuito de haver carne disponível quando os navegadores voltassem ao Novo Mundo. Essa estratégia causou extensos danos para a vegetação nativa nessas ilhas.


Estratégias de Conservação Ex Situ
A melhor estratégia para proteção a longo prazo da diversidade biológica é a preservação das comunidades naturais e populações no ambiente selvagem, conhecida como preservação in situ ou preservação local. Somente na natureza as espécies são capazes de continuar o processo de adaptação evolucionária para um ambiente em mutação dentro de suas comunidades naturais.


A princípio, a conservação in situ pode não ser eficiente para pequenas populações, ou no caso de todos os indivíduos remanescentes se encontrarem fora das áreas protegidas (Conway, 1980; Dresser, 1988; Seal, 1988, apud RODRIGUES op.cit.). Todavia, em grande parte dos trópicos, incluindo o Brasil, não se conhece o tamanho de população da maior parte das espécies de plantas. Na verdade, existem até mesmo inúmeras espécies que nem foram nomeadas e descritas.


Desta forma, a conservação in situ se configura como principal estratégia de conservação para estas espécies, para que antes que elas possam ser conservadas, possam ao menos ser estudadas. Para grupos com menos espécies e grandes exigências de espaço, como os grandes vertebrados, é provável que a única maneira de se evitar que as espécies se tornem extintas seja manter os indivíduos em condições artificiais sob a supervisão humana, como por exemplo, em zoológicos.


Esta estratégia é a conservação ex situ. Instalações ex situ para preservação animal incluem zoológicos, fazendas com criação de caça, aquários e programas de criação em cativeiro. As plantas são mantidas em jardins botânicos, arboretos e bancos de sementes. Uma estratégia intermediária que combina elementos, tanto de conservação in situ quanto de ex situ da preservação, é o monitoramento intensivo e o manejo de populações de espécies raras e ameaçadas em pequenas áreas protegidas; tais populações estão ainda de certa forma em nível selvagem, porém a intervenção humana pode ser usada ocasionalmente, para evitar o declínio da população.
Os esforços de conservação ex situ são parte importante de uma estratégia de conservação integrada para proteger as espécies ameaçadas. De acordo com Kennedy (1987) e Robinson (1992) apud RODRIGUES op. Cit., as estratégias in situ e ex situ são complementares para a preservação e conservação das espécies. Indivíduos de populações ex situ podem ser periodicamente soltos na natureza para aumentar os esforços de conservação in situ. Pesquisas sobre populações em cativeiros podem fornecer ideias para a biologia básica de uma espécie e sugerir novas estratégias de conservação de populações in situ; vejam o exemplo dado anteriormente sobre o papagaio-da-cara-roxa. As populações ex situ, que são sustentáveis, podem também reduzir a necessidade de retirar indivíduos do ambiente natural para serem colocados à mostra ou para fins de pesquisa.


Enfim, os indivíduos criados em cativeiros que estão à mostra podem ajudar a educar o público sobre a necessidade de preservar as espécies, e desta forma, proteger outros membros das espécies que se encontram no ambiente natural.


A preservação in situ de espécies, por sua vez, é vital para a sobrevivência de espécies que são difíceis de se manter em cativeiro, tais como o lobo-guará, assim como dar condições de apresentação de novas espécies para zoológicos, aquários e jardins botânicos.


A conservação ex situ não é nada barata, o custo de manutenção de animais é alto; por exemplo, para se manter elefantes e leões africanos e rinocerontes pretos em zoológicos (em boas condições de abrigo, alimentação e saúde) é 50 vezes mais caro do que proteger o mesmo número de indivíduos em Parques Nacionais do Leste Africano. Como Michel Soulé diz: “Não há casos perdidos, somente pessoas em situações caras demais”, apud. RODRIGUES, op.cit.


Manejo e Recuperação de Espécies da Fauna
O Brasil possui programas oficiais de manejo que abrangem sete espécies de tartarugas, cinco de aves, e 26 de mamíferos. Parte destes programas são projetos ou centros de pesquisa e conservação in situ, vinculados ao IBAMA, com ênfase no monitoramento e recuperação de populações naturais. São eles:
- Projeto Lontra;
- Projeto Baleia Jubarte;
- Projeto Golfinho Rotador;
- Projeto Mamíferos Marinhos do Litoral Sul;
- Projeto Papagaio-chauá;
- Projeto Peixe-Boi;
- Centro de Pesquisa para a Conservação de Aves Silvestres - CEMAVE (Inclui Projeto Arara-Azul-de-Lear);
- Centro Nacional de Pesquisa, Conservação e Manejo de Mamíferos Aquáticos;
- Centro Nacional de Pesquisa para a Conservação dos Predadores Naturais – CENAP;
- Centro de Conservação e Manejo de Répteis e Anfíbios - RAN (incorpora o antigo Centro Nacional de Conservação e Manejo de Quelônios da Amazônia).
- Centro Nacional de Conservação e Manejo das Tartarugas Marinhas –TAMAR.
O grau de consolidação destes centros e projetos é variável, e as experiências mais bem sucedidas combinam conservação e envolvimento comunitário, e são geridas por parcerias entre governo e ONGs. Há alguns excelentes exemplos, como os projetos TAMAR, Papagaio-Chauá, Mico-Leão-Dourado, e Mico-Leão-da-Cara-Preta. Experiências duradouras e com orçamentos tão significativos como estas, todavia, não chegam a uma dezena. A principal limitação é a falta de recursos. Todos estes projetos resultam de investimentos materiais e humanos consideráveis para os padrões brasileiros, e por longo prazo. Além disto, como estes projetos dependem de patrocínio e da sensibilização da sociedade, estarão sempre restritos a espécies que despertem o interesse do grande público.


As iniciativas mais abrangentes de manejo ex situ de fauna no Brasil são os Planos de Manejo Reprodutivo e Conservacionista de Espécies Ameaçadas de Extinção, desenvolvidos por redes de zoológicos, criadouros, universidades, ONGs, e órgãos governamentais. Os objetivos dos planos são a manutenção de populações cativas autossustentáveis, manutenção da diversidade genética das espécies, e apoio a programas de reintrodução. As principais atividades têm sido o cadastro e monitoramento dos animais cativos, integração interinstitucional das ações, e pesquisa em tecnologias de criação em cativeiro.


No momento, instituições brasileiras conduzem ou participam destes programas para duas espécies de répteis, dez de aves, e 18 de mamíferos.


Em resumo, os grandes programas de manejo de animais no Brasil incluem algumas experiências bem-sucedidas, mas ainda abrangem uma parcela ínfima da fauna, mesmo das espécies oficialmente reconhecidas como ameaçadas. Sendo a causa principal desta situação a falta de recursos, é paradoxal o imenso investimento governamental nas últimas décadas para o resgate de animais em áreas inundadas por reservatórios de hidrelétricas.


Cada operação destas recolhe e transfere dezenas a centenas de milhares de animais, em geral sem uma avaliação prévia de sua viabilidade, ou um acompanhamento posterior. Uma única operação custou US$ 30 milhões de dólares, dezessete vezes a receita anual do Projeto TAMAR, ou 200 vezes o custo do Projeto da Arara-Azul-de-Lear (MMA, 2000e).


A maioria dos especialistas condena estes programas, que consideram inócuos, ou mesmo prejudiciais para a conservação. Assim, embora mais investimentos sejam necessários, um uso mais racional dos recursos disponíveis já promoveria muito progresso nos programas de manejo e conservação do país.

Autor: Colunista Portal - Educação






Fonte: Portal Educação - Cursos Online : Mais de 1000 cursos online com certificado


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