Doação de Órgão e as Dificuldades Encontradas no Processo

29/09/2012 17:16:00


A doação de órgãos é entendida como um ato pelo qual você manifesta a vontade de que, a partir do momento de sua morte, uma ou mais partes do seu corpo (órgãos ou tecidos), em condições de serem aproveitadas, possam ajudar outras pessoas.

Depois da doação é que poderá ocorrer o transplante que compreendido como a remoção de órgãos do corpo de uma pessoa que recentemente morreu (doador cadáver) ou de um doador voluntário (doador vivo), com o propósito de transplantá-lo ou fazer um enxerto em outras pessoas vivas. Os órgãos são retirados com procedimentos similares a uma cirurgia, e todas as incisões (cortes) são fechadas após o término da cirurgia.

Estes procedimentos são feitos para que a pessoa em seu funeral não seja reconhecida como uma doadora por apresentar deformações e cortes visíveis. O primeiro transplante bem sucedido de órgãos aconteceu em 1954, em Boston (EUA), quando o Dr. Joseph E. Murray realizou um transplante de rins entre dois gêmeos idênticos no Hospital Brigham and Women.

Murray se baseou na descoberta dos médicos até então de que em transplante entre gêmeos idênticos não havia o risco de rejeição uma vez que o genoma de ambos, receptor e doador, são o mesmo. Somente na década de 60 que médicos descobriram um meio de realizar um transplante de órgão entre não parentes sem que houvesse a rejeição, com parando a compatibilidade entre os indivíduos.

Mesmo assim, os riscos ainda permaneciam altos e as chances de sobrevivência após a cirurgia eram baixíssimas. Foi só a partir da década de 80 que os medicamentos imunossupressores tiveram uma evolução muito boa e possibilitaram que a prática de transplantes de órgãos e tecidos se tornasse rotineira. Mas ainda faltava uma barreira a transpor: a falta de informação e o preconceito que permanece até hoje principalmente na sociedade brasileira.

Atualmente o Sistema Público de Saúde (SUS) brasileiro financia mais de 90% dos transplantes realizados no Brasil e também dá assistência de medicamentos imunossupressores para todos os pacientes, sendo este sistema de auxílios de medicamentos similar ao programa de tratamento da AIDS.
Existe uma legislação que regulamenta os transplantes, a Lei 9434 de 4 de fevereiro de 1997; 176° da Independência e 109° da República elaborada por Fernando Henrique Cardoso, Nelson A. Jobim, Carlos César de Albuquer essa lei também é conhecida como Lei dos Transplantes, aborda as questões da Disposição Post Mortem de Tecidos, Órgãos e Partes do Corpo Humano para fins de Transplante; dos Critérios para Transplante com Doador Vivo e das Sanções Penais e Administrativas pelo não cumprimento da mesma. Foi regulamentado pelo Decreto Nº 2268/97, que estabeleceu também o Sistema Nacional de Transplantes (SNT), os Órgãos Estaduais e as Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDOs).

Objetivo
O presente estudo tem fim de fazer resumo bibliográfico sobre a doação de órgão e as dificuldades no processo de doação, visamos que o este trabalho possa auxiliar a população a conhecer melhor sobre o processo de doação e que possa se conscientizam sobre a importância da doação de órgão. Durante a metodologia de revisão literária o leitor entenderá como é grande a importância deste tema, já que é de interesse de todos, porque ninguém sabe se um dia vai ou não precisar de um órgão, aqui neste trabalho o leitor terá a oportunidade de conhecer realmente como funciona o processo de doação e transplante no Brasil, pois nada melhor que o conhecimento para justificar o que é importante ou não.

Metodologia
Os transplantes de órgãos no Brasil deram início no ano de 1964 no Rio de Janeiro, e em 1965 em São Paulo, com a efetivação dos dois primeiros transplantes renais do país. O primeiro transplante cardíaco aconteceu mais tarde também em São Paulo no ano de 1968, e realizado pela equipe do Dr. Euriclides de Jesus Zerbini. Depois dessa iniciação com o tempo é que foi regulamentado por legislação, para melhorar o processo de doação, atualmente o Brasil se destaca como o país com o maior programa de transplante do mundo.

A doação de órgão pode ser realizada por dois tipos de doadores, doadores vivos e não-vivos (constatação de morte encefálica), os vivos podem doar um dos rins, parte do pulmão, parte do fígado, pâncreas e medula óssea, porém para que ocorra a doação são necessárias, pessoas compatíveis com boas condições de saúde e se não for parente deve apresentar uma ordem judicial informando que não está ocorrendo nenhum comércio e que é de livre e espontânea vontade do doador.

Já nos casos de doadores não-vivos podem doar pulmões, fígado, coração, córneas, válvulas cardíacas, rins, pâncreas, intestino, ossos, cartilagem, tendão, veias, pele; o processo acontece quando ocorre à morte encefálica de uma pessoa que é a lesão irrecuperável e irreversível do cérebro após traumatismo craniano grave, tumor intracraniano ou derrame cerebral, sendo então a interrupção definitiva de todas as atividades cerebrais, primeiramente a equipe médica notifica o potencial doador à Central Nacional de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos e Tecidos (CNNCDO), faz a identificação do potencial, depois realiza avaliações clínicas de morte encefálica e o preenchimento do termo de declaração de morte encefálica após três avaliações realizadas por médicos diferentes confirmando a morte, encaminha o caso para Organização de Procura de Órgãos (OPO) que vai fazer identificação, solicitação e avaliação dos Exames Laboratoriais e Imagens Diagnósticas e a manutenção do doador, também ficam responsável pela coordenação do centro cirúrgico, depois de passar OPO faz uma entrevista com a família para autorizar a doação, se a família autorizar assina um Termo de Autorização de Doação de Órgãos obrigatoriamente com a participação do responsável legal mais duas testemunhas.

Assim que terminar Notifica o doador para a CNCDO, para providenciar a distribuição, agendamento cirúrgico, a transferência do doador é de responsabilidade da OPO, a retirada dos órgãos para transplantes vai ser realizada pelas equipes de transplantes, determinadas pela CNCDO, logo após a retirada é entregue a família o corpo condigno (de forma adequada), o IML vai emitir o atestado de óbito; começando então o transplante em que a escolha do receptor é feita CNCDO com base em critérios determinados em lei. Os casos de contraindicação para a doação de órgão é para pacientes que possuem Infecção não controlada, HIV, hepatite, ente outras doenças.

Fila de Espera Para Transplantes no Brasil
A fila para transplantes apresenta um expressivo desequilíbrio entre demanda e oferta de órgãos transplantados. O Brasil possui uma média de realização de transplantes na ordem de 6,5 transplantes por milhão de habitantes segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes existem ainda um sistema regionalizado de listas únicas de espera por órgãos, que possui centrais de captação e distribuição de órgãos espalhadas por todo o país, sendo considerado um dos maiores sistemas públicos de transplantes do mundo.

De acordo com dados do Sistema Nacional de Transplantes do Brasil, no primeiro semestre de 2008 havia 68.906 pessoas nas filas de espera por um órgão, interessante saber que esse número é pouco mais que o total de transplantes que foram realizados mundialmente em todo ano de 2007, quando foram alcançados aproximadamente, 65.000 transplantes.

Atualmente existe uma legislação em relação à fila, que de acordo com a Portaria N.º 3.407 de 05 de agosto de 1998, o sistema de lista única é constituído por um conjunto de critérios específicos de distribuição para cada tipo de órgão ou tecido, selecionando, assim, o receptor adequado. Todos os órgãos ou tecidos obtidos de doador cadáver, para que sejam destinados aos receptores na lista de espera, deverão ser distribuídos segundo o sistema de lista única. O cadastro dos pacientes no Sistema de Lista ocorre pela CNCDO (Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos) com atuação na área de sua residência pelo estabelecimento de saúde ou pela equipe responsável pelo seu atendimento.

Se o estado não possuir uma CNCDO, o paciente poderá inscrever-se em qualquer Unidade da Federação que possua uma CNCDO e que este estado faça o referido transplante. O paciente ao ser inscrito, receberá o comprovante de sua inscrição expedido pela CNCDO, bem como as explicações específicas sobre os critérios de distribuição de órgão ou tecido ao qual se relaciona como possível receptor.

Para a constituição de uma lista única de determinados órgãos ou tecidos, a CNCDO deverá possuir no território de sua atuação estabelecimento de saúde e equipe técnica autorizados pelo SNT (Sistema Nacional de Transplantes) para a realização do transplante ou enxerto correspondente.
Na ocorrência das condições clínicas de urgência para a realização de transplantes, a CNCDO estadual deve ser comunicada pela equipe para a indicação de prioridade do paciente em relação à Lista Única, e caso seja necessário, comunicar à Central Nacional de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos, a qual tentará que disponibilizar o órgão necessário para o transplante junto às outras CNCDOs estaduais.

Segundo a mesma portaria (3.407), a seleção de pacientes para a distribuição de cada tipo de órgão deve ser feita empregando critérios mínimos de acordo com órgão, todos os dados sobre os pacientes ficam em um sistema informatizado, presente em todas as centrais estaduais, que faz o ranking dos receptores automaticamente, facilitando o trabalho das equipes.

Atualmente cerca de 70.000 pessoas estão em lista de espera aguardando por um transplante compatível, este número tende a aumentar, por consequência da pequena quantidade de doadores efetivo. Uma das principais mudanças sobre a doação no Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes é a prioridade que os pacientes menores de 18 anos passaram a ter.

Sendo então considerados agora que crianças e adolescentes ficam no topo da fila para receber órgãos de doadores da mesma faixa etária, e ganham o direito de se inscrever na lista para um transplante de rim antes de entrar na fase terminal da doença renal crônica e de ter indicação para diálise.

No caso de o primeiro da fila ser incompatível com o doador, a prioridade passa para o segundo, e assim sucessivamente. Dependendo do órgão e do estado onde está o receptor, a espera pode durar mais de três anos, o que em muitos casos é sinônimo de morte.

Como Fazer Para se Inscrever na Fila Para Transplante?
Para se inscrever na lista de transplante é necessário que o paciente seja avaliado por um médico que irá preencher a documentação específica, e solicitará exames conforme protocolo, depois dos resultados dos exames e avaliação médica, se for constado que realmente ele precisa transplante o médico encaminhará o paciente para Central de Transplante do Estado onde mora, essa central analisa a situação e uma vez constatada a necessidade do transplante, o receptor vai ser inscrito na lista única e deverá manter as informações pessoais sempre atualizadas, esses receptores podem atualizar suas informações pela internet quando necessário. Na lista a situação do receptor pode ficar: - Ativo: pronto para transplante
- Exames Incompletos: quando ainda faltam exames específicos;
- Suspenso: sem condições clínicas.

As Dificuldades no Processo de Doação de Órgão é a Falta de Conhecimento da População
Segundo dados de uma pesquisa realizada por Uili Coelho, Julio. et al. com a população da cidade de Curitiba sobre doação e transplante de órgãos, entre os entrevistados com idade entre 18 a 30 anos foram mais favoráveis à doação, em relação aos com idade entre 31 e 60 anos, e menos favoráveis os com idade superior a 60 anos.

Já em no que se referem à escolaridade, os entrevistados com mais anos de estudo foram mais favoráveis à doação. Está pesquisa relatou um problema ainda muito frequente na sociedade brasileira, em relação à falta de conhecimento sobre o processo de doação de órgão, em que influencia bastante na decisão de ser ou não doador de órgão. Dados comprovam que as pessoas que tem conhecimento sobre o processo são mais favoráveis a doação de órgão, outro fator que ajuda alguém a decidir ser doador é quando alguém tem ou teve um parente que necessitou ou necessita de um órgão.

Falta de Conhecimento de Enfermeiros e Médicos
Segundo uma pesquisa realizada por Bartira Aguiar e Nazaré Pellizzetti em 1998 com 300 profissionais enfermeiros (104) e médicos (187) de uma determinada instituição, apontou que 6,6% conheciam totalmente a lei dos transplantes, enquanto que 72,7% tinha um conhecimento parcial e 20,7 desconhecia. Leva-se em consideração nesta pesquisa a Lei 9434 entrou em vigor em 1997, porém isso não justifica os outros dados dos anos posteriores em que constatou-se desconhecimento sobre o tema doação de órgão. Em outra pesquisa realizada por Galvão, Flavio. et.al em 2006 com estudantes de medicina de semestres diferentes sobre doação de órgão e transplante, indicou-se que dos 347 estudantes 56% deles relataram nunca ter assistido a cursos sobre o tema transplantes.

Dos graduandos que participaram de cursos sobre o tema, 42,8% afirmaram que as aulas ministradas foram regulares ou ruins. Noventa e dois por cento dos estudantes consideraram que o tema transplantes deve fazer parte do ensino da graduação médica.

O conhecimento declarado pelos estudantes a respeito do assunto foi regular, ruim ou péssimo em 75% dos entrevistados. No primeiro ano, 89,2% dos alunos relataram não ter recebido informação relevante sobre o assunto, enquanto que no sexto ano este percentual caiu para 35%%. Todas as pesquisas realizadas apresentaram problemas em relação ao conhecimento desses profissionais e o fato mais preocupante é saber que os futuros médicos não estão sendo bem preparados.

Recusa Familiar
Pela falta de conhecimento e religião, é que muito familiares de vitimas de morte encefálica não liberam a doação dos órgãos. Segundo uma pesquisa Clausell de 349 notificações de morte encefálica 61 (17,5%) recusaram a doação, este resultado se justifica pela falta de conhecimento, entrevista da equipe médica mal elaborada, por motivos religiosos, e medo.

No primeiro semestre de 2011 segundo o Registro Brasileiro de Transplante foram notificados 3411 potenciais doadores, desses 903 os familiares não aceitaram a doação, se um único doador pode ser capaz de salvar, ou melhorar a qualidade de vida, de pelo menos 25 pessoas - caso todos os seus órgão sejam doados, imaginamos quantas pessoas não poderia ser salvas ou quanto diminuiria a fila.

Contra-Indicação Médica
A contra-indicação geralmente é para os casos em que a vitima tem alguma doença que pode trazer malefícios para o receptor como a AIDS, Hepatite entre outras, só agora no primeiro semestre de 2011 o RBT notificou-se 350 casos de contra-indicação entre 3411 possíveis doadores. MEDO DE MORTE Uma das razões é que temos medo de morrer e não queremos nos preocupar com este tema em vida.

É muito natural não pensarmos sobre isso, seja porque "não acontece comigo ou com a minha família”. São explicações que cada um tem para justificar que não se interessa pelo assunto. E também muitas pessoas tem medo que os médicos antecipem a morte após saber que aquele paciente manifestou interesse em ser doador ou por imaginar o que o corpo vai ficar dilacerado.

Conclusão
O conhecimento sobre a importância da doação de órgão é fundamental, pois para ocorre a doação deve haver um consentimento dos familiares para a realização do procedimento, esta educação também deve abranger os profissionais da área de saúde para identificar o possível doador.

É importante também que todos os hospitais tenham estruturas adequadas para captação e equipes preparadas para realiza o procedimento. Este tema é mais que um simples conhecimento, é ajudar a salvar a felicidade de alguém, dando-lhe a liberdade de poder viver pois ainda é cedo para finalizar sua historia.

Referências
Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Disponível em www.abto.com.br - ACESSO: 06.10.2011
Presidência da República Casa Civil. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9434.htm .Acesso 28/10/2011.

BARCELOS DALRI M. et al., Aspectos éticos e legais das anotações de enfermagem nos procedimentos de doação de órgãos para transplantes, Revista da Escola de Enfermagem da USP.vol.33 nº.3 São Paulo,1999.

MATTIA A. L. et al., Análise das dificuldades no processo de doação de órgãos: uma revisão integrativa da literatura , Revista - Centro Universitário São Camilo - 2010.

RODRIGUES A. M.; HIDEO SATO E.:Conhecimento e atitude da população do Hospital São Paulo sobre doação de córneas. Disponível em www.cielo.br acesso 10/10/2011.

FLAVIO H.F. GALVAO. Conhecimento e opinião de estudantes de medicina sobre doação e transplante de órgãos; Revista da Associação Médica Brasileira,v.53 nº.5 São Paulo 2007.

Autor: Eliane Oliveira da Silva






Fonte: Portal Educação - Cursos Online : Mais de 1000 cursos online com certificado


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